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A bruxaria sonha em se provar científica. Da mesma fora, o sonho de todo cientista é provar que são científicas as superstições que ele acredita. As poções medicinais da idade média (e de antes dela) eram compostas com o que se parecia muito com ingrediente de feitiçaria das histórias de bruxa que se lê hoje em dia. Coisas como chifre de unicórnio, lagartos fervidos e vermes lavados em vinho eram usados para curar pessoas e eram vistos por pessoas respeitáveis como alta ciência. (Não era bruxaria, era ciência. O que se chamava bruxaria naquele tempo era o que se chama de histeria hoje). Boa parte do que se chama feitiçaria hoje é, pois, tão somente as receitas a medicinais antigas, pois a ciência de ontem é a loucura e a superstição de hoje. A ciência de hoje parecerá o mesmo ao cientista do futuro.

I
É possível amar Deus livremente? Claro que não. Amar Deus nos é imposto por um motivo: Deus é Amor, logo é impossível amar o que quer que seja sem amar Deus primeiramente. Deus é o amor que você ama e não teria sentido a pergunta “é possível amar o Amor livremente?”
II
O capitalismo chinês é uma arapuca. Os ocidentais caminham para o forno, como os judeus sob o nazismo que acreditavam ir tomar banho. Quando comprar um produto chinês, você está fornecendo a corda com que será enforcado. Acredite nos comunistas, eles são comunistas mesmo.
III
A pessoa, orgulhosa das próprias virtudes, aponta o dedo para o erro dos outros, como se sentir santo fosse coisa de um santo que se preze. Para tais moralistas, a embriaguez moral faz muito bem, pois mais vale um ébrio moral que se reconhece doente do que um moralista que se julga santo.
IV
O amor é um golpe violento. Por exemplo: amem vossos inimigos, eles vão ficar putos ao saber disso. Vão se sentir traídos. Será uma bofetada.
V
Em breve, tipificarão no Código Penal os preceitos bíblicos. Quem for contra o aborto, por exemplo, pegará de 12 a 30 anos de cadeia.
VII
O inferno é uma excelente escola. É no inferno que se deve estudar. No céu nada se aprende. É no inferno que descobrimos verdadeiramente o que nos falta e assim nos é revelado o que somos.
VIII
As descobertas e o avanço da ciência no século XVI, inclusive a grande produção artística deveu-se à ausência de internet. Newton estaria escrevendo em seu blog ao invés de descobrir as leis universais que regem a matéria.
IX
Kepler tinha sérios problemas de visão e só enxergava a curtíssima distância. O que ele fez, ficou choramingando sua triste sina? Não! Ele inventou o telescópio astronômico. Toda maldição é uma bênção.
X
Mestres perguntam; alunos respondem. A pergunta é mais importante que a resposta, pois uma pergunta nunca está errada. Uma pergunta nunca antes feita move céus e terra. Há diversas respostas soltas clamando pela pergunta certa e que a complete. Adestre-se na arte de perguntar.

Falam de Copérnico, Kepler, Galileu e seus livros revolucionários, mas é bom esclarecer que naquele tempo eram escritos centenas de livros “científicos” com teorias “revolucionárias” e todos eram, na opinião do autor, geniais. Eram os blogueiros da época. Toda época tem seus blogueiros. O tempo é que cuida de dizer quem tem alguma importância.

Nem toda relação erótica é sexual. Nem toda relação sexual é erótica. Erotismo é a nomeação do objeto. Sexo é a função física. Eros é o nome do amor mais completo. Erótico é o amor que você sente por uma pessoa única. O amor ágape é o que você sente por amigos e parentes. O amor cáritas é o que você sente por toda a humanidade. Então, as várias formas do amor se forma como uma pirâmide, sendo que, no topo está o amor erótico. É bom assinalar que pela pessoa nomeada você sente também um amor ágape, afinal ela é sua amiga (e até uma espécie de parente, pois é, ou poderá vir a ser, a mãe de seus filhos, por exemplo) e também sente por ela o amor cáritas, afinal, ela faz parte da humanidade (supondo-se que você não tenha se apaixonado por uma jumenta). Assim é na teoria. Mas, como tudo o que colocamos a mão, tratamos de desvirtuar (o brasileiro, então…). Com aquela pessoa que você escolheu para ser única e amar com todos os amores possíveis, você também faz sexo que é uma forma de se unir mais intimamente. Sexo com prostituta é um exemplo de relação sexual não erótica. Hoje, existe a camisinha, sexo com camisinha não é sexo, é masturbação e as pessoas costumam usar camisinha quando fazem sexo com prostitutas. Mas no tempo em que as pessoas faziam sexo sem camisinha com prostitutas, aquilo lá era sexo, mas não era uma relação erótica, pois ele nem sabia o nome da prostituta e sentia por ela apenas o amor cáritas. Erótico é o amor total. O que acontece entre a prostituta e seu freguês é mera relação de negócio. Eis uma desvirtuação do amor erótico: o sexo sem eros, que se dá quando a relação sexual não é erótica. Há, porém, outro desvirtuamento muito sutil e que muitos não percebem, que é quando a relação erótica não é sexual.
Associamos tanto o erotismo ao sexo que se aceita perfeitamente as relações eróticas assexuadas. Erotismo, como já disse, é nomeação ou personalismo, isto é, quando você elege e dá um nome a alguém de modo permanente, isto é relação erótica. Todas as outras pessoas passam pela sua vida, apenas uma fica. Todas as pessoas, exceto uma, fazem parte de um conjunto. Por exemplo: uma grande amiga é alguém que faz parte do conjunto de seus amigos (conjunto que tem, digamos, 48 pessoas). Seu pai faz parte de outro conjunto, o conjunto de seus parentes (que tem, digamos, 15 pessoas, considerando até o 4º grau, tirando os cunhados, enfim, dá um jeito aí até sobrar 15). Em alguns momentos cada uma dessas pessoas pode ser única para você. Há o dia dos pais, em que seu pai será o centro de suas atenções. Há o aniversário de sua prima, em que ela será nomeada também. Há a depressão de uma amiga por perder um grande amor e recorrerá a você e nesse momento você a acode e ela ganha um nome, saindo do conjunto a que pertence e sendo única. Passadas tais ocorrências, essas pessoas voltam a fazer parte do conjunto a que faziam e a vida segue. Há, porém uma pessoa que todos os dias você louva o fato de existir, parabeniza por cada coisa e se interessa por cada problema. Uma pessoa que você trata como se estivesse permanentemente fazendo aniversário ou deprimida. Uma pessoa que fala para você tudo o que sente todos os dias. Que liga quando se lembra de uma questão qualquer. Que está sempre online no msn para você. Uma pessoa que você decidiu que fará parte de seu dia e que você sente falta quando ela some. Alguém para quem você faz papel de psicólogo. Há alguém assim na sua vida? Pois com essa pessoa, você tem uma relação erótica. Se essa pessoa é apenas um amigo, você está brincando com fogo. Se essa pessoa não for seu cônjuge ou namorado e você tiver um cônjuge ou namorado, saiba que você está com bigamia, mesmo que jamais faça sexo com esse outro alguém. Simples assim. Esse tipo de amor é antigo. Acham natural que homens amem homens e mulheres amem mulheres desde a Grécia antiga, onde os exemplos de amor erótico sem sexo são muitos.
Tem aquele filme “Eu te amo, cara”, que fala do amor (sem sexo) entre dois amigos (é muito engraçado o sujeito já adulto em busca de um melhor amigo, ligando para homens, marcando encontro, ficando nervoso antes de ligar, enfim, se comportando exatamente como se estivesse procurando uma namorada, namorada que ele já tem e que lamenta o fato de que ele não tenha um melhor amigo). Chamo esse amor de erótico, pois ele elege e nomeia. É muito comum a tal “melhor amiga” da mulher. Há, porém, mais raramente, amores eróticos sem sexo entre um homem e uma mulher. Nessa hora é bom entender a psicologia de ambos. Um homem que começa conversar diariamente (sem a menor intenção de um dia parar com aquilo) com uma mulher (seja ela comprometida ou não) está tentando uma relação sexual, sem exceção. Quando a mulher, sem a menor intenção de se envolver sexualmente com o cara (mulheres são maternais, especialmente aquelas que não são mães), deixa o papo rolar e se torna a confidente do rapaz, muito provavelmente, em breve se tornará objeto erótico dele. Em face da atenção e do cuidado com que é tratado, os problemas dele jamais se acabarão e essa relação terá se tornado erótica. Um jogo que a mulher faz, muitas vezes, com a maior inocência, acreditando que aquilo é só amizade. Não é. Os problemas dos amigos aparecem e somem. Pessoa com problema permanente carecendo de sua atenção diária é aquela pessoa que você elegeu, deu um nome. Não é seu amigo, é seu amor. Se não é, está ocorrendo um desvirtuamento da relação erótica: a relação erótica sem sexo. Quando você tira um pouco de todos os seus dias para viver a vida do outro, não sendo você um psicólogo, essa relação é erótica. É assim com os filhos, mas a dependência dos filhos é passageira (normalmente). Há pessoas, algumas casadas, que passam toda a vida sem uma única relação erótica. Erotismo é quando duas pessoas vivem compartilhando as duas vidas mutuamente.
Será que essa procura por (ou essa mitificação do) um melhor amigo(a) se dá em face da dificuldade que homens e mulheres têm em se entender? Assim os machistas gregos justificavam o amor entre homens na Grécia antiga: o amor é algo tão sublime que somente homens, “criaturas superiores”, podem apreciar devidamente. Hoje, que sabemos que as mulheres são seres muito mais sublimes que os homens, vivemos em um tempo em que um homem e uma mulher podem muito bem se amar sentindo-se completos (ou perto disso) sem a menor necessidade de um melhor amigo para o homem ou uma melhor amiga para a mulher.
Toda escolha é uma perda, diz a frase pessimista. A escolha é também um enorme progresso, uma prova de humildade perante o fato de que jamais teremos tudo (e nem seria saudável querer tudo). A escolha é uma vitória. Toda rosa tem espinhos ou não seria uma rosa. Os defeitos de quem nós amamos são chances para provar nosso amor e oportunidade para que a pessoa amada prove do nosso amor. Que virtude há em amar alguém perfeito? Não obstante, buscamos a perfeição e quando nos falta (o que chamamos de perfeição) a quem amamos, procuramos a tal coisa em outras pessoas. Daí surge a prostituição, a necessidade de ir a psicólogos (que nada mais são do que amigos de aluguel) e a figura do (a) melhor amigo(a), pois há coisas que não podemos dizer para quem amamos. Ora, por que não? Que raio de amor é esse? O fato é que as pessoas continuam se achando muito sublimes para repartir sua vida com uma só e encontram essas desculpas esfarrapadas para a bigamia, ainda que sem sexo.
O casamento feliz, talvez, seja aquele em que a relação erótica e a sexual seja com a mesma pessoa. Sendo, pois, o eros o mais profundo envolvimento da alma e o sexo o mais profundo envolvimento do corpo. E, novamente, talvez, pois esse é um assunto que apenas tateio, toda infelicidade conjugal advenha da ausência dessa co-incidência. A mulher costuma ter ciúmes do(s) grande(s) amigo(s) do marido, pois se sente apenas um objeto sexual, pois, de fato, ele divide sua vida entre a mulher e os amigos, com quem conversa coisas que não conversa com a mulher. Na verdade, a maioria dos homens não gosta de mulher. Gostam de mulher apenas para namorar (fazer sexo). A maioria dos homens gosta mesmo é de homem e mantém, assim, relações eróticas com vários deles durante a vida. Relação de eleição e nomeação sem qualquer contato genital. A relação é erótica não por causa do sexo, mas apesar da ausência dele. Mas já divaguei demais…
ps – A foto da capa do disco da Yael é por que o amor é um pássaro no dedo.

Houve uma época em que, cheio de trabalho, não tinha tempo para muita coisa e fui esquecendo o violão. Quando me vi, tinha assim três meses sem tocar no violão. Aquilo me deu uma tristeza muito grande, pois o violão sempre foi parte de mim. Foi uma fase de quase depressão, pois, pensava, se eu posso viver sem violão, posso viver até sem mim mesmo. Nessa época, comecei escrever. Escrever é mais fácil do que tocar violão, pois não exige muito aparato. Escrever não é colocar a idéia no papel, escrever é criar na cabeça. Passar para o computador é a parte mais simples. Do volume dessas coisas escritas, surgiu este blog. Publiquei a primeira coisa no dia 10 de janeiro de 2003. Isto é, hoje o blog faz 8 anos. Pois é…

1. Jesus é O presente de Natal.
2. É a total inversão: um deus se dá em sacrifício à humanidade.
3. As leis da natureza têm um legislador.
4. O passado de um santo pode ser pecaminoso; O futuro de um pecador pode ser santo.
5. Sou católico porque é a igreja em que pecadores vão pro céu.
6. O homem começou a descansar 1 dia por semana por questões religiosas (e a tomar banho também). Quando fazemos algo para agradar a Deus, nós somos os beneficiados. Quando o mundo for laicista, como muitos querem, serão abolidos o sábado e o domingo. E o banho também. Quem viver verá.
7. Divino é tudo o que não compreendemos. E o que compreendemos não é divino porque não compreendemos suficientemente.
8. A santidade é um tipo de coragem.
9. Às pessoas que acham que os padres deveriam se casar, aviso que em seguida vocês lutarão pelo direito, dos padres, ao divórcio.
10. Quando a razão contraria minha fé, sei que a razão está errada e a fé é que tem razão.

1. A verdade é a voz de Deus.
2. Casa é onde quero estar.
3. Opinião é falta do que dizer.
4. Fé é espera.
5. A sinceridade é uma espada
6. Acidente é coincidência.
7. Rigidez é morte.
8. Exceção também é regra.
9. Amor é onde dói.
10. Escrever é errar.

O padeiro soca o fermento na massa se sentindo o Cristo a multiplicar pães.

Na porta detrás,
Em letras mortas,
Lê-se: “Aqui, Jazz!”

I
Político defender a ideologia que o sustenta é como faria relações públicas de traficantes. É o ladrão defendendo o direito ao assalto de cada dia.
II
“Teoria” vem de theorio, “olhar, contemplar”. Isto é, teoriza quem contemplou. Mas teoria é coisa de cientista e contemplar é coisa de religioso. O objetivo da ciência e da religião é o mesmo: conhecer a verdade, mas vem a falsa ciência e descarta a existência do mistério.
III
Um símbolo é o outro (alter) da coisa. Uma coisa pode ser um símbolo. Uma cruz é um símbolo. Mas uma cruz é também uma cruz e é muito difícil olharmos uma cruz dissociando-a de sua carga simbólica. O sonho de toda coisa (de todo mundo?!) é se tornar símbolo.
IV
Os charlatões, vagabundos e pilantras se reconhecem como tais, dão palestras, abrem sindicatos, cheios de orgulho do que são e são admirados por suas qualidades desprezíveis e superior capacidade de não valer nada. São os ruins sem defeito.
V
Pílula, camisinha, DIU, o diafragma, a pílula do dia seguinte e mais tantos e diversos meios de contracepção e ainda querem a descriminalização do aborto. Procriação decorrente de sexo e sexo com conseqüente procriação será, em breve, coisa de alguns cristãos e de alguns selvagens.
VI
Povo que quer governo de esquerda é vagabundo. Elite que quer governo de esquerda é burra. Político que quer governo de esquerda é bandido. Simples assim.
VII
A arte brota da alma imortal do artista e dá sombra à vida. A erudição na arte é uma forma de sofisticar (complicar) preenchendo de elementos “não emocionais”, racionais, estudados e culturais aquilo que em sua nascente é sobrenatural. Toda arte é sobrenatural.
VIII
A esquerda é sinistra. A direita é sinistra. “Sinistra” é “esquerdo” em latim. Mas o Direito também é sinistro, pois, muitas vezes, o Direito é de esquerda e esta, como se sabe, é sinistra, assim como a direita. O centro também não fica atrás em matéria de sinistro.
IX
Kepler teve a inspiração dos cinco sólidos perfeitos aos 24 anos, a mesma idade em que Lattes descobriu o meson pi e a mesma idade em que eu descobri como se faz palíndromos. Humpf…
X
Quando um homem nega a paternidade de um filho que ele fez e não quer, ele é processado e é retirado parte do salário. A criança nasce. Quando a mulher nega a maternidade de um filho que ela fez e não quer, médicos ajudam a assassinar o bebê.

Só se pode mexer em coisas úteis. O ser humano, por exemplo, é inútil, então deve ser deixado quieto. O que faremos de útil no paraíso? Nada, suponho. A utilidade é coisa de corpos. Tudo o que tem alma foge da utilidade. O que clama por utilidade é o corpo. Quem quer ganhar dinheiro e fazer algo concreto pela humanidade é o corpo. A alma se importa com a beleza, as mil sutilezas do espírito e tudo o mais que for bem inútil para o corpo. O corpo trabalha para a alma. Quem dá 40 mil em um relógio compra tudo menos um relógio, pois aparelho que marca horas, no camelô, tem por 2 reais. São coisas que a alma obriga o corpo fazer. O corpo, por sua vez, só dá voz à alma depois que sua segurança está garantida. Não se vê quem ganha salário mínimo trabalhando duramente para quitar um relógio de 40 mil que comprou. Um pobretão que fizesse isso seria alguém que é pura alma.
Mesmo com a superabundância de jornais e livros, para a maioria das pessoas, as informações, teorias científicas, doutrinas religiosas, teses filosóficas e piadas em geral chegam mesmo é por meio do boca-a-boca (do boato). A fofoca é o grande meio, a mídia por excelência. Quase tudo o que todo mundo sabe, ficou sabendo de ouvir dizer. Fofoca é epidemia de altíssima facilidade de disseminação. Em pouco tempo, todo mundo está doente da mesma informação, padecendo da mesma opinião, sofrendo das mesmas conclusões. Mas ler mesmo, ninguém leu. E quem leu, geralmente, tem variações do mesmo vírus, mesmo sendo, o dele, um vírus um pouco diferente daquele vírus do boato. Isto é, leu, mas não viveu, apenas acreditou sem aprofundar ou sem expor a tese à realidade. Gutenberg foi quem abriu essa caixa de pandora. Um simples cartaz pregado em um poste pode ter efeito mais letal que o HIV (quase escrevo “um simples cartaz pregado em um post”). O povo lê o cartaz no poste e sai por aí repetindo o que leu como se fosse algo que o próprio Deus falou, como se Deus fosse perder tempo pregando cartaz em poste.

1. Uma rosa me falou que todo espinho tem flor.
2. O futebol não é o ópio do povo, é o crack.
3. Os dinossauros sim, aqueles tinham pegada.
4. Há desenho animado e desenho desanimado.
5. Pessoas boas corrigem.
6. Razão é coisa de sua imaginação.
7. Alguém sem unha encravada deve ser alguém sem dedos.
8. A vida é uma doença venérea.
9. Ativista é terrorista enrustido.
10. Cabelos brancos não caem.

O pombo fez “pollock” no meu carro.

Sonhei que a Orquestra de Strauss tocava para mim.
Foi um sonho de valsa.

É maio. Em maio, sempre me dá uma vontade de mudar algo. É como se eu agüentasse tudo até abril. Maio não! Em maio, algo precisa ser feito. Mas ainda chove. “Que coisa, né? Ainda chove!” Maio me segura pelo colarinho e me obriga a prestar contas de alguma coisa. E aquilo tudo que planejei fazer neste ano, como anda? E o que já estou fazendo, tem futuro mesmo? Logo mudarei de idade. Número é importante. Quando alguém faz 39 anos, sente uma fisgada: o prenúncio dos 40. E fica um pouco triste por fazer 39. Bom mesmo era 38. Quando faz 40, tudo muda, passa a achar 39 um número muito simpático. A mudança de idade é uma das grandes ilusões. Uma ilusão das mais reais. É quando bate em cada um a fobia mais comum destes tempos: a cronofobia, que é o medo exacerbado e neurótico de envelhecer. Ah, sim, a mudança de idade é ilusão porque o tempo não para e a todo instante estamos envelhecendo e um dia depois do aniversário você está tão velho quanto estará no dia seguinte, mesmo que ainda falte 1 ano para mudar de novo de idade. Mas é maio, eu dizia. E acho que maio é assim pra todo mundo (mas sei que não é). Em maio começa certa impaciência com o resto do ano. Carnaval ficou pra trás, a páscoa já é quase esquecida, você não tem mais desculpas para enrolar, pois o tempo grita, bate panelas, dá rasteira, joga água, ri histericamente, critica suas roupas e sapatos, faz débitos em sua conta, ignora seu afã de “porquês”, aplica provas sem avisar, ignora seu corte de cabelo, quebra a quarta corda de seu violão, enche as ruas de carros andando lentamente, não deixa ler livros, provoca dores no pescoço, impede de ver filmes, dá más notícias, escova os dentes em sua frente, obriga a ouvir e falar de futebol, comer fibras e agüentar a religião laica dos esquerdistas, toca canções que você detesta em alto volume, vende um sapato que escorrega, atrapalha o quanto pode e aquilo para o qual você nasceu só floresce e dá frutos em meio a pedras e joios sob esforço heróico. O tempo incomoda com todos os instrumentos que dispõe e os instrumentos são inumeráveis e não se pode reclamar, afinal, a casa é dele, você está só de passagem. Urge que se faça algo para que junho chegue logo. No mês de maio eu entro um e saio outro. É sempre uma revolução. Maio é o mais longo dos meses. É uma espécie de outubro do primeiro semestre. É a quarta-feira dos meses. Segundo ato de ópera longa. 38 anos de um perdedor. 25º ano de uma ditadura. Terceiro ano do curso de Direito. 40º minuto de uma corrida de 1 hora de um sedentário. Folha 12 de monografia. Maio é uma gota no tempo. O tempo é um oceano vasto para que caiba todo o universo (e universos) e todos os espíritos a zanzar por presente, passado e futuro. E é este o maio da questão. Nosso espírito está tranqüilo passeando por julho e ainda é maio. Nosso espírito está todo excitado curtindo janeiro e já é maio. Nosso espírito não gosta muito de nosso corpo, pois vive a fugir dele e parte para se divertir em outros lugares. Nosso corpo sofre os dardos da realidade presente e chama o espírito de volta, pois o corpo só deve agir sob o comando do espírito (o corpo grita para o espírito: “o que é que eu faço?”). E o espírito sofre quando retorna ao corpo. Claro que o espírito deve andar por passados, futuros e por universos múltiplos, pois ele tem o poder de fazer isto e essas viagens fazem parte de sua luta contra a corrupção, embora muita corrupção também advenha de tais viagens. O fato é que o espírito passeia, passeia e passeia (pois ele não é deste mundo). E o corpo se queixa. O espírito tem o corpo para estar na realidade presente. É só nesse momento que ele precisa do corpo. Quando pode fugir da realidade, o espírito só precisa do corpo para poder voltar para ela quando quiser. Mas a realidade presente é enfado. A realidade presente apenas dá ao espírito a incerteza de que ele não existiria fora dela. Quando o espírito tem certeza de que é eterno, de que o corpo e a realidade lhe servem de transporte e que ele, espírito, é o verdadeiro passageiro, a coisa ganha outros contornos e os meses de maio ganham peso maior. (Para ficar maior, maio só precisa de um “R”). Maio fica mais pesado porque a existência também fica. Não é o tempo, é a realidade que pesa, pois a realidade existe para baixar nossa bola, para limitar nossos passos. Mesmo assim, o tempo é útil. O tempo organiza tudo. O tempo é a eternidade colocando ordem nas coisas. Mas o tempo, quer dizer, a realidade concreta e presente é apenas uma opção ao espírito, que vaga, vaga, vaga e só muito de vez em quando se lembra de visitar Brasília, coincidentemente quando a namorada me visita ou eu a ela, quando pego o violão para tocar uma canção, quando faço qualquer coisa que me faça esquecer o tempo. Seria o espírito inimigo do tempo? Lutamos contra tudo o que nos limita e nos delimita. Quando o espírito vem até Brasília e entra como um fantasma a tomar rédea de meu corpo, me dou conta de que é maio e que preciso fazer tudo aquilo que prometi fazer em janeiro e que meu espírito vagabundo ficou vagando por aí e não me deixou fazer. É maio. Maio me deixa assim. Em maio começa a soprar um vento novo. Literalmente vento e literalmente novo, pois não estou aqui só para metáforas. É o vento que anuncia o frio que teremos no ano. O vento que anima um nortista como eu que cresceu sob um sol de 43 graus em média. Um calor absurdo que detona qualquer pretensão intelectual, pois impede vigorosamente toda tentativa de leitura. O calor atrapalha. O vento anima. Ainda estou para entender, talvez morra e não entenda, porque o calor é tão bem visto pela maioria da humanidade. Calor se tem na África, na América Latina e no Oriente Médio. Só lugar miserável, brega ou barra pesada, o que prova incontestavelmente que o calor não desperta boa coisa. O norte e o nordeste brasileiro não são pobres por coincidência. São pobres de calor. Quero um lugar frio, pois o frio nos conduz ao aconchego e o aconchego nos faz mais carinhosos, pensativos e leitores. O calor é como a natureza, é bom na TV. Na vida real, o calor é mau. Como a natureza na vida real é difícil e perigosa. A natureza tem formiga de fogo, cobra coral, onça maracajá, porco queixada, coisas de que só quem vive no mato morre de medo. Quem está na cidade quer proteger, pois só os vê na TV. Pergunte a um caipira o que ele pensa quando vê uma onça e ele responderá: “só penso em acertar um tiro bem no meio da testa do bicho”. Todo o povo deveria procurar o frio e deixar o calor para as feras. Maio tem isso de bom: anuncia o frio. O tempo ficará como acho bom. Brasília tem enorme vantagem, aqui se tem sol brilhante e frio ao mesmo tempo, pois os prédios são baixos e o vento passeia pelas quadras e entra nas janelas. E o céu de Brasília, mesmo coberto de nuvens, é o mais bonito do mundo. Se Paris tivesse o céu de Brasília não seria Paris, seria o paraíso. Maio faz de Brasília uma Paris do cerrado, pois Paris é como Brasília, não tem montanhas. Infelizmente o céu de Paris raramente é azul. As nuvens gostam de Paris. E Paris em seu momento mais quente é como Brasília em maio, são aqueles 20 graus no começo da noite. Que não é frio, mas não é um calor que chegue a incomodar. Os ventos de maio me acariciam. Os ventos de maio me sopram cantigas, sou levado a escrever, a tocar violão, a sonhar mais, fico todo noel, todo capiba, todo guinga, todo Nazareth. Fico todo garoto e me aumenta em um por cento a auto-estima (podem achar pouco, mas 1% é a diferença que os darwinistas vêem entre homens e símios). Não quero falar mais em espírito vagando. Hoje pensei que o que chamo de meu espírito passeando é o que outros chamam de sonho. Distraídos em sonhos, planos, noticiários, o mundo que não para e exige nossa atenção não vemos o tempo passar até chegar maio e nos pedir sua atenção. E maio chega com sua brisa fria pedindo, pedindo, pedindo… Maio é nosso amigo. Amigos chamam atenção. Amigos corrigem. Amigos nos inspiram enquanto nos trazem à realidade. Amigos são os maiores presentes que ganhamos de Deus. No meu caso, Deus me constrange com tanta generosidade. Meus amigos são a razão que tenho para não ter cronofobia, ao contrário, goste de envelhecer, pois isso significa que terei mais tempo com meus amigos, a maioria vivos, graças a Deus. A morte não me assusta, pois já tenho grandes amigos do outro lado e será maravilhoso revê-los. Vocês não imaginam como é perder um grande amigo. Um amigo tão grande desses insubstituíveis como todos os outros. É muito triste. Assustador. Terrível. É traumatizante a perda de um amigo. E de dois? Quando o segundo amigo se vai, outra pessoa enorme e fundamental em sua vida que morre assim quase de repente. Como é? É mais terrível? Mais triste? Mais assustador? Não. A segunda morte de um grande amigo é uma libertação, uma iluminação. Você pensa: “é, é assim mesmo!” e em seguida começa a ver a morte como ela é: uma recompensa por serviços prestados e passa a invejar enormemente seus amigos que morreram e ficar feliz, pois em breve, todos nós estaremos unidos sob a mesma recompensa, como diz aquele pré-socrático, para o qual a existência deve ser paga com a inexistência. A recompensa que tira o presente e dá a eternidade. Tira os limites e nos dá o ilimitado. Tira 5 e dá 95 sentidos novos. Tira a ânsia e concretiza toda a esperança. Esperança no que nem sabemos, pois nossa mente não consegue sonhar com o que nos espera. Não é permitido ao nosso espírito passear por lugares tais antes da morte, quando tudo nos será esclarecido e a guerra permanente que travamos cessará. Uma vez fiz um poema assim: “Se hoje eu morresse / Quantos poemas / Talvez se perdessem / Talvez dezenas / Talvez nem este!” Hoje vejo a morte como um progresso sem nenhuma perda. Além disso, o mundo não precisa de mais poemas. Temos que escrever o absolutamente mínimo. O máximo do unicamente fundamental e nem uma aspa a mais. Tudo o que se escreve é desnecessário, inclusive isto. Nada do que se diz tem importância, inclusive isto. Quem lê tanto, para que se escreva tanto? Mas quem disse que alguém escreve para que alguém leia? Eu, por exemplo, duvide-o-dó que alguém que começou este texto tenha chegado até aqui. Ninguém chegou até aqui e nada perdeu. Quem começar ler a partir daqui sugiro que não leia o começo. Nada perderá. Trata-se de um texto tipicamente secular, mesmo que o tema seja um mês e não o século, mesmo que o termo “secular” não tenha aqui relação alguma com o tempo e sim com o mundo. Secular = mundano. E neste texto secular tento me desvencilhar do tempo que me trouxe de volta da costumeira procrastinação. A procrastinação é um dos impulsos mais humanos porque não gostamos do tempo em que estamos, pois nascemos no tempo, mas não nascemos para o tempo. Ah, meu Deus, essa história não acaba nunca. Preciso fugir de maio, pois tenho que evitar que minha vida seja um eterno presente. A eternidade é mais que um presente. É maio. Maio me deixa assim.

Oito
O Brasil tem três traços de união: a copa do mundo de futebol, a concordância de que este país não presta e o hífen. Realmente este país não presta. Mas bate um bolão. Resta o hífen.
Sechs
A quantidade de preguiça que a pessoa tem é o que determina se ela é ou não o que pensa ser. Um santo preguiçoso peca pelo bem que não faz. Um demônio preguiçoso é virtuoso pelo mal que deixa de fazer. Se você é do bem, mas é preguiçoso, então é do mal.
2
Niilismo não é racionalismo. Ao contrário, é justamente a poda da razão, a negação da capacidade de pensar. Quem pensa mais (quem é mais racional?), quem vê o invisível ou quem lhe nega a existência? Captar o oculto não é muito mais prova de inteligência do que negá-lo?
Sieben
Afirmam que pobres são honestos e ricos, ladrões e que o crime é causado pela má distribuição de renda. Ora, se o crime é gerado pela pobreza, os pobres não seriam honestos, honestos seriam os ricos, não é? Ignoram que violência e honestidade estão no espírito, não na conta corrente.
Nine
Seja paranóico. É saudável. A paranóia quando se revela em um excesso de cuidados, é algo fundamental neste dias de hoje. Não se pergunte “estarei sendo paranóico?” Apenas acredite em seu senso de paranóia e ponha mais duas trancas na porta. Não vai perder nada com isso.
Un
A lógica é um instrumento musical que bizarramente se tornou música. Hoje é a coisa mais comum filósofos e cientistas que inventam fatos para provar suas ideias (ou sua lógica própria) e a filosofia deixou de ser retrato da realidade para se tornar serva de delírios.
Four
Quem quer nos ajudar não pode estar muito ao nosso lado. Quem nos ama não é nosso cúmplice. A real ajuda que recebemos quase sempre é uma “ajuda contra”. Foi assim que Deus fez as coisas e nossa rebeldia costuma não aceitar isso.
Três
Todo mundo é poeta, basta viver em guerra interna, isto é, ser gente. Viver em paz é matar o poeta. Por isto o Cristo não veio para trazer a paz, ele quer um mundo de poetas. Além disso, como diz o professor Olavo, “paz é veadagem”.
Fünf
Criador é aquele que os outros têm ganas de plagiá-lo. Um plágio é uma continuação da obra do criador. O bom aluno é uma extensão da mão do mestre. Respeite seu mestre, copie-o. Com muita cópia se chega à própria linguagem.
O pequeno invade a retina vazia
A pequenez preenche a morada do dia
E é do quase nada que brota a ventania
Na mínima chama é que queima a poesia
A pequenez nos adoça
E o delicado se apossa
No curto, pouco e raro
Breve, pequeno segundo
Em que a alma se coça
E se abraça à pequenez
Que se torna o supra-sumo
Da mais suprema altivez
No minúsculo vê-se de vez
Do grande todo, o resumo.

1. O que há de bom em nós é um transbordamento do que de bom Deus nos deu e que atinge o outro. Então, para sermos bons precisamos de Deus e do outro.
2. Ateu é quem não acredita no Deus judaico-cristão. Ele acredita em outro deus.
3. Crer na dúvida é ser fiel do nada.
4. Na Bíblia não há padres.
5. A matéria é o som da voz de Deus. A matéria é o pensamento de Deus. A matéria é concretamente em Deus tudo que há de abstrato em nós.
6. O interessante é que esses senhores – Nietzche, Saramago, etc – até elogiam o Cristo. O que eles não suportam são os cristãos. De resto são loucos de pedra e deliram, deliram…
7. As pessoas que não gostam do Papa (quase todo mundo) geralmente o acusam de ser católico demais.
8. Pessoas que querem que a Bíblia seja científica por certo advogam que a poesia seja matéria exata. A ciência por certo condena todas as fábulas. A Bíblia é para ser entendida por crianças. Quem não entende isso não é adulto.
9. Pesquise direitinho e você vai descobrir a verdade: Jesus ressuscitou!
10. A Igreja não é contra o sexo sem a concepção. Ao contrário, é contra a concepção sem sexo. Se a Igreja nos quisesse eunucos, seria a favor da inseminação e fecundação artificiais. A Igreja é contra a dissociação da procriação com o ato da entrega mútua do casal.

Sem limites as coisas não existiriam. Destruir limites é destruir a coisa antes delimitada. Derrubem as fronteiras que os países deixam de existir. Truísmo? É sim, mas ignoram. Vivem querendo acabar com os limites como se isso fosse uma coisa bonita a se fazer. O 4º mandamento diz que devemos honrar pai e mãe. Isso aí consiste em um monte de limites que temos relativamente a nossos pais. O mandamento não diz que devemos honrar os calouros de nossa escola. Nesses, podemos jogar talco, ovos e cortar os cabelos deles com uma tesoura cega. Mas mesmo com relação a eles, há certos limites, mas não os mesmo que temos com relação a nossos pais. E são esses limites que nos faz filhos, pais, namorados, maridos, tudo o que somos. Passe a tratar seus pais como se fossem seus colegas de colégio (destrua os limites entre você e seus pais, aquela linha que faz com que eles sejam os pais e você o filho) e eles não serão mais seus pais. É assim que se mata um pai, como é derrubando fronteiras que se destrói um país. Quando uma criança não tem limites, todos são crianças na casa. Dito isso, a liberdade extrema (algo que só existe no céu platônico) é a autodissolução. Quem é absolutamente livre não é nada. E há coisas das quais é até desejável que sejamos escravos. Por exemplo, não sou livre pensador. Sou escravo da verdade. Pensando bem, toda liberdade também tem sua escravidão correspondente. O sujeito que enche a boca para dizer que é livre é escravo do próprio ego. Cristo morreu por todos para que ninguém viva para si. Aristóteles dizia que devemos ser senhores de nossas vontades e escravos de nossa consciência. Felizmente podemos escolher quem será nosso soberano e é só essa a liberdade possível.

1. Sentimentos são orquídeas.
2. Cartão de crédito é uma droga como outra qualquer. Use-o com moderação.
3. O fotógrafo só vê o fotografável.
4. O homem nasceu para ser cuidado pela mulher.
5. O acaso é certeiro.
6. Aquele trabalhador era um monumento à preguiça.
7. O que há de belo na noite é o que ela tem de dia.
8. O castelo mal-assombrado estava cheio de funcionários fantasmas.
9. Sou um mar de água doce.
10. Tempo também é espaço.
O retrato do que não se vê
É o que se vê por meio das lentes
Instantes eternos, eternas sementes
Grandezas pequenas, eternos presentes
Que o olho não vê
Mas a alma pressente
Como se admitisse
O óbvio ali ausente
Como se admirasse
O invisível presente
Pois a beleza se vê
Com o olho e a mente
Com mãos e coração
A foto é clarividente
E plena de intuição
Dá-nos o inexistente

O guarda do museu conversava com o colega de turno, enquanto comia um sanduíche. O celular toca e o guarda deixa o sanduíche, com uma mordida, em cima da bancada, vai atender a ligação e se esquece do sanduíche, que fica ali durante todo o fim de semana. O sanduíche foi destaque nos cadernos de cultura dos grandes jornais e atraiu muita gente ao museu. Até que a analfabeta auxiliar de limpeza, que nunca ouvira falar em Duchamps (onde já se viu?) passou por lá e limpou aquela sujeira.

UN
Darwinismo não é ciência, é uma ideologia. Não existe “ismo” científico. Não existe einsteinismo, newtonismo porque as teorias de Einstein e Newton são meramente científicas.
II
Ideia para conto curto: na votação para revogar a lei que criminalizava o adultério, cinco deputados traíram o governo e a lei foi mantida.
TROIS
“Seja você mesmo” é um conselho que não serve muito ao pessoal das artes cênicas como advogados, atores, professores e políticos.
4 X 4
Entre os peixes, não se fala lá com muito entusiasmo sobre a tal “era de aquário”.
CINCO ESTAÇÕES
Glúten, além de engordar, abre o apetite. Produtos com farinha de trigo contêm glúten. O que significa que pizza abre o apetite. Sempre desconfiei disso. Ah, cerveja também contém glúten.
SEIS OVOS
Piratas da internet são essas pessoas que tiram mercadorias à força das panças de barcos e navios e as negociam nesses sites de vendas. Para evitar a pirataria na internet só aumentando a segurança nos mares e oceanos.
SETE POR SETE
O diabo vê os atuais eventos no mundo como um presente de Deus. E pensa: “ah, graças a Deus que a justiça é criminosa, os políticos são ladrões e os adultos molestam as crianças. Nunca as coisas estiveram tão bem, thanks, God. Ah, e se Deus quiser, vão aprovar o aborto!”
OITO ANÕES
Um dia, haverá guerra entre correntes pacifistas. E o farão conscientes de que guerreiam pela paz. Todo guerreiro – não pacifista – também guerreia pela paz, que só vem quando se está em guerra. É em períodos de paz que a indústria bélica planeja.
NOVE IDADES
Se átomo é, por definição, algo indivisível, o átomo deveria ter mudado de nome assim que o dividiram.
DEZ X
Ideia de conto: sujeito vai ao banco pedir dinheiro emprestado para “produzir” um assalto a banco. O gerente não tem dúvida de que aquele empreendimento seria altamente lucrativo e concede o empréstimo.

A platéia subiu ao palco, expulsou os atores e o encheu com suas cadeiras. Lá embaixo, os artistas, quietos, humildemente representavam papel de platéia. Ninguém se divertiu, mas todos acharam bom. Os leitores invadiram as bibliotecas e encheram os livros com anotações. Os escritores leram todas com interesse, mas sem nenhum entusiasmo. Os compositores foram para o asilo, os poetas para o exílio, pois canções e poemas eram feitos pelo povo analfabeto e nada musical. Todos ficaram satisfeitos, mas desanimados. E o mundo, com a esperança aos pedaços, esperava a volta do Cristo.
Estranha, a cantora planta
A carnívora come insetos
E ela, com a boca, canta.
Qual os bichos do sertão
Me alimento de migalhas
Não de migalhas de pão.
Plantas carnívoras infelizes
Queriam sair para caçar
Mas estão presas às raízes.
Caem brasas
Quando o fogo
Abre as asas
A planta carnívora ignora
Mas ela é um trem assim
Meio fauna e meio flora.
Novo texto na coluna sobre Música Popular Brasileira, no Imaginário Poético.
Aqui.
Gosto mais das palavras do que das ideias. Isto é, gosto das ideias para fins de contemplação. Elas não deveriam ser escritas. As ideias deveriam nascer e morrer na cabeça do pensador (inclusive esta). Se assim o fosse, o mundo seria melhor. Tenho medo de boas ideias (boas ideias são como pacifistas, que é gente muito perigosa). Pensar é bom, escrever é ruim. Pensar é o bem, escrever é o mal. Então, gosto das palavras como o amontoado de letras pronunciáveis que são. As palavras existem para serem pronunciadas em boa dicção. O significado das coisas são as coisas. As palavras existem por si, sem nenhuma função, são obras, não matéria-prima. Quando a palavra é boa e bonita não me interessa saber o que ela significa. A prosa sofre do terrível mal da utilidade. Toda prosa conta, descreve, argumenta é, enfim, serva das idéias ou dos acontecimentos. A prosa esta presa. Meu sonho é ver uma prosa tão livre a ponto de ser magnificamente elevada à inutilidade, isto é à categoria de arte.
Montou um berçário e deu o nome de “clube do choro”.
O sertanejo pegou a enxada e foi fazer carreira solo.
Marido traído dá à luz um filho do amante da mulher.
Porque ele pronunciava “subsídio” corretamente.
O chorão se despediu do choro. No dia de sua aposentadoria houve muito choro. Foi uma alegria só.
1. O quão cabeçudo você deve ser para se passar por corajoso?
2. Pertenço à tradição iconoclasta.
3. Uma rosa me falou que todo espinho tem flor.
4. Trabalham demais, é amarga a vida das abelhas.
5. Preguiça é quando a gente não tem coisa interessante para fazer.
6. Quem mora no mar corre de anzol.
7. Se abortistas e aborteiros tivessem sido abortados não teríamos esse problema de aborto.
8. O mar é o amor. Amar é a maré.
9. Apreciar a arte depende de sorte. Bom gosto é sorte. Mau gosto é sorte. Tudo é sorte.
10. Quando me tiraram o chão, eu comecei a voar.
Coleciono algumas coisas:
Refeições, cafés-da-manhã, sonos, sonhos, pensamentos.
Também coleciono olhares, perfis, sorrisos, risos e palpitações.
Coleciono palavras, temas, cismas, contradições, paradoxos e oximoros.
Frustrações, problemas, ânsias, amores, medos e dúvidas.
E principalmente coleciono as certeiras setas do acaso.
Queremos anestesia para a dor,
Mas não para a carícia.
Ora, não é assim que funciona.
A anestesia insensibiliza tudo.
E a carícia precisa do espaço
De andar mão na mão com a dor.
Não se faz cirurgia enquanto o paciente dança.
Não tenho bom senso, nem loucura
Nunca fiz nada que preste, nunca fiz nada terrível.
Nasci, parece, para levar o meio-termo ao extremo.
Para ser o absolutamente morno.
Mas ainda há tempo!
(Enquanto o hexágono não me apanha)
Discordo do consenso, discordo da discórdia.
Não me importo com quem é incoerente
Mas admiro muito quem não o é.
Tenho horas de muita, muita fé
Entremeado de pencas de descrença
Tento não me lamentar quando sofro
Tento não comemorar quando venço
Tento fazer tanta coisa enquanto penso
Mas só me concentro quando nada faço
E a concentração para nada mais vale.
Qual formiga equilibrando fardos
E o fiel que perdeu a inocência
E pende sempre para outros lados
Que na igreja só se lembra de indecência
E no bordel chora o peso dos pecados
E esmagado pelo fardo da incoerência.
Roga a Deus para que seja perdoado.
(Perdoado significa completado)
E de repente não sabe se é ateu ou crente
Pois o ateu também tem lá suas crenças
E o crente duvida absurdamente
Então, como saber o que se é
Se crer/descrer é de todo ser humano?
Estréia hoje minha coluna na revista virtual Imaginário Poético.
Escreverei mensalmente sobre a Música Popular Brasileira.
Essa primeira coluna, está aqui.
- O cristianismo não é uma opção, pois não escolhi a paternidade de Deus, foi Ele quem decidiu minha filiação.
- Não se deve ir à Igreja por causa do passado ou do presente e sim por causa do futuro. A isto se chama “Esperança”.
- A encarnação de Cristo é o milagre que esclarece tudo. A nossa própria encarnação passa a fazer sentido.
- Somos um monte de lama que recebeu um sopro divino.
- O Papa não é infalível. Infalível é o recado que Deus dá ao Papa. Chamam papal, a infalibilidade divina.
- Há laços de sangue entre nós e Deus. O sangue é o de Cristo.
- Não é por causa de padres que devemos ir à Igreja (ou deixar de ir).
- O santo é um pecador que não desistiu de Deus.
- A fome do mundo é fome de Deus.
- O pecado nos atrapalha, mas não nos impede de ver Deus, pois existe a Graça que é maior que qualquer pecado.
Marcelinho tinha medo de fantasmas. Um dia, na aula de religião, a professora falou que todos nós temos um corpo e uma alma. Marcelinho gelou. “Eu também tenho uma alma?” “Sim, Marcelo, todos nós temos”. Pronto, o menino não dormia mais. De noite, tinha pesadelos, tinha medo que a alma que ele tinha fosse lhe assustar ou pegar no seu pé. Perguntou para a mãe, “mãe, eu tenho uma alma?” “Claro, meu filho, que você tem uma alma e é uma alma muito grande a sua”. Coitado, a alma agora ocupava todo o quarto, de tão grande que era. “Eu não quero ter uma alma”, disse ele à mãe, “eu tenho medo de alma!” A mãe riu muito enquanto o Marcelinho chorava muito. “Meu filho, não precisa chorar nem ter medo de sua alma, ela não é sua, ela é você. Nosso corpo só se mexe, só existe, brinca e come e ama porque a nossa alma faz ele fazer isso. Na verdade nós somos a nossa alma. Você é a alma que tanto teme”. Ah, meudeusdocéu, foi dizer isso para quê? Agora é que o menino não dormia mesmo e quando dormia tinha pesadelos terríveis e repetia, “eu não sou uma alma, eu não sou um fantasma, eu não sou um fantasma, eu tenho medo, eu tenho medo”. “Marcelinho”, disse-lhe o psicólogo, “pessoas não são almas nem fantasmas, só serão almas depois que morrerem, enquanto estiverem vivas, enquanto a alma estiver dentro do corpo, elas são pessoas, não almas. A alma não sai do corpo da pessoa, você não precisa ter medo. Ela está presa e só sai quando Deus quiser. Além disso, sua alma é sua amiga, ela não vai assustar você”. “Mas ela é uma alma, doutor. O senhor não tem medo de almas?” “Não, Marcelinho, não tenho medo.” “E quando ela sair do meu corpo, não vai ser assustador?” ”Quando ela sair do seu corpo, você será mais livre, não terá mais os limites que têm hoje, você poderá voar, viajar para onde quiser, para todos os lugares mesmo, você até verá seu avô que, você perdeu ano passado”. “O Vovô, eu posso me encontrar com ele?” “Claro, com a alma dele, pois as almas não morrem e podem fazer tudo o que o corpo não pode”. “Eu posso ir até na lua?” “Claro que pode, até ao sol e não vai se queimar, pois a alma não se queima, a alma é indestrutível”. “Alma não”, disse Marcelinho já com os olhos brilhando, “Eu, minha alma sou eu. Eu sou indestrutível…” “Claro”, prosseguiu o doutor, “a alma é um sopro de Deus, por isso é eterna e poderosa, é, na verdade, a grande prova do amor de Deus por nós, Ele nos deu uma alma imortal”. “E o fido, doutor?” “Quem é o fido?” “É o meu cachorro, ele tem alma?”. “Não sei, Marcelinho”. “Acho que tem, claro que tem, pois ele também se mexe, brinca e come, mas deve ser uma alma bem menor que a minha, que só ocupa a casinha de cachorro dele, não como a minha que ocupa todo o meu quarto.”
 VISTA DA CIDADE DE LOURDES, SUL DA FRANÇA.
1 – A França é a segunda pátria de todo mundo, inclusive dos franceses.
2 – Não vi nenhum urubu na França. Devem ter morrido de fome. As pessoas lá comem as coisas podres.
3 – Em Paris tem uma ruazinha de uns quatro quarteirões chamada São Paulo. São Paulo é isto: uma ruazinha em Paris (Brasília nem chega a isso). Em Paris tem uma pracinha chamada Rio de Janeiro. Rio de Janeiro é isto: uma pracinha em Paris. Em Paris tem uma rua chamada Argentina. A Argentina é isto: uma rua em Paris.
4 – Veja que luxo os nomes de ruas de Paris: Stravinski, Racine, Emile Zola, Bernard Shaw, Leibniz, Maurice Ravel, Cesar Frank. E nomes de praças: Charles Dickens, Berlioz, Pablo Casals, Edmond Rostand, Albert Schweitzer.
5 – Muita gente vai a Lourdes curar-se do mal da feiúra. Infelizmente não fui agraciado.
6 – É constrangedora a visão da cara constrangida das pessoas no constrangedor Centro George Pompidou. Cara de quem está a ponto de vomitar. Parece que a arte já chegou ao seu limite.
7 – Na entrada do George Pompidou deveria estar escrito: “deixai aqui toda a esperança”.
8 – Na França ouve-se muito: “oui, mais…”. Isto é, eles dizem: “concordo, mas discordo”. Gente civilizada é isto. Um brasileiro diria, “larga de ser besta!”
9 – Pode-se colocar o suco de laranja francês na categoria das coisas de sabor remédio.
10 – Enquanto houver a França, a indústria tabagista não precisa se preocupar.
11 – Paris é como ir ao dentista: deve-se visitar, pelo menos, uma vez por ano.
De longe, me reluzia Ela que a tantos seduz Enquanto eu me distraia Banhava-me em sua luz
Flutuando toda nua Dama da noite sozinha Querendo-me toda sua Como se já fosse minha
Fingindo que eu não sabia Que eu sabia que ela olhava Fazíamos-nos companhia
Mas nossa luz se apagava Enquanto eu aqui me enchia No céu, ela se minguava.
“Eu te amo” são como digitais. Cada um tem o seu e você jamais saberá o que o outro quis dizer quando disse a frase. Muitos evitam dizê-la e evitam ouvi-la, como se ela estivesse em uma posição quase intocável na escala ontológica das frases. Outros dizem “eu te amo” a toda hora e circunstância. Ambos estão certos. Deveriam, porém, entender que o seu “eu te amo” não é mesma coisa do “eu te amo” do outro, pois, para alguns são apenas palavras, para outros é a própria divindade, para outros é um meio termo e seguem matizes em quantidade igual a dos pronunciadores. O fato é que o amor humano é mesmo defeituoso e é condicionado. Amamos o que precisamos? Amamos o que necessitamos? Nem sempre. Às vezes amamos a quem, apenas, queremos estar à disposição, mas não queremos, obrigatoriamente, por perto o tempo todo, justamente porque a amamos (fiz há um tempo uma frase assim: “eu te amo, mas, por favor, não tome isto como uma cantada”). Então, dizer “eu te amo” para essa pessoa é o mesmo que dizer “estou a sua disposição” com um pouco mais de ênfase. É dizer também “eu não me caso contigo justamente porque te amo, mas se precisar de mim para qualquer outra coisa, estou aqui”. Enfim, em grego, por exemplo, a palavra “amor” tem vários nomes, diferentemente do português, o que pode significar que sabemos muito pouco sobre o amor, pois o reduzimos quase sempre à mesma coisa. A polissemia sempre atrapalha o entendimento. Além disso, há a velha dificuldade de comunicação entre as pessoas. Para ajudar, sugiro que todo mundo escreva um pequeno texto (coisa pouca, uns dois mil toques só, algo como o tamanho deste post) com o título “O meu ‘eu te amo’”, faça um blog e publique lá para que as pessoas vejam e entendam o que você quer dizer quando diz “eu te amo”. Tenho idéia melhor, todos deveríamos fazer um dicionário (dinâmico, sempre atualizado e alterado, pois podemos mudar de opinião) de nós mesmo para que entendessem o que queremos dizer quando dizemos frases feitas. Seria um dicionário com verbetes como: “diz aí”, “puta que pariu”, “puta merda!”, “tudo bem?”, “eu te amo” (claro), “caraca!” “má-rapaz!”, pois mesmo dizendo a mesma coisa nem sempre estamos dizendo a mesma coisa. “Política”, por exemplo, é uma palavra que eu jamais vou entender a acepção que a maioria dá a ela, mas paro por aqui, já passaram os dois mil toques.
oItO Um artista não é um professor. Sua obrigação é ser criativo e não útil. Deve distrair, não ensinar.
II Cientistas dizem que Deus não existe e esquecem de dizer que tal afirmação não é científica e sim, no mínimo, religiosa.
qUATRO “Deus é caridade” e não “Deus é amor” deveria ser a tradução, pois para o brasileiro “amor” é eros. Um amigo meu perguntou ao filhinho “você ama o papai?” e o menino respondeu “eu não, o senhor é homem!”. Por pouco “Deus é amor” não foi traduzido por “Deus é foda”.
5 Uma mulher de esquerda é mais de esquerda do que mulher. Um “teólogo de esquerda” é mais de esquerda do que teólogo. Um poeta de esquerda é mais de esquerda do que poeta. Você só é o que diz que é – mesmo – se não for de esquerda.
TrRÊs No Brasil é assim: tratam tocadores de surdo como se eles fossem Beethoven, só por que Beethoven também tocava surdo.
oNe O inventor do detector de mentiras mentiu adoidado para conseguir o dinheiro da pesquisa, para aprovar a patente e para comercializar o invento. Aproveitou que a ninguém ocorreu provar nele mesmo seu invento.
ninE Todo erro geralmente vem ancorado em uma verdade. Só a verdade não precisa do erro para existir.
SEpt Faça esporte com moderação, pois é perigoso. Amigos meus esportistas vivem operando o joelho. Esportistas correm mais riscos que sedentários. Por que não limitam a prática de alguns esportes, como fazem com as bebidas, em face dos acidentes que causam?
6 Fizeram assim: disseram ao povo que a verdade não era digna de reverência. O resto veio por conseqüência: hoje o povo cultua o erro.
X Na arte ocorre o contrário do que dizia Marx, pois a farsa, na arte, acontece antes da tragédia. Duchamps era farsa, Yoko Ono é a tragédia.
13 – Não se vê o espírito, porque ele é o olho. 14 – O espírito se manifesta no tempo e no espaço e, embora não se submeta aos dois, é neles que se realiza. 15 – O espírito já habita a virtualidade antes desta se tornar real. 16 – No espírito, as consciências se encontram, pois só nele, podem se ver com nitidez. 17 – Espírito é aquilo que não cessa. 18 – Todos os corpos são animados pelo mesmo espírito.
ps – reflexões sobre este texto.
7. Mundo é tudo que não é espírito. 8. Mundo é o espaço entre o finito e o infinito, que ele, ao mesmo tempo, separa e une. 9. O espírito gruda no passado e no futuro, fazendo com que, no presente recordemos aquele e imaginemos esse. 10. O espírito absorve o presente, infla o futuro de possibilidades e impede o passado de se esvair. 11. As potencialidades do futuro se tornam reais (presente), se evaporam (passado) e são capturadas pelo espírito. 12. O tempo e o espaço são meros caminhos para o espírito.
1. O espírito é o poder de conhecer as coisas. 2. O espírito é a ponte entre o mundo e a consciência. 3. O espírito cria e unifica a consciência que temos de nós e do mundo. 4. O espírito é o senhor e as coisas são seu brinquedo. 5. O espírito está sempre assimilando o mundo. É sua eterna função. 6. O espírito ilumina o mundo para que o vejamos como ele realmente é.
De família de músicos, o jovem músico tímido (coitado!) sonha em ganhar a vida em um escritório, mas é violentamente pressionado pela família a trabalhar na música e fazer sucesso. No palco, suas as mãos tremem, a voz falta, o violão vacila. O pai, velho cantor, olha atravessado e ele ataca a introdução da canção com a certeza de que não nasceu para aquilo. Além disso, quando tiver coragem de abandoar o palco, os colegas do banco também não o perdoarão por ter escolhido a tediosa carreira de bancário. E ele sorrirá sabendo que ninguém escolhe ser o que é, apenas tem ou não tem o ânimo de conviver com as forças contrárias que teimam em sabotar nossos sonhos.
1. O amor não é imposto. É inevitável. Imposto é o IOF. 2. O azar da sorte é a sorte do azar. 3. O velhinho tarado estava com o pé na alcova. 4. O Brasil já foi mais brasileiro. 5. A solidão está na moda e eu detesto andar na moda. 6. Há muitos nós na corda da vida. 7. O medo é filho das limitações. O destemor é filho da loucura (ou da razão). 8. Tem uma cidade no Amazonas chamado “Democracia”. Que nome mais demagogo! 9. Você tem muito bom gosto, até parece com o meu. 10. Juiz de fora é incompetente, já dizia meu professor mineiro.
A paz, e tudo mais, exige um preço, que devemos pagar com alegria, afinal é maravilhoso viver em paz. É preciso a vigilância de um samurai para que se viva em paz. A paz é o sonho do guerreiro. Só o pacifista não vê. E há também o guerreiro que só vive em paz quando está em plena guerra. As guerras ocorrem por motivos estéticos. Toda guerra é uma questão de gosto. Todo guerreiro, todo exército, todo cangaceiro tem um conjunto de símbolos, vestimentas e rituais puramente estéticos. A arte é uma arma de guerra. A arte mexe com nosso senso estético e este mexe com os outros sentidos. Sem beleza não há amor, sem amor não há ciúmes, sentimento de posse, sofrimento, mágoa, euforia, gozo, frustração. A beleza é o bálsamo e o antibálsamo, a droga e a antidroga, por isso a arte é fonte de guerra e paz. Aliás, quando algo belo entra em sua vida, acabou sua paz. E, por outro lado, vivemos buscando o belo, crente de que só assim teremos paz. A beleza faz falta, ainda que seja só um ornamento. O poeta diz “não existe coisa mais triste que ter paz…” Beleza deveria ser escrita com maiúscula como “Deus”. A frieza dos genocidas é sua indiferença à beleza. Genocida é aquele que mata sua própria gente depois que a guerra acaba. Há uma razão para a maldade: a indiferença ao belo. Dessa indiferença à beleza, surge o cerceamento à liberdade, pois o que é a liberdade? É o direito que queremos ter de gostar sem impedimentos. Não se luta pela “liberdade”, luta-se pelo direito de ler qualquer livro, ouvir qualquer música, ver qualquer filme sem impedimentos. Luta-se pelo direito de achar bonito aquilo que nos deleita e de se deleitar com aquilo que achamos bonito. Liberdade é isto, direito de sentir e buscar o sentimento que quiser. Não é à toa que o livre arbítrio é uma das cláusulas pétreas da lei de Deus. Deus permite que façamos qualquer coisa, mesmo contra Sua vontade porque nos fez livres. Os poderosos, porém, não têm a liberdade em tão alta conta e daí surgem as guerras. A guerra pela paz de viver na guerra em que nossa alma escolher. Pacífico é aquele que vive com a alma em guerra causada pelas tensões estéticas onde é jogado pelas mãos da realidade e é capaz de dar a vida para que o deixem em paz em sua guerra privada.
O fabricante de máquina do tempo acabou de receber umas encomendas. Todas para ontem. E já entregou, pois um fabricante de máquinas do tempo nunca atrasa suas encomendas. Aliás, desde que se inventou tal engenho, a metáfora para toda inabilidade é “ser fabricante de máquina do tempo e atrasar a entrega”. O cliente chega e diz: “seu Tonico, eu quero uma máquina do tempo para ontem, pode ser?”. O velhinho, ajeita os óculos e responde com cara cética: “uai, Zé, sua memória tá ruim, hein? Eu já lhe entreguei, sô!” O cliente dá um tabefe na própria cabeça para ver se com a sacudida, a mente se atualiza e toma consciência do passado e do presente modificado graças a sua ida ali pedir a fabricação da máquina e recorda que realmente, a máquina tinha sido entregue no dia anterior. E seu Tonico acrescenta: “agora, só falta me pagar, seu desmemoriado ou não fabrico mais máquina nenhuma procê”. Ninguém dá calote em um fabricante de máquina do tempo, pois ele pode voltar ao ontem ou deixar de ir ao depois de amanhã e não entregar a encomenda. Certa vez, um cliente pediu uma máquina e seu Tonico respondeu de pronto: “faço nada, cê num vai me pagar, sai daqui seu caloteiro”. “Mas seu Tonico, é a primeira vez que venho pedir seu serviço”. “É a primeira vez mesmo, você vai me pedir uma pro mês passado, eu vou fazer, e sei que fiz porque já entreguei no mês passado e até hoje ocê tá me devendo, seu vagabundo, sai de minha oficina, fiquei no prejuízo, seu safado, só me apareça aqui com dinheiro…”. Desde então, seu Tonico só faz máquina para entregar no passado se o pagamento for feito no momento do pedido. Antes, ele fazia para receber o pagamento na entrega, mas viu que quando a encomenda era para o passado, isso não funcionava bem. Porém, para entregar no futuro, ele cobra a metade no ato da compra e divide em até três vezes e quando o cliente pergunta como anda a fabricação da encomenda que será entregue no futuro, Tonico responde: “acabei de entregar procê, voltei do ano que vem indagorinha”.
No meu sangue tem saudades Tem o pranto que escondi Tem o riso que guardei Tem o peso da idade No meu sangue tem pedaços de mim
No meu sangue há novidades, Meu sangue não é azul É vermelho e transparente Refletindo totalmente Meus sonhos da mocidade O meu sangue corre pros mares do sul
No meu sangue há naufrágios Meu sangue há mapas em branco, Mantras, astros, mastros, mantos, Meu sangue é um mar bem frágil. Onde bóiam multidões.
No meu sangue há tubarões Sardinhas, gatos, baleias Meu sangue não corre em veias Meu sangue voa em tufões Em que navegam voadeiras
E afogado em meu sangue Bóia um corpo naquele mar Que eu tento resgatar Um corpo bem familiar De quem não sabe nadar Mas que teima em navegar E morre no próprio sangue.
Sou eu o corpo a boiar. Mas eis que entendo a mão E me puxo para dentro da embarcação.
SETE Fizeram uma lei autorizando matar anencéfalos, como não sou anencéfalos, não me importei. Fizeram uma lei autorizando matar filhos de estupradores, como não sou filho de estuprador, não me importei…
NEUF Quando a ideologia tem relação com a realidade viva, a coerência até se impõe. Por isso é mais fácil a um capitalista ser coerente do que a um comunista, embora os dois tenham lá seus delírios.
FIVE A arte nos fornece a nata densa, o creme do leite da vida. Arte tem que ter acentuado sabor e acentuada textura. Pergunte à arte que você faz: “isto é leite ou nata?” E descarte-a, se for leite. Pois leite é a rotineira vida. Leite aguado.
DÉIS O mar é que é a capital. Um lugar enorme com muita coisa bonita, não essa coisa pacata dos rios pequenos. Mas também tem perigos, tem tubarões. O mar não tem comprimento nem largura, é uma coisona só. Não é como este rio, essa coisinha espichada, curtinha, estreitinha. Assim matutava o peixe matuto.
SIX É preguiça mental concluir que o invisível aos olhos não existe.
VI Há uma obsessão saudável: a obsessão pela verdade. A verdade não sou eu. Ela está fora de mim e eu devo buscá-la e me harmonizar com ela. Renunciar a si é abraçar a verdade.
OITO O matuto foi a Portugal e lá o chamaram de pá. “Ô pá, ô pá”, eles diziam. O matuto então passou a chamar os portugueses de picareta. “Se eu sou pá, eles são picaretas…”
DEUX Ideia para um poema: ser o péssimo resumo de uma história grandiosa. Um péssimo resumo pode dar uma ótima história. Um bom também. E vice-versa.
3 O mercado é indomável. Quando o governo impõe regras, ele desobedece; Quando o governo o proscreve, ele vive no submundo, ainda mais livre.
UM Ideia para conto: restaurante canibal onde são servidos italianos à bolonhesa, feijoada com orelha e pé de africanos, sushis de japoneses, hot-dog de americanos etc. Chama-se “Restaurante Etnias”.
Em junho, no complexo penitenciário do Buraco Quente, os presos resolveram organizar uma festa de São João. O diretor da prisão achou uma boa idéia uma festa de São João, mas considerou um exagerou que se fizesse uma como deve ser, com fogueira e quentão e cortou vários itens da proposta. Mesmo assim a festa se fez. Um dos presos ficou de organizar a quadrilha, que, de fato, no fim de tudo, foi só o que funcionou direito. No começo, houve o natural mal entendido “como assim, vamos organizar outra facção criminosa?”, “não, idiota, é quadrilha de São João”, “quem é idiota, mermão, qué morrê?” Mas a festança foi feita, com casamento na roça, comidas típicas e todos dançaram muito. Até a televisão veio ver e durante a semana só se falou na quadrilha dos bandidos. No ano seguinte, quando todos já tinham esquecido a festança, o preso organizador voltou a falar em quadrilha. Feliz com o sucesso, no ano anterior, pediu audiência com o diretor da prisão, que era novo ali, e foi logo falando com entusiasmo que estavam começando a organizar a maior quadrilha já vista na história daquele presídio. O diretor nem quis saber de detalhes e ansioso para usar as prerrogativas do regime disciplinar diferenciado, mandou o preso para a solitária, onde ficou isolado da malta até outubro.
Em minh’alma está chovendo Em minh’alma há uma coceira Que teima, que arde e queima Que dói feito pedra no rim E eu tive uma crise de riso Quando vi que é mesmo assim.
A minh’alma está aberta Com as portas escancaradas Por onde entram risadas, E esperas resignadas. Por onde saem sons ao estilo De uma sinfonia de grilos
E em minh’alma, vendo aquilo, Fiquei demais intranquilo Ressentido, invadindo o recinto! Eu planejei um seqüestro. Sequestraria o maestro.
Tomei-lhe da mão direita a batuta Mas não houve muita luta, O maestro era ambidestro E era um grilo gigantesco Com um jeitão carnavalesco Que continuava regendo Tranquilo, me ignorandoi
Depois da canção tocada Chamou-me para uma conversa E notei naquele ser grotesco Uns traços de parentesco Era um grilo simiesco Que era a cara de mim mesmo Aquele grilo era eu. O zumbido em minha cabeça Era orquestrado por mim
A sereia se mudou para o sertão. Ela sabe que aquilo ali será mar em breve (lera isso no livro de Euclides da Cunha). A vida no sertão é árida, mais do que sereias suportariam. Mesmo assim, dizem, a sereia já encantou três sertanejos. As mulheres estão preocupadas: com a sereia que chegou e com o mar que chegará. A sereia passa fome no sertão. Pensava ela que poderia viver de dar aulas de natação. “Não me admira que estas pessoas passem fome, ninguém quer aprender a nadar. Quando vier o mar, sentirão falta de saber nadar”. A sereia sofria como sofrem os profetas que vivem não a vida que têm, mas as profecias que adivinham. Ensinava para as crianças o que era água. Descrevia o mar. Dizia-lhes: “mar é o que eu choro”. E dava suas lágrimas para que os meninos provassem. Ela, que tinha ensinado a nadar tantos peixinhos… Lembra-se da escola que tinha no fundo do mar. Os peixinhos nasciam e iam pra lá. Ainda nem sabiam nadar e saiam cantando, “quem me ensinou a nadar foi a sereia do mar”. Orgulhosa, a grande professora que vivera de nado, agora nada. Nada de nados. Um dia foi à missa, pois ouviu falar de água-benta. Onde ouvia falar de água, ela ia. “Cadê a água benta?” Não havia, ela tinha que aguardar, pois a água (sempre) não dava para nada. Aguardar água que não dá, água(r)dá. “Sem água ninguém aguenta, dá-me um pouco de água-benta, para a vida dessa gente”. “Dá-me um pouco de aguardente”, os homens diziam atrás, completando a rima e profanando o canto da romaria. Na Igreja descobriu velhos conhecidos, “Santa Bárbara? Conheço demais, ela acalma as tempestades” e Maria? “Ah, é a minha rainha, ela é a dona do mar e é mãe do filho do Criador, adorei essa religião”. E ficou por ali, como todos, naquele lugar sem nenhuma ordem e nenhum progresso. A sereia era um dentre os sertanejos que esperavam o mar. Conversava com o vento. Chamava aquele vento de “vento de refrescar”, pois os ventos do mar são “ventos de levar”. Sempre pedia: “quando eu morrer, me joguem no mar”. Cantava: “eu não sou daqui, eu não tenho amor”, mas assumia que agora, era sertaneja até embaixo d’água. E sorria.
PS – Este conto curto meu foi adaptado para a linguagem de HQ, veja aqui.
Presente é coisa que não tem importância. O importante é quem dá e quem recebe o presente. Quando alguém que você não gosta lhe faz um poema, você responde falando dos aspectos formais do texto “puxa, como você é bom de rimas”. Quando alguém que você adora lhe manda um simples batatinha-quando-nasce você vai ao céu de tanto contentamento. Quando alguém que você ama lhe dá um presente bem bobinho, você com seus olhos felizes liga e diz o quanto adorou. Quando alguém que para você é atraente como um leproso lhe dá uma caixa de caviar iraniano, você liga para reclamar “ah, não precisava, você me deixa sem graça desse jeito, faz isso não, tá?” A culpa não é de ninguém, o que se pode fazer quando um leproso cai de amores por nós? O que fazer quando o leproso somos nós? Amor é coisa difícil, principalmente para leprosos. Pensando bem, o pior leproso é o leproso carinhoso.
O guerreiro foi fuzilado como criminoso de guerra, condenado pelo crime de bondade. Ele não sabia que a bondade na guerra é um crime e que guerreiro bom é guerreiro ruim.
Pintores traçam modelos. E que traços!
Versos eróticos na mocidade; Hinos religiosos na velhice. Eis o resumo da vida do poeta.
“É que ela só falava ‘eu te amo’ com sotaque”.
Eu ouvia Soy Latino Americano, Hora Extra, O dono da Verdade, Vem o hômi, Lili, Quando Será? e outras dele que tocavam nas rádios de minha infância, então, soube que era o compositor [em parceria com Tavito] de Casa no Campo e que depois se tornou publicitário. Então, muito depois, veio a lista m-musica e conheci o Zé Rodrix de carne e osso e foi um impacto. Desde os primeiros contatos, um monte de coisas se mexeu em minha cabeça, alguma coisa mudando, a maioria se confirmando o que eu já pensava e muito se revelando cristalinamente como se eu sempre soubera. O Zé foi isso para mim: um enorme clarão. Ótimo frasista e contador de histórias, iconoclasta no ponto certo, radical sem ser chato, um tipo de Sócrates contemporâneo, tudo o que se quer ser quando crescer. Ainda que, ultimamente, afastado da m-musica e sem contato direto com o Zé, era sobre ele que eu mais falava, é sobre ele que mais falo. Semelhante aos oráculos, para todo situação há uma frase ou uma história do Zé que se pode usar para esclarecer ou explicar. Para toda situação tensa, há uma piada do Zé para aliviar. Para todo silêncio, há uma palavra do Zé para brilhar. Depois do Zé, cessou a falta de assunto. Era uma maravilha ler as mensagens do Zé, que criticava o mesmismo – e as tais 42 canções “boas”, eternamente cantadas – a falta de originalidade, a subvenção às artes (leia isto) e o artista que grava 1 disco por ano e não apenas quando tem algo bom para mostrar etc. Com base nas idéias do Zé, escrevi vários textos. Aprendi com o Zé, por exemplo, a ser menos preconceituoso em questões artísticas, pois para o Zé não há artista bom nem ruim e sim obra boa ou ruim. O fato é que o Zé acreditava na redenção das pessoas, acreditava que nada impedia que o Wando, por exemplo, fizesse um excelente disco, afinal o Wando está vivo e pode nos surpreender, como todo ser humano o pode. Por outro lado, um morto não surpreende mais e um dia desses, infelizmente, o Zé cessou de nos surpreender, fechou-se o ciclo, encerrou sua história, nada mais dirá e nada mais lhe será perguntado. Sua vida está brilhantemente terminada e completada. História escrita parte pelo Zé e parte por Deus, que, satisfeito com a parceria, chamou o parceiro para Si. Obrigado e até breve, Zé.
O amor é cego Usa bengala e cachorro Pede esmola nas esquinas O amor passa o chapéu O amor toca sanfona
O amor é cego Não enxerga de nascença Não dirige, lê em braile Usa óculos escuros Seus olhos são para o choro
O amor é cego Não liga pra escuridão Não se importa com a luz Tem senso de direção É ele quem me conduz
O amor é cego Precisa de companhia Também de sinais sonoros E de pisos indicadores Mas é ele quem me guia
O amor é cego O amor esbarra nos móveis Se os tiram do lugar O amor diz o que pensa Pois fala sem olhar nos olhos
O amor é cego E me pega pela mão Guia-me por onde eu enxergo Como se eu fosse o cego O amor vê na escuridão
O amor é cego Conhece às apalpadelas Vê com as mãos e não esquece Rico de imaginação O amor não nos merece.
SEIS Ideia para negócio: “Lojas Parapeito”, tudo para peito: sutiãs, silicone e também proteção para borda de janelas e varandas, aquilo que chama “parapeito”. Outra ideia: “Produtos Agosto”: sal, açúcar, pimenta, leite. Quando na receita constar “Sal a gosto”, é a nós que procurarão.
TROIS Todo mundo quer vender o que produz e comprar o que precisa, capitalismo é isto. Só alguém que não queira de forma alguma obter o que precisa e nem vender o que produz é um anticapitalista. Existe alguém assim?
NEUV O significado é a alma da palavra. A palavra é o corpo do significado. A palavra morre, sua alma não. Há significados vagando como alma penada buscando a palavra que o incorpore. Há palavras ricas, pobres, feias, bonitas, grandes, pequenas, pesadas, leves. Palavra também é gente.
FOUR O feto é também chamado de “nascituro”, que significa “aquele que vai nascer”. Ao impedir que nasça aquele que vai nascer comete-se assassinato como se matasse um adulto, a quem se poderia chamar de “aquele que vai viver”.
HUIT Palavrismo. Unseteúnico. adj (dir. 171). 1. Que quer passar as pessoas pra trás. “Lá vem o deputado com seu jeitão unseteúnico”. 2. Esperto. 3. Charlatão 4. Artista. 5. Bandido 6. Saudável “aquela criança tinha uma energia unseteúnica”.
UNO Os músicos improvisadores são os que mais ensaiam. Um improviso não sai bonito se não for bastante ensaiado.
CINQUE Morrer é ser apagado. A questão maior é se esse “ser apagado” se trata de um “ctrl x” ou de um “delete”. Lembrando que na vida não tem “ctrl z”. Mas para o Grande Programador nada é impossível. E Cristo não só salva como também faz back-up.
SEPT Como se amizade fosse uma luta de classes, marxistas só aceitam presentes do preço que possam retribuir.
DOS Ela disse que estava brincando, mas depois disse que estava brincando quando disse que estava brincando. Acho que estava brincado de novo.
VII Os jovens têm que aprender com os velhos porque os velhos esquecem.
1. Meus olhos não têm fome. Só minha alma. Transpiro introversão. 2. Meu nome deveria ser Tristão. Ia combinar direitinho. 3. Vivo com meus pares. Com meus pares de sapatos. 4. Sou um ser inadequado. 5. Mais amado do que merece. 6. Sou um amador (em sentido lato). 7. A internet me deixou burro muito burro demais. 8. Sou um rio sem margens. 9. Cego, meu guia é uma tartaruga. 10. Não sou suficientemente santo para prescindir da Igreja.
Você gostaria de ser fotografado e exposto como símbolo da miséria? Gostaria de ser modelo do calendário “Os desvalidos do ano”? Bem, se você for mesmo um desvalido, você nem sabe do que se trata, nem sabe o que é uma máquina fotográfica ou direito de imagem, então, nem imagina o contexto em que lhe inserirão. Uma amiga minha precisava de umas fotos de pobres para fazer um trabalho na faculdade. Pegou uma máquina e saiu tirando foto dos miseráveis que encontrava. Logo nos primeiros flashes se sentiu mal, muito mal. Que direito ela teria de expor aquela pessoa como sendo o protótipo da miséria? Ora, ela não gostaria que fizessem isso com ela, então colocou a máquina na sacola e desistiu da tarefa. Ela não encontrou um bom motivo para ser um tipo de gigolô da miséria desses que tem por aí e, enquanto dispara sua objetiva, “sabe” que está fazendo aquilo por um bom motivo. Na cabeça deles é mais ou menos como matar um rato para ajudar na cura de uma doença. Acontece que gente não é rato e com gente é diferente. A invasão ao direito da imagem não tem conserto. Depois que você aparece, contra sua vontade, na capa do livro de luxo do fotógrafo famoso como sendo o lascado da década, o estrago é indelével. Há outra coisa, um homem do mundo, desses que conhecem todo o planeta e tem boa formação, convence com grande facilidade uma pessoa miserável de que aquela foto não é nada demais. Mesmo uma foto autorizada de uma criança descalça com catarro escorrendo (“posso tirar sua foto, minha filha?” A menina responde que pode) traria problemas éticos à mente de um ser humano normal. Mas os tais “benfeitores da humanidade” discordam do I-Ching, pois para eles os fins justificam os meios e tome porrada e cusparada no indivíduo, pelo bem da humanidade. Toda arte que levanta bandeira dá um tiro no pé. No pé da arte, pois para o bolso do artista, muitas vezes, é bom. A política tem o toque de merdas, quando você infla sua arte de política, ela deixa de ser arte e se transforma em política. Você será lembrado pela sua “mensagem”, ninguém falará da beleza de sua arte, pois ela, de fato, por culpa sua, é apenas empregada doméstica de sua ideologia.
Um anjo toca uma trombeta e anuncia: - Por favor, os intelectuais, por favor, todos os intelectuais fiquem aqui deste lado. Começa a movimentação, um pergunta para onde deve ir, pois já tinha sido chamado para um lugar onde ficariam todos os gays, o anjo (pensando: “se eu fosse você ficava onde está”) diz que ele deve decidir se é mais bicha ou mais sabichão, “ou sa-bichona” responde o intelectual rindo meio nervoso, mas o anjo não acha graça. Tenta uma segunda piada: “Ah, então é como no sistema de quotas, eu é quem digo o que sou”, mas o anjo também finge que não entende e segue a exortação: - Os sabichões, por favor, os ditos intelectuais, fiquem deste lado, última chamada, intelectuais, Deus quer falar com vocês. Não, não é para trocar umas ideias não, seus engraçadinhos, vão é levar uma catracada, isso sim. Intelectuais, última chamada, sábio não vale, quero só intelectuais. Quando estiverem juntos, separem-se entre ateus e teístas, por favor. Isto é, quem “era” ateu, não é possível que depois disto aqui ainda sejam. Intelectuais, última chamada, Deus sabe muito bem quem é e quem não é, não tentem se enganar… Outro anjo surge, dá outra trombetada e anuncia: - Cristãos de esquerda, por favor, cristãos comunistas e simpatizantes de comunistas, se ponham aqui, logo atrás dos intelectuais, Deus quer falar com vocês também, ignara malta…
Nelson Rodrigues tem um livro chamado “Não se pode amar e ser feliz ao mesmo tempo”. Vou discordar da frase (ou este post não sai), pois é perfeitamente possível amar e ser feliz ao mesmo tempo sim. O problema é que a dor é a sombra do amor. Haverá sempre um perigo rondando o amor, mas não o tornando infeliz necessariamente. E falo isso de qualquer tipo de amor. Quanto mais amamos alguém, mais nos preocupamos e sofremos com o sofrimento dessa pessoa. Amar é ter mais de uma vida. Um pai sofre as dores de todos os filhos, mas também ri o riso de todos eles. Não é à toa que Nossa Senhora é mais bem-aventurada das criaturas, é que seu filho é o Rei dos Céus. A dor do amor é inevitável. Vinícius resolve a questão da dor inevitável com sua frase “amor só é bom se doer” em um daqueles afro-sambas. É possível amar e ser feliz, mas amar e não sentir dor não, pois não há vida sem dor (e nem vida sem amor, pois o amor é a própria vida). Dor não é sinônimo de infelicidade e pode até significar felicidade. Quando quem amamos espreme um cravo em nossas costas, dói pra caramba, mas é ótimo. Nem tudo que dói é ruim. Felicidade é outra coisa.
Mozart começou a compor ainda muito novinho. Sua primeira peça foi feita aos 3 anos de idade e ele a nomeou de “Valsa da Fralda”. Depois dessa, se seguiram a “Mazurca da Chupeta”, o “Minueto do Leite” e o “Scherzo da Mamadeira” e o divertido “Prelúdio do Alfabeto”. Já um pouquinho maior, fez o pequeno concerto “Meu dente de leite” e a grande “Sonata da Caxumba”. Aí, quando finalizava a “Fantasia das Espinhas”, seu pai chegou (aquele chato) e o convenceu a adotar para suas peças nomes tradicionais e cheios de números.
Eu queria ser ingênuo, a música de Pixinguinha. Eu queria ser encantado, onde nasceu Aracy de Almeida. Eu queria ser um americano em Paris, o filme. Eu queria ser Eu, o livro de Augusto dos Anjos. Eu queria ser qualquer música, a poesia do Pessoa. Eu queria ser amoroso, o disco do João Gilberto.
Um rapaz era azarado e muito feliz. Era assim, cada coisinha em que ele se metia ocorria exatamente como ninguém desejaria. Quando ia ao teatro, se sentava entre duas pessoas asquerosas, se ia ao Caribe, chovia. Esse padrão se repetia no trabalho, no ônibus, na faculdade, em toda sua rotina, em toda sua vida. No fim do dia, ele chegava a casa e escrevia no diário as desventuras do seu dia. Era feliz porque tinha controle de tudo, sabia que sempre aconteceria algo muito desagradável. E quando ocorria, ele ria e comentava consigo “eu sabia, eu sabia”. Era um espectador do próprio drama, que é uma boa forma de transformar o drama em comédia. Um dia, um dia não, uma semana, uma semana não, foram exatamente duas semanas, aquele padrão de azar parou de se repetir. Ele começou a ter sorte, a receber o dinheiro que lhe deviam, a ser elogiado no trabalho, a receber convites de belas garotas, enfim, a escassear assunto para o seu diário de desventuras, já não dizia “eu sabia, eu sabia” de si pra si e começou a ficar irritado, pois sentia que perdera o controle da própria vida. Não teve dúvida, no décimo quinto dia de sorte, quebrou os espelhos da casa.
Os cientistas, filósofos e místicos deveriam se unir e construir suas teorias científicas, filosóficas, astronômicas e metafísicas em parceria, como alguns roqueiros e outros tantos caipiras de nossa música. Poderia ter existido, por exemplo, a dupla Lutero e Erasmo, que seriam o Roberto e Erasmo da renascença. Inclusive Lutero mudaria seu nome para Lutero Carlos, para combinar com o nome do parceiro mais famoso. Porém, só bem mais tarde, no século XIX, é que essa idéia ocorreu aos pensadores, com o surgimento da famosa dupla sertaneja Marx e Engels, cuja obra teve um sucesso sem precedentes, com mais de 100 milhões de execuções.
Lendo artigos sobre um programa que faz o tuitador ter mais seguidores sem fazer esforço, fiquei pensando. A subida artificial também dá prazer, pois o importante é subir, mas tem hora que a pessoa que subiu artificialmente para para (viu o que a reforma ortográfica fez?) pensar e fica um pouquinho envergonhada de não ter contribuído com a própria subida. Ganhar na mega sena é ganhar dinheiro artificialmente. Os milionários que ganharam dinheiro com seu trabalho devem olhar com desdém para um ganhador da mega-sena (nem devem frequentar o mesmo clube). O ganhador da mega-sena deve se sentir mal de vez em quando por ser tão rico de forma artificial. Sempre me imagino dizendo meus desejos a um gênio da lâmpada. Além de saúde e unzinho pr’eu parar de me virar, pediria capacidade ilimitada de aprender as coisas que gosto e preciso. Dali para frente, seria comigo a responsabilidade de chegar aonde acho desejável. Isto é, mesmo com as habilidades conquistadas artificialmente, eu ia querer fazer um grande esforço para produzir coisas e para meus talentos não parecerem assim tão artificiais. O gênio deveria pensar “tsc, tsc, tsc, gente é bicho esquisito”. Gente quer ter mérito pelo que faz e obtém. Por outro lado, como diz aquela frase do Ronald Reagan, você consegue o que quiser contanto que não faça questão de ficar com os méritos. Muita gente faz o contrário: não consegue o que quer apenas por que não ficaria com os méritos da conquista, afinal, o mundo não admira muito (nem se lembra de) quem deu os passes para os mil gols do Romário. O dogma da graça é um dos mais combatidos, por tirar o mérito da própria salvação da pessoa do pecador e passá-lo para o amor de Deus revelado no sacrifício de Cristo. Inclusive, a maioria das religiões baseia a bem-aventurança a seus fiéis na meritocracia. A graça é uma coisa exclusiva do cristianismo (e do catolicismo em particular, pois há seitas cristãs que também advogam a meritocracia como critério para entrar no paraíso, como se nossos méritos pudessem se equiparar ao amor de Deus). Então, eu me pergunto, como ficarão as pessoas no paraíso? Meio frustradas por não merecerem estar lá? Por estarem lá “artificialmente”? Sentir-se-ão como o ganhador da mega-sena? Terão crises de consciência? Bem, caso alguém se sinta mal assim, é por que não está no paraíso, né? O fato é que o amor é mesmo injusto e, como diz o Padre Vieira, quanto mais injusto for, mais amor é. O inferno sim é o reino da justiça, pois só irá para o inferno quem merecer estar lá. E assim, me pergunto de novo, haverá alguma felicidade no inferno, a felicidade daqueles que sentirão que, no seu caso pelo menos, foi feito justiça e que ele realmente merece estar lá? Isso dará um alívio às almas do inferno e elas serão um pouquinho felizes? Mas, se houver felicidade, não é o inferno, né? Bem, deixo esses paradoxos para a eternidade resolver. E dá licença, que vou ali jogar na mega-sena.
DO CORAÇÃO – Meu coração / Tem o tamanho / De minha solidão. DO AMOR – O amor / É um rolo /Compressor PESSIMISTA – O apaixonado / É alguém / Mal informado DA INFLUENZA – Eu, muito gripado / Vi que o tempo / Estava dublado. DO FIM – Eu te deixo / E depois / Me queixo.
Não brigue estando com raiva. Ela estupidifica. Só brigue quando estiver totalmente calmo. No meio de uma discussão, quando você perceber que a tal está ficando acalorada, peça um tempo: “desculpe, estou ficando com raiva, não vou brigar com você”. O outro, muito compreensivelmente, responde: “puxa, que pena, então fique calmo logo para podermos brigar direito, eu poderia continuar, pois estou totalmente calmo. Ah, que frustrante, não via a hora de te quebrar todo…”. E você responde: “ah, mas eu não sou bobo de brigar com raiva, seria o mesmo que ir ao supermercado com fome, você acaba gastando mais do que deveria, quando tiver calmo, eu volto e te dou uma surra”. E o outro: “eu é que ia destruir isso que você chama de cara, seu merda, você não vale nada, rapaz, você é um paiaço, vem cá que eu te arrebento, seu babaca”. E você diz para seu adversário que agora é ele quem está com raiva e que realmente deveriam parar a briga. E você sai frustrado, logo agora que tinha ficado calmo e pronto para a briga. Eu, por exemplo, que fico enraivecido muito facilmente, jamais brigo.
CINCO Vou criar uma organização de extrema direita e extrema esquerda ao mesmo tempo, será o MSTFP.
7 Saramago disse à Folha que “O sonho da igreja sempre foi nos transformar em eunucos”. Ele certamente não sabe que esse era o sonho herético dos cátaros, contra o qual, inclusive, a Igreja criou a inquisição. Segundo Saramago, Deus vai pro inferno.
X Médicos caridosos fazem aborto baseados na política de redução de danos. O “dano”, neste caso, é um ser humano que será assassinado, a pedido da mãe. A mídia acha isso bonito e dá matéria de capa aos abnegados infanticidas. É este o mundo em que vivemos.
SIX No Século VI a. C. na Grécia todo mundo tinha um sistema cosmológico próprio. Era como ter um blog.
TRÊS É bonito o canto dos pássaros, porém “piu piu piu”, isso é letra?! Pássaros deveriam ser apenas compositores e deixar o canto para profissionais do ramo. Eles, que vivem no ramo das árvores, pensam que são do ramo. Cantores são pássaros que vivem pousados no ramo da música.
ONE Operação padrão é coisa que se faz no Brasil para sacanear as vítimas ou usuários de determinado serviço. Isto é, quando alguém no Brasil quer chatear cumpre direito sua obrigação e isso deixa o outro puto. E, pior, desestrutura tudo, destrói rotinas, enfim, ninguém entende o que está acontecendo. É um inferno.
DOS Ideia para soneto: esqueça o futuro que já tivemos e lembre-se do passado que jamais teremos, pois é este o nosso presente.
QUATTRO A reação também é ação, o que faz o reacionário um acionário e do revolucionário um seu irmão.
9 Ser pobre é achar que não tem o suficiente. Ser pobre é ter muito dinheiro e não ter criatividade. Ser pobre é muito estressante.
HUIT Blog é literatura. Blog é jornalismo. Blog é revista de fofoca. Blog é diário de adolescente. Twitter é blog. Estou perdido, mas se quiser me seguir, eis me aqui, no Twitter, o lugar mais civilizado da rede, onde você pode estar na presença de quem não está na sua presença. Só vendo.
Sabedoria é coisa de velho. Uma criança sábia é idiota. Acontece que para chegar à sabedoria, você tem que ter experimentado as dores da existência até ficar anestesiado. Quando anestesiado, se você não falar mal das porcarias da vida, não culpar Deus, nem qualquer outro, você é sábio. Sabedoria é a arte de, com resignação, ir parando de comer e beber as coisas que você gosta. Sábio é quem não está puto por não poder mais comer um torresminho. Sábio é o frustrado de bom humor. Isto não significa que o sábio seja masoquista, pois um anestesiado nada sente. Então, temos os dois extremos, a criança chorona a quem nada falta e o velho sábio a quem tudo falta, exceto resignação à realidade. E além deste extremo, há o morto que é o anestesiado completo e que não tem sequer a insípida vida do sábio. O sábio tem que, obrigatoriamente, levar uma vida aborrecida, senão onde demonstraria sua sabedoria? O estoicismo é algo marcante e está presente na vida de santos e homens admiráveis. Então se você quiser ser grande e admirável, pare de se divertir, que isso é muito feio. Enfim, chamar de sábio é a recompensa que se dá a alguém que não reclama da vida aborrecida que leva. Grande coisa!
1.O que destrói a escuridão, sabe? Quando está tudo escuro e uma coisa vai lá e acaba com aquele breu? Delatora das coisas na escuridão. 2.Escultora que recorta a escuridão. É aquela coisa que pega a escuridão e a transforma em outra coisa, entende? 3. Esnobe que desdenha a escuridão. 4. Ajudante de fotógrafos, porque fotografia é um desenho do tempo feito pela luz, o fotógrafo tem apenas que manusear a luz direito para a fotografia ficar boa. 5. Restauradora que consente a visão, você precisa ver. 6. Caminhão que transporta o tempo, acredite é isso mesmo. 7. Oceano que circunda as sombras, ela fica por ali, rodeando as sombras, deixando que elas sejam sombras. 8. Servente varredora do escuro do espaço, porque quando precisa, ela vai lá varre o escuro para debaixo do tapete do espaço. 9. Estranha das festas, sim, porque nas festas tem pouquinha luz. 10. Invasora das frestas, eu disse frestas, ela é atraída por frestas como repudiada pelas festas. 11. Prisioneira do dia, porque ela vive nele ou seria ele, o dia, o seu prisioneiro? Uma das duas coisas ou as duas. 12. Cobertura das tochas. Não é? É sim. 13. Espanta-escuro, num é mesmo? É claro que é. 14. Agente dos raios, porque ela vai à frente avisando que eles estão vindo. 15. Inimiga das nuvens, bem, acho que é. Não se dão muito bem não, ela e as nuvens. 16. Alimento de buraco negro, ora, pois, outro inimigo dela, esse tal de buraco negro, sem preconceito, por favor, não fui eu quem inventou esse nome. 17. Recado dos astros, é um tipo de recado mesmo. 18. Mãe de todo brilho, ora sem ela, não há brilho. 19. Salvadora noturna, porque a noite só é bela no que ela tem de luz. 20; Grande ausente das profundezas. Faça um cálculo, vai me dizer que ela desce muito? Desce nada. 21. Caligrafia dos faróis, porque ele vão escrevendo luzes nas estradas 22. Imã de mariposas. Eu disse imã, porque ela atrai as mariposas, como as frestas fazem com ela. 23. Extensão das lanternas. Ela é como se fosse o caminho na frente da lanterna, é bonito de ver a luz sendo expulsa e se tornando uma expansão da lanterna, como o sabre naquele filme. 24. Primeiro presente de mãe. Pois é a mãe quem nos dá a luz. 25. Presença do Sol, aquele clarão é um sol nos visitando.26. Música do vácuo, ora o som não anda no vácuo, a quem só resta a luz para cantar em suas orelhas. 27. Habitante dos olhos, um dia você verá como a luz mora nos olhos, só não enxerga quem lhe falta a luz nos olhos. 28. Palavra de Deus, pois Ele disse “haja luz” e ela ouviu e houve. Antes do sol, ela nasceu, pois ela não é filha do sol, ela é a voz de Deus.
“Eu me orgulho de ser regido por dogmas antiquados e escravizado por credos mortos, porque sei muito bem que apenas o dogma sensato perdura por tempo suficiente para ser considerado antiquado”. G. K. Chesterton
Quando nasceu, o médico deu a palmada em seu bumbum e recebeu um cruzado de direita e um chute no olho. Dois enfermeiros apartaram a briga, expulsaram o médico da sala e o jogaram nos braços da mãe em quem ele mamou nos dois peitos depois deu um demorado beijo na boca. Na escola, exigia direito de resposta da professora e depois da mestra falar, dava aulas aos colegas sobre sua experiência de vida e aventuras no quintal do apartamento onde moravam com oito irmãos, pais e avós. Graduou-se em grades, seu mestrado foi sobre teses de doutorado, doutorando-se em bacharelado. Quando era rapaz namorou uma moça e quando já era homem casou-se com uma mulher. Não criou filho porque o mercado não era favorável, mas cultivou livros e escreveu muitas árvores. Viveu como nasceu, morreu como viveu. Prometeu reviver no terceiro dia e só não ressuscitou porque foi cremado. Suas histórias tornaram-se lendas contadas por mudos aos cegos que encontravam, para desespero dos surdos que não entendem trocadilhos e chistes, pois a língua de sinais é bastante limitada, como, aliás, toda língua.
1. “Não Trema!” é um bom titulo para um artigo sobre a revisão ortográfica. 2. O calendário é um retrato falado do tempo. 3. Queixo-me às mudas, mas que bobagem, as mudas não falam. 4. Tenho algumas qualidades detestáveis e nenhum defeito que preste. 5. Na sociedade de robôs, o homem é simples produtor de lixo. 6. O corpo é um instrumento, a alma é o instrumentista. 7. Dinheiro não traz felicidade, mas lhe permite ser infeliz confortavelmente. 8. Eu entendo perfeitamente quem pensa diferentemente de mim. Eu também já pensei assim. 9. Falta de estilo é uma coisa perfeitamente imitável. 10. Liberdade é cuspir no prato que comeu.
O universo do que não vejo e não sei é muito maior do que o meu universo visível e apreensível. Gosto de falar do que vejo e sei, mas gosto demais também daquelas coisas que existem, mas que não me foram apresentadas. Amo aquilo que ainda não aprendi. E gasto demais meu tempo pensando nas coisas que não sei e concluindo coisas a respeito delas. Minha mente chega a essas coisas com a mesma facilidade e intimidade com que chega às coisas que me cercam e às certezas que tenho. As coisas que tenho são poucas, o tempo que tenho é diminuto, a vida é curta demais, por isso contemplo mundos sem espaço e tempos sem fim. Quero que tudo o que não sei se misture às coisas que sei. Quero que o universo em que habito viva dentro dos universos onde não estou, pois passeio por eles o tempo todo enquanto reflito a respeito do que jamais saberei.
Casal se encontra pela primeira vez e o romance invade o ambiente. No apartamento do rapaz (decorado com muito bom gosto), ele abre um champanhe, sentam-se próximos cada um em sofás colocados estrategicamente para deixá-los muito próximos e conversar literalmente face a face. Sentam-se e, olhos nos olhos, ele pede licença para colocar uma música. Vai até uma estante, pega um CD, coloca-o no aparelho e volta ao sofá. Quando se senta, a música começa tocar. É Amado Batista, aquela canção que diz “no hospital, na sala de cirurgia…”. A moça abre um sorriso e pergunta com voz emocionada: “puxa, você gosta do Amado? Eu adoro!”. O rapaz diz que gosta mais da primeira fase até quando Amado Batista fez seu filme “Sol Vermelho”, pois a partir dali, ele cedeu e tentou fazer uma música com uma harmonia mais sofisticada e que os primeiro discos são mais bem acabados com canções onde se ressaltam as pausas longas entrecortadas com colcheias quase sincopadas, demonstrando clara influência de Amado do romantismo alemão, sobretudo a fase final de Brahms. A moça cora de felicidade e diz que também sempre viu muito de Brahms em Amado Batista e achava que estava louca, pois nem tinha coragem de confessar isso aos amigos. O moço diz que desde que Amado abandonou um pouco sua veia do começo de carreira, ele passou a ouvir mais Wando e Fábio Júnior. Wando, que no começo da carreira fez uns sambas bem recebidos pela crítica, resolveu fazer música mais viva e sustentou isso por quase uma década fazendo discos antológicos. A moça diz que, sem dúvida, o Wando da segunda fase, a fase das calcinhas e canções de motel é o melhor que a música brasileira já produziu. O rapaz pergunta se ela quer tomar um vinho e a moça diz que quer. O rapaz vai à geladeira e traz um litro de Mioranza com dois copos desses de goiabada. A moça entra em êxtase. Pega a garrafa e, com voz chorosa, diz: “Mioranza, 2006, meu Deus, estou no paraíso, esta safra do Mioranza foi maravilhosa, claro que nada supera o sangue de boi 2002…”. Ele confessa que guarda uma garrafa Chapinha 1988 para uma ocasião super especial, por exemplo, quando se casar. Ela diz: “eu aceito”. Os dois riem muito. No fundo, Amado canta.
(tem quem diga) Eu não nasci para ser gente (há estátuas gregas mais gente do que eu) Faço parte do grupo dos que almejam o nada: Temos uma vontade irresistível de calar o riso Achamos divertido isso Façamos o leitor chorar Que isso é muito divertido
Todo mundo é nada À parte isso, tem todos os sonhos do mundo Pois todo mundo é Pessoa
(já eu) sou filho da modernidade Essa filha insana da eternidade Que quer, mas ignora o que é, de fato, a liberdade Que se avista no espelho e se vê nitidamente cega Por isto estes versos sem regra (com medo de ir ao fim da linha) Esta prosa mascarada, serva real da poesia Prosa que não cai em si e insiste em ser poema
Apesar de ter todos os sonhos do mundo Todo mundo é nada Pois todo mundo é Pessoa À parte isso
Sou livre contra estes tempos Sou preso a ele, mas não deliberadamente Vivo entre aspas e “espero faltar ao encontro com a morte” Vivo como todos: evitando a morte e me recusando a viver A paz me entristece. A guerra me deprime Saber é sofrer, mas ignorar não é nenhuma alegria Ser poeta é só mais uma forma confusa de rotina
À parte isso Todo mundo é nada Pois todo mundo é pessoa
Não saber é hoje a grande moda Dando à ignorância – nada douta – um lugar que ela jamais mereceu A ignorância – nada douta – é a nova rainha dos letrados “Pensar é errar” é o que pensam os pensadores de hoje Deus é visível, basta não ser cego dos “olhos de ver Deus” Quem é cego deveria acreditar naqueles que enxergam Quem enxerga deveria amar aqueles que são cegos e guiá-los
Todo mundo é pessoa Apesar dos sonhos do mundo Todo mundo é nada À parte isso
Já fui feliz e achei chato, já fui triste e é pior Hoje, nenhum dos dois estados me atrai suficientemente Não os procuro nem fujo deles nem lamento nem me alegro Os prazeres e as dores são pálidos detalhes dos dias O tempo – de sóis e luas – está sempre lá fora Aqui dentro não há tempo, espaço nem destino Aqui é só um rio que passa e invade tudo
E apesar dos sonhos do mundo Todo mundo é nada À parte isso Todo mundo é Pessoa
Quando leu que a ignorância é causa de todos os males, o parvo Geronilson Marques se sentiu incomodado. Tolo convicto, resolveu se engajar em uma campanha em que reuniria todos os cabeçudos, ignorantes, boçais, bocós, tontos, simplórios, ingênuos e babacas em geral e criou o slogan: “em alguma coisa, burro todo mundo é, relaxe“. O fenômeno se espalha pelo mundo e tem por objetivo pedir respeito a quem não tem inteligência, afinal, os apalermados também são gente. Fez uma ONG e conseguiu arrecadar dinheiro suficiente com o argumento de que seu trabalho era aumentar a autoestima dos bestas. Os patrocinadores acharam a iniciativa muito inteligente, mas não o disseram, para não ofender Geronilson. “Muitos têm vergonha de se dizer imbecil por causa do preconceito e rejeição”. A Organização já conta com mais de 5 mil participantes, embora pelo menos 2 mil se declarem, modestamente, apenas “desinformados”. O próximo passo é solicitar ao IBGE que quantifique as cavalgaduras do país. O principal objetivo da BOBO (é o nome da ONG) é combater o preconceito, pois estudos mostram que a sociedade não tem muita simpatia pelos idiotas. Segundo pesquisas respeitáveis, eles estão abaixo dos fumantes e quase empatados com os doentes mentais. A BOBO em seu estatuto diz acreditar que só há bestalhões por causa da pressão para a inteligência e que todos têm o direito de achar que “2 + 2 = 5″. Há relatos comoventes de perseguições em face da jumentice das pessoas. Seguindo a tendência internacional, a BOBO tem promovido cursos para seus participantes com o objetivo de educar as pessoas na ciência da asneira. Alegam que a inteligência e a sabedoria é que levaram a humanidade a este estágio deprimente e que a estultice é o caminho. Na esteira dos best-sellers mundiais “Saber, pra quê?” e “Seu Besta” esperam também que todos os otários e obtusos saiam do armário. O movimento conta com o apoio de várias celebridades, atores, médicos, arquitetos e intelectuais de prestígio para quem, a inteligência é algo absolutamente irrelevante e desnecessário. Há até teses acadêmicas defendendo a beleza das idéias de jerico. Por uma sociedade aberta, livre e respeitadora dos direitos individuais, os trouxas se revelam, se organizam, exigem respeito e se tornam arautos de um novo tipo de inteligência. Marques clama pelo entendimento entre inteligentes e toupeiras: “abra sua mente, considere a possibilidade de deixar de ser sabido, pense nisso”, diz o líder dos panacas. Néscios do mundo, uni-vos. Nada tendes a perder, suas bestas!
No mundo dos canibais há um grupo que só come mulheres (inclusive o livro “Receita de Mulher” é um dos grandes sucessos da literatura gastronômica), mesmo sabendo do fato provado pela ciência médica que mulher faz mal para o coração. “Mas, o trem é bão demais”, declarou um glutão ginecofágico.
 Elomar não faz shows, faz concertos. Jamais se chamaria “songbook” a obra com a partitura de suas canções. O silêncio da grande mídia sobre o lançamento do cancioneiro de Elomar é mais um escândalo que acontece neste país. Desde quase vinte anos, sempre que vou a um concerto de Elomar e consigo falar com ele, pergunto sobre um livro com as cifras de suas canções. E ele me respondia sempre: “tenha paciência”. Na falta de opção, tive paciência e a espera foi recompensada com uma obra mais completa do que eu esperava. O magnífico trabalho feito pelos músicos Letícia Bertelli, Maurício Ribeiro, Hudson Lacerda, Kristoff Silva e Avelar Júnior é, com certeza, excelente argumento a favor deles no juízo final. Eu queria cifras, apenas o nomezinho do acorde em cima da poesia. Nada disso, me deram a partitura precisa da voz e do violão do menestrel do sertão. Trata-se de um documento que se não fosse agora, seria feito em 200 anos ou 300 ou 500, pois daqui a mil anos o mundo falará de Elomar. Xangai, um de seus melhores intérpretes, diz que Elomar é melhor que Shakespeare e melhor que Mozart, pois nunca se viu uma melodia do bardo inglês e nem um poema do gênio vienense. Claro que se trata de um chiste do cantor baiano, mas não chega a ser um exagero, acreditem. Espero ansioso (e com paciência) o livro com as partituras das obras de Elomar para violão solo. Que Deus ilumine e dê ânimo a alguém para enfrentar a empreitada de modo que o produto seja tão bom quanto este “Elomar: cancioneiro” (2008, Duo Editorial Ltda). ps – é injusto deixar de falar do projeto gráfico, dos livros que acompanham os cadernos de partitura, até da caixa que não tive coragem de jogar fora de tão bonita que é.
SIX Tenho lido que “aluno” significa “sem luz”, como se a palavra viesse do grego e não do latim. Seria o mesmo que “analógico” significasse “sem lógica”. Definitivamente para essa gente latim é grego. SETTE Como no infinito as paralelas se encontram, na eternidade os opostos se fundem. Por isso, só a transcendência une. O sem-Deus, porém, para acabar com as tensões destroe um dos pólos. CINQUE O hipocondríaco não tem personalidade, tem sintomas. Seu psicólogo é o clínico geral, pois em sua alma estão todas as doenças do corpo. DEUX Se a solidão é a maldição dos seres superiores, os solitários se enganam, vivendo na ilusão de que são especiais de algum modo. Se bem que, de fato, pode ser que a solidão seja causa e não o efeito da tal superioridade. OITO Nunca na história deste país câmeras de segurança flagraram tantos assaltos. Isso não tem impedido novos roubos, porém, por via das dúvidas, os ladrões têm ido ao trabalho bem vestidos e penteadinhos. TRE Ferreira Gullar disse uma coisa interessante na Folha: que o Brasil produz corruptos como produz jogadores de futebol. Mas não é só isso (digo eu), o Brasil também é grande produtor de marmeladas, laranjas e pizzas. X Tudo o que Deus fez é perfeito. O que nós fazemos isso sim é imperfeito, mas isso não nos torna a nós imperfeitos. Por exemplo, a cana é perfeita, já o melaço pode desandar. A cana foi feita por Deus, o melaço por nós. NEUF A cama de casal é usada muito mais por solteiros. Deveria se chamar “cama de casal solteiro”. Já os casados costumam dormir nas chamadas camas de solteiros. Eu, que não tenho nada com isso, sou solteiro e durmo no sofá. QUATTRO Eu não acredito no que é bradado como certo por políticos (e jornalistas, vai). Não acredito no que resulta em ricos assaltarem o Estado justificando o aumento do poder deste. Por isso não acredito nessa crise. E se ninguém acreditasse, ela não existiria. Essa crise é um delírio coletivo. UN Governo ajuda bancos porque a bolsa caiu. Logo cassinos vão pedir socorro contra o azar dos jogadores.
Antigamente havia o matriarcado porque não se sabia quem era o pai das crianças. Depois que o homem criou vergonha na cara e resolveu assumir a paternidade e cuidar da mulher e dos filhos, começou o patriarcado. Muitos chamam o patriarcado de machismo. Com a “evolução” dos costumes, estamos voltando aos tempos pré-históricos, pois, em muitos casos, já não se sabe quem é o pai da criança. O matriarcado está voltando. Matriarcado é promiscuidade. Espero que o feminismo não seja apenas isso, uma luta pelo direito à promiscuidade.
DO INEVITÁVEL – Um azar danado / A pessoa nascer / Lá no passado. DO SANGUE - E eis me aqui! / Ensanguentado / De tanto sorrir. DO NADA – Nas mãos levo nada / Sequer miolo de pote / Ou água desidratada. DA REGRA – Quero ser a regra / Não a que segue / Mas a que quebra.
Uma boa resolução de ano novo: “livrar-se da escravidão do conforto”. O conforto é a situação que buscamos para que nos sintamos como gostaríamos, sem nenhum incômodo. Só nós e nossos “lindos sonhos”, que são, na prática, a fonte de todo o tédio. O dinheiro serve para isto: comprar conforto. Ser rico é viver confortavelmente. Infelizmente dinheiro não compra nada além de conforto. Dinheiro não compra a aventura que é viver na insegurança. Optar pela insegurança é algo sábio a ser feito. A vida de um miserável pode ser bem menos tediosa do que a vida de um milionário. Ter controle sobre a própria vida é ter menos vida. Se aventurar só faz algum sentido se essa aventura for o mais longe possível da ilha da fantasia. Aventura de rico é tudo menos aventura. Agora, dá licença que vou ali jogar na mega…
1. Cristo disse que a verdade liberta, mas a verdade também põe muita gente na cadeia. 2. Os fiéis da dúvida acreditam no nada. 3. Arte é como óculos em cego. 4. Deixo você falar, se você me deixar ignorar sua fala. 5. Deus acorda cedo, toma o café e vai trabalhar. O que Ele faz? Ele faz … milagres. 6. Cientista é aquele sujeito que tem fé na uniformidade dos fenômenos. 7. Revolução era o esporte radical dos jovens do século XX. 8. “Sabiomasoquismo” é a defesa do versículo bíblico que afirma que quem aumenta seu conhecimento aumenta sua dor. 9. Esquerdismo e acne são males da adolescência. 10. Gente, vamos acabar com esse negócio de presentear adultos no Natal? Coisa mais sem sentido.
Um crente de verdade, aquele que é pura fé, pode escolher entre a cura terapêutica ou a cura pela fé (queria ver os médicos não baixarem os preços de suas consultas e os laboratórios os preços de seus remédios). O milagre é a verdadeira verdade inconveniente. E segue o “embuste” da religião abastecendo o mundo de esperança e a razão da ciência destruindo vidas. Apesar da grande capacidade que tenho de duvidar, a fé não me pede tanto esforço e eu contemplo suas provas. A descrença me exige mais, e, então, duvido muito mais da descrença, coisa que os céticos são incapazes de fazer, pois eles têm a inquebrantável certeza de sua descrença, logo, pensando bem, têm muito mais fé que eu. Essa gente não sabe mesmo o que é duvidar. Deveriam aprender com os crentes. A ciência tem dogmas, a dúvida é um deles. A religião tem saberes comprovados, a esperança é uma delas.
Tudo existe, pois foi determinado Pelo Deus, o Autor da criação. Tudo existe para ser lapidado Até que chegue a sua perfeição Tudo existe para viver lado a lado Porque tudo de tudo é irmão Tudo existe e tudo é sagrado Porque tudo está nesta imensidão Tudo existe para amar e ser amado. Nada existe para estar na solidão.
Não se pode dizer que a epidemia de dengue é o fim da picada. Ela, na verdade, é a própria picada. O Aedes (perceberam a intimidade?), talqualmente os homens públicos, age apenas de acordo com a sua natureza: mente, rouba e inocula pessoas com vírus letais. Cabe aos seres humanos – até ao exército – impedir que o mosquito nasça. Como se faz? Simples, matando a larva, que é o feto do mosquito. Dizem que feto não é gente. Ora, se for assim, larva não é mosquito, então deixa quieto, afinal, impedir de nascer é diferente de matar. Taí um aborto que sou a favor, o aborto do mosquito da dengue e não só dos mosquitos anencéfalos e concebidos sob estupro.
O NASCIMENTO DO MASOQUISTA – O médico deu a palmada e o bebê, uma gargalhada. A QUIROMANTE - A quiromante chorava sempre que olhava para a própria mão. O GRANDE MISTÉRIO REVELADO - O assassino era o filho da parteira. CARREIRA SOLO - O diretor de bateria abandonou o carnaval e entrou para a música erudita. Estudou composição, orquestração e regência. Sua primeira obra foi um concerto para surdo e orquestra, inspirado em Beethoven e Mestre André. COMIDA – O canibal morreu por desnutrição. Não queria comer ninguém. A mãe reclamava: “come, meu filho, veja, é sua priminha, está uma delícia. Seu irmão limpou o prato”. SAUDADE – O menino foi à garagem e, gritando, batia no carro com o cinto: “você levou meu pai embora, você levou meu pai embora, vou te bater, você é mau…”.
1. O fim do ano está começando. 2. Quem faz tudo ao mesmo tempo fala tudo pela metade. 3. Cartola é um dos frutos da mangueira. Jamelão também. 4. A serpente pessimista pensa que é só rabo. A serpente é uma girafa sem as quatro patas. 5. Família que come unida tem intoxicação alimentar unida. 6. Com a tomada de poder pelos idiotas, acho bom eu deixar de ser conservador. 7. Eu não gosto de palhaço. Deve ser baixa auto-estima. 8. O que o fotógrafo vê não é o mesmo que a lente vê. 9. Um serial killer é gente como a gente, afinal quem não tem algum hobby? 10. Igor Barbosa lançou “Um Fevereiro”. Clique aqui para fazer o download de poesia pura.
Sou o significado que busca a metáfora. Sou o sentido atrás da comparação A alegoria por trás da definição Sou a solidão do monumento Ao qual falta um emblema Sou brasão sem divisa Acepção sem dístico Eu sou este poema Aviso sem lema Impura legenda Sem símbolo. Só isso, Ato!
O entusiasmo do povo com o Obama reafirma minha fé na capacidade humana em acreditar nas ilusões deste mundo, personificadas no ser mais improvável e bizarro: o político. O político é um problema que a inocência do povo teima em ver como solução. “Democracia” deveria ser, como o nome diz, “governo do povo”. Mas o povo quer a democracia para tirar o corpo fora e deixar a coisa com um político, que é justamente o entrave da democracia. Apesar da bizarrice, dá para entender um povo inebriado, soltando foguetes e comemorando a vitória de um time de futebol, de pilotos de fórmula 1, mas a vitória de um político?! Caraca! Dá vontade de gritar: “gente, é um político, vocês deveriam vaiar…”. Aliás, eleição é justamente para escolhermos quem vaiaremos (o Millôr diz que jornalismo que não for de oposição é armazém. O que dizer de um povo que não é de oposição, que baba no ovo do burocrata de plantão? Um povo de oposição, isto é que seria saudável). E a crise? A crise que vejo é sempre essa: a eterna ilusão de que um político ou um regime político vai nos salvar. Acorda aí, gente, alegre-se com o curingão que é campeão e voltou pra primeira divisão, porém, sinta pelo Obama o mesmo que sentia pelo Bush Jr, vai por mim. Aliás, o Obama é pior, pois até o direito de vaiá-lo querem nos tirar. Fico muito satisfeito quando um ser tosco é eleito para alguma coisa. Vibrei com a eleição de Severino Cavalcanti (fiz até poemas sobre isso), pois todos detestavam o Severino. Quando um certinho é eleito, tremo! Um certinho, o do pior tipo, acredita no messianismo do povo a seu respeito. Lula é uma mistura de Severino Cavalcanti com Barack Obama e gosto muito de sua porção Severino Cavalcanti, quer dizer, sua parte que me deixam vaiar. O diabo é o Obama. Só voto em quem posso vaiar em paz.
Uma das serventias da arte é nos ajudar a sublimar algumas fantasias. Arte é masturbação sem a saciedade. E o desejo não é coisa para se realizar, pois realizá-lo é dar-lhe fim. O desejo, se quisermos que permaneça desejo, é para ser proclamado, expresso, divulgado, revelado. Com a arte, o desejo é dito e não morre. Na arte, damos um pretexto ao desejo, pois o desejo sozinho não tem motivo algum. Porém, quando podemos, realizamos o desejo. Deixada a coisa por nossa conta e podendo escolher, jamais o diríamos, apenas o faríamos. Geralmente realizamos o desejo e só depois pensamos a respeito do que fizemos. E por que um desejo realizado não precisa ser dito, chego à conclusão óbvia de que poesia é coisa de frustrados e todo poema de amor é sobre uma espera, inclusive é feito enquanto se espera. Quem vive não escreve poemas.O poeta é somente um amante frustrado (e o amante é um poeta bem sucedido). Fazer poema para alguém não é um bom sinal sinal.
O que é um blog? Deixa eu dizer (nem venham com o argumento bocó “isso é o que VOCÊ pensa”, pois tudo o que eu digo é o que EU penso mesmo). O verdadeiro blog é aquele feito por gente normal que não tem muito o que fazer. Blog profissional não é blog. O verdadeiro blog é de variedade, pois gente normal não se interessa por uma coisa só. Os blogs de jornalistas são jornalismo, não blogs. A blogosfera é uma cidade do interior sem fins lucrativos. (eu disse isso? “sem fins lucrativos?” Muitos ganham dinheiro com blog, da mesma forma que muitos ganham dinheiro com serviço voluntário. Como dizia Cioran, a coisa começa sempre bonitinha, mas, quando tem gente na jogada, a esculhambação aparece. Dinheiro é esculhambação. Aliás, dicas de como ganhar dinheiro com blogs são recorrente nos blogs de verdade). O verdadeiro blogueiro publica em seu blog com freqüência, o que deixa alguns desses blogs difíceis de acompanhar. No verdadeiro blog há muitos links para fotos, links para jogos, links para blogs, links para artigos em outros sites, aliás, muitos links pra tudo. É comum ver a mesma coisa (um sorteio, um vídeo no you tube, campanhas contra e a favor qualquer coisa) em diversos deles, pois o verdadeiro blogueiro tem vários amigos também blogueiros. As coisas engraçadas que escrevem são piadas que copiaram de outro blog. Opinam às vezes e, na política, são loucos pelo Obama (parece que todos são de esquerda). De religião a maioria nada fala, mas os que falam são ateus ou ostensivamente anti-Igreja Católica, sem, contudo, certamente, jamais terem lido um único livro de teoria religiosa, sem, contudo, certamente, jamais terem lido um único livro de teoria religiosa, o que seria o mesmo que eu ser ostensivamente contra a meteorologia (assunto sobre o qual, sou ignorante). A propósito da capa da revista Época desta semana, “Os 80 blogs que você não pode perder“, quando comecei a folhear, lembrei da antiga revista “Primeira Leitura” que fez a primeira reportagem sobre blogs da grande imprensa e, relacionando 11 blogs que não se poderia perder (naquela época), um deles era o Pró Tensão e outro era o do Alexandre, dois Wunderblogs (é que foram perguntar sobre blogs para o Nelson Ascher…). O Wunderblog era um portal de blogs com pessoas com alguma pretensão literária. Continuamos fazendo a mesma coisa, agora aqui no Apostos, portal que tem como característica a pretensão total e absoluta. Pois bem, voltando à reportagem da Época, enfim, vem ali uma lista de blogs que se pode chamar de blogs e outros tantos que são apenas páginas de jornalistas sem jornal ou de jornalistas com excesso de material que precisam de espaço para aparecer de alguma forma. Eu falei na hora em que abri a revista: “serão só blogs dos 56″. E o que é “Os 56” ? Os 56 são blogs e eu assim os chamo. Só os conheço como 56 e 56 serão. Os 56 são aqueles blogs que têm cara do “blog verdadeiro”. São o que eu chamo de blog, não esta página minha aqui que tem cara de água mineral. São pessoas sem muita pretensão literária, que não são mesmo escritores, mas que usam admiravelmente muitas possibilidades e funcionalidades da internet em seu blog, coisa que eu sempre me ressenti e não faço por pura falta de paciência, competência e porque, afinal, não devo mesmo ser um blogueiro verdadeiro. Mas voltemos aos 56. Se não me engano, a coisa surgiu uma vez que vi alhures uma lista com os 56 melhores blogs brasileiros. Dando uma passada na lista, vi que havia vários bem famosos aos quais eu nunca tinha ido, como o Kibe Loco, por exemplo. Bem, abri uma pasta nos meus favoritos e coloquei ali todos e chamei a pasta de “Os 56″. Depois adicionei mais alguns. São co-irmãos, muito coloridos e alegres, meio cheio de confissões íntimas, opiniões qualquer nota. São blogs engraçados, antenados e ligados entre si. Quando um descobre um vídeo interessante no You Tube, quase todos falam do tal vídeo. O mais interessante é que há, dentre esses 56, alguns blogs que, pasmem, são úteis. Finalmente, é bom que se saiba, estão fazendo blogs úteis como, por exemplo, o super simples e o Lista 10. Os blogs que eu costumava visitar eram muito diferentes daqueles d’Os 56. Os 56 são os verdadeiros blogs, são a Banda Calypso da internet. Se você quiser saber o que acontece no mundo dos blogs, é n’Os 56 que tem que dar uma passada. A propósito, não conheço ninguém de lá e jamais deixei comentário em algum deles, mas os acho admiráveis. Com essa lista da Época, minha lista dos 56 aumentou um pouco. Há vários ali que eu não conhecia e que se encaixam perfeitamente no perfil 56. O Treta e O Bobagento deveriam estar nessa lista da revista, pois são muito divertidos e não devem nada a alguns co-irmãos que estão lá. Estranhei a presença do blog do Nelson, que é um artista, não um blogueiro. Uma lista de melhores blogs não constarem o blog do Alexandre e o blog da Meg? Realmente, não sei nada de blog.
Saio pelos bares em busca da batida perfeita, algo que leve gelo e limão. Leite condensado, talvez. Que seja uma batida leve, que não provoque batidas de carro. Mas não há mais barman intimista que fique ali, zen, em seu quarto ou laboratório, experimentando, provando uma dose, duas doses, três doses… doze doses. Um químico cachaceiro que colocasse em frente de si garrafas de rum, scotch, gin, cognac, brandy, vermouth branco, doce, seco e tinto, cointreau, tequila, grappa, poire, calvados, jerez, perdod e vários xaropes: grenadine, morango, framboesa, kiwi e groselha. E se pusesse a fazer as mil combinações possíveis ou mais de mil. Que recorresse a um matemático para saber exatamente quantas combinações são possíveis e que não parasse enquanto não dosasse todas elas, afinal, a arte da batida está ainda, mal comparando, no samba-canção, ansiando para entrar na Bossa-Nova. E um dia encontrarei a batida perfeita e chamarei o barman para parabenizá-lo: “essa é a batida perfeita, rapaz, parabéns. Como é mesmo seu nome?” “João Gilberto”, responderá o garçom. “Puxa, João Gilberto, essa sua batida ainda vai ficar famosa, rapaz. E digo mais, vai influenciar muita gente, pode escrever”. E ele, com a modéstia dos diluidores: “ah, que nada, foi só um traguinho que eu fiz…”.
1 - Entenderam porque democracia é coisa boa? Depois de quatro anos (ou oito, vá lá), você tira um sujeitinho pilantra e bota um outro neguinho no lugar e a vida segue. Esperemos que um dia Ruanda, Nigéria, Quênia e Somália elejam seu primeiro presidente branco. Ou mulato, vá lá.
2 - Vamos combinar: romântico apaixonado é quem morre por amor. Quem mata por amor é psicopata.
3 - Agora que começa a Era Obama, o Ruy fecha o Pura Goiaba. Sou contra (as duas coisas). Obrigado por tudo, amigo Rogério, e volte logo.
4 - Ultimamente tenho deixado de ler para namorar e, desde então, sinto-me mais sábio. Tenho deixado de ir ao cinema para namorar e tenho muito mais histórias para contar. A namorada fica toda culpada por me fazer tão feliz.
5 - O Unibanco comprou o Itaú (ou vice-versa, sei lá). Não demora muito e o Banco do Brasil compra a Caixa. E logo depois, o Bradesco compra o Banco do Brasil.
6 - Uma colega ganhou dois ingressos para ver o novo filme do Bruno Barreto. A coitada suou para conseguir quem quisesse ir ver a tal produção. Infelizmente, eu tinha umas louças para lavar.
7 - Por que o dia das bruxas pegou por aqui e do dia de Ação de Graças ninguém fala?
8 - Segundo os simplórios analistas políticos, Lewis Hamilton ganhou o campeonato de Fórmula 1 só porque é negro. O fato é que Barack Obama foi campeão porque Massa foi o vice. E vice mulher dá um azar danado. Sarah for president.
- Temos que arrasar nesta greve. - É mesmo, tive uma idéia, vamos colocar música ruim para espantar os pelegos que se atreverem a furar nossa greve. - Isso mesmo, tem que ser aquelas músicas insuportáveis. - Isso mesmo, o que você sugere? - Tava pensando em Alban Berg, Schoenberg ou Stockhausen. Aquilo é horrível, fala sério… - Nããããããããããããão. Tiririca, rapaz! Tiririca é muito melhor que Alban Berg. - Ah, fala sério, que tal então, John Cage? - Não, não, não! Egüinha Pocotó, Boca da Garrafa, Latino! Puxa, dão de dez em Alban Berg. - Conversa, você já ouviu a música de câmara de Schoenberg? - Não. - Então, ouve, você vai achar melhor que Tiririca. - Duvido. Você já ouviu “Índia, teus cabelos” com Tiririca? - Não. - Então, ouve, você vai ver que Tiririca coloca esse Alban Berg e Schoenberg no bolso. - Tá, faz assim, vamos levar para decidir na assembléia, o que é melhor, Alban Berg ou Tiririca. É só colocar na pauta de votações. - Ok, mas infelizmente não vou porque eu sou da igreja batista, não freqüento a assembléia não…
“Estas Palavras Estão Presas, Entre Aspas.”
Antes da invenção da caixa (e dos palitos) de fósforos, no tempo em que o fogo era um bem a ser protegido, quando não existiam isqueiros, pois bem, naquele tempo, quando uma casa se incendiava, uma das preocupações do dono era salvar, dentre as coisas que se queimavam, o próprio fogo. Se tudo se perdesse, era um alívio que se salvasse pelo menos o fogo. Quando se perdia tudo, até o fogo, era uma desolação só, tanto que, dentre os homens daquele tempo, havia esse ditado popular: “perdeu até o fogo no incêndio”. Era isso que se dizia de alguém que não tinha mais nada na vida. Quando os bombeiros chegavam, o trabalho era cuidadoso para que se salvasse o fogo do incêndio. Naquele tempo os incendiários eram respeitados.
1. O Pró Tensão desobedecerá às novas regras ortográficas. E às velhas também. 2. Se a economia americana está em crise, por que o dólar está subindo? 3. O torneiro mecânico perdeu o dedo no torno. Eis a exclusão digital. 4. Governo dará camisinhas a alunos. E Viagra aos professores? 5. Todos sabem que Pedro Álvares Cabral descobriu mesmo foi a Bahia. 6. Quem vive gripado faz tráfico de influenza. 7. Toda regra tem exceção. Mas há exceção. 8. Quem vive dizendo “oxalá eu vá, oxalá eu pague, oxalá eu saiba” são filhos de Oxalá. 9. Idéia para pesquisa: você mente ao responder pesquisas? 10. Qual a Índia com a vaca, o Brasil, em breve, terá o veado como animal sagrado.
Quando querem desqualificar um ladrão, o chamam de “ladrão de galinha” e, quando querem humilhar mesmo, partem para o diminutivo, “ladrãozinho de galinha”. O ladrão de galinha é visto como um pobre coitado que poderia estar roubando coisa melhor (como se uma boa galinha não tivesse seu valor). As galinhas devem se sentir por baixo com esse porém que dão aos ladrões delas e, para piorar, até as galinhas têm pena do ladrão de galinha. Já o ladrão não tem pena das galinhas e as furta correndo altíssimo risco, pois galinha faz barulho, muito barulho. Não deve ser fácil roubar galinhas. Ao contrário, para se roubar galinhas, você tem que ter uma técnica magnífica na arte do roubo (roubo é arte, é?!), uma vez que as galinhas são peças vivas e cacarejantes. O ladrão de galinha, no seu íntimo, se sente um grande mestre do ofício. Roubar bancos é coisa de seres grosseiros, bater carteiras é coisa de covardes, assalto a mão armada é coisa de maluco, só roubar galinhas exige tato e método. O melhor de tudo, na cabeça do ladrão de galinha, é que para a sociedade, o ladrão de galinha é um ser quase honesto, é visto como alguém que rouba em legítima defesa, rouba para comer (embora não exista nenhuma estatística dando conta de algum ladrão de galinha que se confessasse zoófilo). E tem mais, quando a polícia prende o ladrão de galinha, o povo culpa a polícia, que deveria prender gente graúda. Na prisão, os outros bandidos se compadecem dele “pô, sacanäge, o cara só roubou uma galinha, tá ligado?!”. O ladrão de galinha faz aquela cara sonsa de quem concorda que não fez mesmo nada de muito errado e os outros presos o olham como se ele fosse o próprio São Francisco de Assis. É como se ninguém ouvisse a palavra “ladrão”, só se ouve o “de galinha” e imediatamente se compadecem do “coitado do ladrão”, como se ele pudesse estar por aí matando e roubando outras coisas. E depois de preso, o ladrão de galinha ainda recebe uma pena leve (quando recebe alguma pena, quando a única pena não é da galinha) e pode sair para aperfeiçoar seu artifício.
O CASAMENTO DA PROSTITUTA – A mulher pública foi privatizada. ÉBRIO – Eu, ébrio de paixão, passo ileso pelos bafômetros e vou ziguezagueando perigosamente, atropelando pedestres cachaceiros mais sóbrios do que eu, porém, interditados de dirigir automóvel. E perigosamente sigo, torcendo para que não inventem o passiômetro. A MORTE DO RIO – O rio foi enterrado vivo. O CORREDOR – Ele era jóquei e um dia descobriu que podia correr mais rápido que o cavalo. Assim, começou sua carreira de corredor. O SANTO HUMORISTA – O santo humorista sofria com suas sacadas escarnecedoras. Morria de pena das vítimas, mas não resistia. “Ainda vou pro inferno com essa vocação”, pensava ele e seguia fazendo o que a natureza lhe mandava: zombar da dor dos outros.
Comprei tintas e telas. Resolvi esquecer a literatura e me dedicar à pintura nas horas vagas. Havia um barracão no fundo do quintal, que me pareceu adequado. Mas pintar o quê? Fui atrás de umas fotografias antigas em preto-e-branco e achei uma muito interessante. Era a casa de minha infância na roça. Era uma casa modesta, muito parecida com aquelas de desenhos toscos que crianças que não sabem desenhar fazem. Coberta de palha, com duas janelas. Ao lado havia uma cerca de arame sem farpas que minha mãe usava para estender as roupas. Resolvi pintar aquela paisagem e inseri no desenho uma mulher segurando um menino pelo braço quase entrando na casa. E foi o que fiz. Coloquei muitas nuvens no céu e roupas no arame. Levei uns dois dias para o quadro ficar pronto. Meu estilo é meio impressionista, meio Manet meio Renoir. Depois do quadro pronto, cobri-o com um pano, deixei lá para secar e para pensar mais sobre ele, no que poderia ser melhorado. Naquela noite lembrei do arquivo com a história que eu tinha deletado há alguns dias. Poderia ainda estar na lixeira. E estava. Não me contive e o restaurei. Abri e o que vi foi uma terra devastada. Ao jogar para a lixeira, eu acho – pode até nem ter sido – provoquei tudo de terrível àquela gente. Terremotos, chuvas de granizo, enchentes, tufões, ciclones, furacões, pragas nas plantações e doenças de todo tipo. Morreram setenta por cento da população da cidade e já não se importavam mais com a igreja de que cada um fazia parte. As poucas pessoas que restaram se uniram como irmãs contra aqueles que, revoltados, saqueavam, estupravam, roubavam e matavam. Era a desordem. Fiquei surpreso com a situação causada apenas por eu ter clicado na tecla “delete” do computador e resolvi dar o fim àquela tragédia sem proporções e apaguei o arquivo definitivamente, até da lixeira. Pronto, estava acabada aquela história bizarra que me envolvera nas últimas semanas. Resolvi nunca mais escrever ficção. Não sei explicar o que houve. Não acredito que seja um tipo de poder que eu tenha, pois nunca aconteceu coisa semelhante antes. Não acredito que esteja ficando doido. Enfim, não sei o que pensar sobre esses acontecimentos. Porém, as coisas estranhas não tinham acabado ainda. Foi ali que resolvi escrever este relato e o fiz logo após terminar meu primeiro quadro. Isto foi há uma semana. Depois que deixei o quadro lá secando, enquanto pensava o que melhorar nele, comecei a escrever este relato a mão em um caderno, e rasgaria as folhas que sobrassem para não haver perigo desta história também continuar sozinha. Com o caderno debaixo do braço, fui ao barracão, pois me ocorrera fazer um retoque no quadro, iria acrescentar um pé de macaúba, que me lembrei que tinha no nosso quintal. E fui lá rumo àquele quadro de um menino e sua mãe entrando em casa, com muitas nuvens no céu e roupas secando no arame. Pois bem, quando retirei o pano de cima do quadro, o que vi foi uma linda aquarela onde se via a mesma casa, sob o mesmo ângulo, porém começara uma chuva grossa e a mãe do menino já estava no arame retirando as roupas para não molhar.
1 – Viver é esperar. 2 – Selecionar é desperdiçar. 3 – Criatividade é acidente. 4 – Relativismo é desonestidade. 5 – Cozinha é artesanato. 6 – Internet é masturbação. 7 – Espaço também é coisa. 8 – Ler é dirigir um filme. 9 – Arte é para museus. 10 – Milagre é quando a fé e a ciência se avistam.
I Urge que se invente uma fórmula para que nas olimpíadas um vencedor (e não um derrotado) ganhe a medalha de prata. Todo mundo feliz e o ganhador da medalha de prata chorando destoa horrendamente o pódio. Além disso, pódio, por definição, não é lugar de perdedores. OITO Uma pena realmente dura desencoraja o meliante. Mas não adianta cassar direitos políticos (grande merda!). A pena deveria ser determinada após um estudo da vida do apenado. Para uma moçada aí, deveria haver previsão penal proibindo email, Orkut, blog, MSN, briga de galo… SIX Existe gente que quer eliminar quem pense diferente. E há outras, como Sócrates que ansiava por sentar à mesa e conversar amigavelmente com alguém assim. QUATTRO Você teria que ser Deus para poder ter a autoridade de dizer que Deus é uma ilusão ou que Ele não é grande. “Ah, Eu sou uma ilusão, Eu não sou grande, não…” diz o Todo-Poderoso todo cheio de humildade. DEUX Fizeram uma lei autorizando matar anencéfalos, como não sou anencéfalo, não me importei, etc… TRE Ao cientista cabe revelar coisas que Deus já sabe. O mentiroso conta novidades a Deus. O sujeito conta uma mentira e Deus pensa: “isso para Mim é novidade”. CINQUE Os governos cobram altos impostos para injetar no mercado os recursos necessários para a sociedade se desenvolver, coisa que não acontece por causa dos altos impostos extorquidos da sociedade pelos governos. SETTE Um paradoxo moderno: intelectuais são um bando de idiotas. Acreditam mais na teoria que abraçam do que na realidade que os cercam. NEUF No Brasil há excessos de leis para que os burocratas de plantão possam invocá-las caso necessário, quer dizer, quando algum inimigo desobedecer a tal lei. Amigo pode. X Se a razão do terrorismo de 11 de setembro fosse mesmo religiosa, os aviões teriam se chocado contra catedrais e sinagogas.
Meu romance já não era mais meu. Eu já não escrevia mais nada nele, apenas lia. Cismei que qualquer interferência minha seria danosa, pois fora danosa nas vezes em que interferi. Bem, quando voltei ao livro, resumindo tudo, havia começado uma quase guerra. Um dos fiéis do Templo do Grande Autor provocou uma cisma e fundou uma igreja protestante chamada “O Livro da Vida”. Ele não concordava com alguns dogmas de Alexandre Clark. Discordava dos longos períodos em pé e de profundo silêncio dos cultos no Tempo do Grande Autor, que, segundo Clark, seria uma reverência ao Grande Autor (eu, é mole?). O silêncio era para que Ele (eu de novo, hehehe) pudesse escrever o Grande Livro. O fiel protestante se chamava Gildásio e era um ex-cantor sertanejo, amigo desde quando um dia fora ao programa de rádio de Clark divulgar um LP seu. Gildásio entrou para o Templo e logo se tornou presbítero, que é um tipo de subpastor. Surgiram as discussões quando Gildásio teorizou em uma homilia para jovens que o “Grande Autor” era um modo de dizer, era outro nome que se daria ao Todo-Poderoso e eles, na verdade, não eram personagens de um livro coisa nenhuma. Aquilo era uma metáfora para o fato de que Deus fez o mundo e fez as pessoas, deu-lhes vida e o segredo da felicidade era que fizéssemos o mínimo possível, isto é, deveríamos entregar nossa vida a Deus e confiar. Era disso que se tratava toda a doutrina do Templo do Grande Autor, segundo Gildásio. Alexandre Clark chamou-o para uma conversa. Na verdade, era para seri uma espécie de inquisição digna do papo que devem ter tido São Bernardo e Pedro Abelardo na Idade Média, que resultou na excomunhão do Abelardo, mas não foi bem assim. Alexandre, que não era nenhum São Bernardo, era mais um pitbull, disse o seguinte: “você quer me destruir? Você quer acabar com minha igreja? Você está ficando doido? Que conversa é essa de metáfora? Metáfora é o caralho. Meta fora daqui essa porra dessa sua metáfora. Meta sua metáfora no cu”. Gildásio, incrédulo, arregalou os olhos e tentou uma reação e disse que era claro que era uma metáfora, pois quem seria idiota de acreditar realmente que aquilo lá era um livro e eles eram personagens? Alexandre disse que ele acreditava! Mais do que isso, tinha absoluta certeza, pois conhecera o menino que ouvia as vozes e conversara também com o tio do menino e não tinha a menor dúvida, pois, por exemplo, ele mesmo não lembrava da própria infância. E por que não se lembrava? Por que o autor não tinha escrito nada, apenas o tinha descrito como ex-locutor de rádio que teve um caso com uma fã, etc, etc. Gildásio disse que se fizesse um esforço se lembraria da própria infância e que Alexandre estava realmente maluco. Meses depois, Gildásio fundou a própria igreja, a qual deu o nome de “O Livro da Vida” e em pouco tempo estava com tantos fiéis quanto o Templo do Grande Autor. Consideravam-se mais inteligentes que “aquele pessoal do Templo”. Logo a cidade se dividia entre fiéis do Livro e fiéis do Templo. E começaram os aborrecimentos, as brigas entre fiéis, casais se separavam, famílias se destruíam por causa das duas igrejas. Aquilo foi demais para mim. Aquela gente lá… só matando. Fechei o arquivo, fui ao diretório onde ele estava e o deletei.
(continua…)
Tudo começou quando um gerente de banco disse, para humilhar o escriturário, que até seu cachorro faria um ofício melhor que aquele. E para provar, no mesmo fim de semana, o gerente começou a adestrar seu cão na habilidade de redigir ofícios bancários. Com algumas aulas, o partor já fazia ofícios com qualidade realmente superior aos do escriturário, que foi despedido e substituído pelo cachorro. No começo, os colegas estranharam, mas o gerente fez uma campanha sobre a igualdade entre espécies que deveria prevalecer naquele ambiente e todos passaram a tratar o cachorro como um seu igual e todos foram matriculados em cursos que ensinavam língua canina, afinal neste mundo globalizado, quem souber só um idioma está perdido. Em alguns meses, já tinham contratado mais cinco cães, o que demandou também banheiros e restaurantes específicos. Logo, outro empregado do banco, um caixa, foi substituído por uma felina (era uma gata, precisavam ver), que fazia o serviço de contar dinheiro com invejável destreza. O banco começou a tirar proveito institucional desses fatos e fazia propaganda na TV sobre o clima de liberdade e responsabilidade social e animal que reinava na empresa, etc. Todos admiravam aquilo, afinal um animal desempregado é muito triste e os bancos concorrentes resolveram imitar. Então, abriram-se as portas da selva: gambás, macacos, preguiças, onças, girafas e ratos já trabalhavam pela cidade em lojas de calçados, bares, clubes, departamentos de Estado e empresas públicas. Logo, uns zoológicos começaram a encomendar espécies humanas para fazer parte de seu acervo. A procura foi muito grande. Houve concursos para escolher pessoas que viveriam enjauladas. Em uma área do zoológico, construíram casas com quarto e sala, como têm nas cidades e lá dentro viviam o casal de humanos caucasianos, que são os mais raros. Houve muitos protestos, acusaram a direção do zoológico de preconceito contra os mestiços. Então, criaram zoológicos só de humanos com um casal de cada subespécie: anões, pretos, paraibanos, índios, baianos, baixinhos, altões, carecas, árabes, chineses e muitos outros. Nos fins de semana, cães e gatos tiravam a gravata e levavam os filhos ao zoológico para ver os bichos humanos. Obedientes às placas, não davam comida.
1. Amar é ter mais de uma vida. 2. Na delegacia: “me grampearam”, reclama o papel. 3. Paciente não é o doente. Paciente mesmo é o defunto, que fica lá quietinho, pacientemente. 4. Todo infeliz deveria ser infeliz por isto, mas muitos são felizes. 5. Sou responsável pelo que digo, por isso eu só falo do que digo. E nada mais digo. 6. Os visionários brasileiros sofrem de glaucoma, catarata, hipermetropia e cegueira congênita. 7. Não confunda maxixe com xaxado. 8. Achei um defeito em “Batman – O cavaleiro das trevas”: não tem mulher pelada. 9. O tempo está passando tão rapidamente que até o que é ruim tem durado pouco. 10. O espelho foi feito para a gente refletir melhor.
FRANCESES Os franceses fazem uns perfumes que você não sabe se estão cheirando ou fedendo. Fazem alimentos que você come e não sabe se são deliciosos ou se estão estragados. Filmes que você vê e não sabe se são geniais ou uma porcaria. Umas filosofias toscas que uns seguem e acham lindas. Produzem canções que você não sabe se são o fino do brega ou obras-primas. Não admira que tenham inventado a dúvida como método.
INGLESES Eu conversava com uma amiga sobre o grupo de humor inglês Monty Phyton e dizia que a versão dublada d’A Vida de Brian é melhor que com o áudio original, depois falamos do quanto é bom o Rick Gervais e acabamos falando do maravilhoso P. G. Wodehouse e sobre o quanto são excelentes os humoristas ingleses e constatamos o óbvio: a Inglaterra é o Ceará da Europa.
Meu primo João era um sábio meio doido. Alguém muito caro a mim. Costumava dizer “nunca pisei um dia em escola”. Aprendeu sozinho a ler e escrever e álgebra. Ficou órfão muito novo, teve que lutar pela vida e tinha muitas histórias para contar. Mas, ali, era eu quem tinha história para contar. Contei minha história e ele me disse que era muito simples, bastava eu apagar o arquivo e não deixar nem na lixeira. Eu disse que não tinha coragem, que aquelas pessoas também eram gente, eu não podia sair por aí matando pessoas tão vivas. Ele caçoou de minhas preocupações, riu muito e me saiu com essa: “Primo, você é o criador desse povo, tem todo o direito de destruí-lo. Deus não destrói de tempos em tempos um povoado aqui, uma espécie ali? Toda hora se ouve história de tsunami, terremotos, vulcões. Desastres são coisas normais no mundo e, nesses eventos, sempre vão embora milhares de vidas. Deus não deve nem se coçar de preocupação nessas horas. Por que Ele mandou uma bola de fogo para exterminar os dinossauros? Não, não foi só para que tivéssemos petróleo anos mais tarde, não. Aqueles bichos deviam ser muito chatos e imundos e devem ter enchido muito o saco do Todo-Poderoso. Sodoma e Gomorra, aqueles lugares cheios de sodomitas e gomorritas, Ele nem pestanejou em mandar pelos ares. Pompéia, que devia ter muita gente boa, invadiu-lhe um rio de larva de vulcão, mandado pelo mesmo Deus que a fez. Destruir é um direito de todo criador. Isso está na Bíblia. Você fala dessa história como se fosse um problema. Não é, não. Olha, pára de escrever. Inventa outra diversão. Já pensou em pintar? Compra uns pincéis e umas telas e reproduz todos aqueles desenhos interessantes que você fazia quando criança. Já esqueceu?”. Não, eu não esquecera. Pintar era interessante. O problema da conversa com meu primo é que eu sentia que ele dava aquele conselho com uma convicção fingida de quem me julgava um maluco, mas tinha pena de mim ou medo de confessar o que realmente achava. Lembrei da piada do sujeito que diz para o amigo que o irmão acha que é uma galinha, mas que não o levará a um psiquiatra porque em casa precisam dos ovos. É como se o amigo, nessa piada, para não constranger o outro, o convencesse de que a ingestão de ovos demais é ruim para o colesterol e que a solução é deixar essa dieta de ovos de lado e levar o rapaz ao psiquiatra. Eu sabia que João me julgava um doido e toda aquela história de que o criador é também destruidor era só para não encarar minha loucura. Ele queria que eu deletasse um arquivo que ele não acreditava que existisse ou, se existisse, não seria tudo aquilo que eu dissera. Ele poderia ter sugerido outra coisa, por exemplo, que eu imprimisse logo e mandasse publicar, que queria ver a história continuar em um livro encadernado. Bem, eu estava confuso, não poderia mandar imprimir e mandar publicar porque a história não estava terminada, ninguém ia querer publicar aquilo. Não obstante, a idéia de apagar o arquivo começou a me parecer simpática.
DOIS Na grandiosa abertura dos jogos de Pequim, o ponto alto foi quando o Galvão Bueno comparou o Tai Chi Chuan à capoeira. E eu que nunca peguei num berimbau… UNO Você mostra uma verdade que só você vê, mas é inofensiva e todos concordam, você é humorista; Você mostra uma verdade que de tão aterrorizante alguns não querem enxergar ou fingem que não vêem, você não é humorista, é editor da New Yorker. 4 Só pode haver admiração, caridade e até certo tipo de amor, onde houver desigualdade. Só há bondade e gratidão entre desiguais. V Já fui ateu, mas minha fé foi diminuindo, diminuindo, diminuindo e hoje estou desviado das veredas do ateísmo. Assumi que não tenho fé suficiente para ser ateu. NOVE Há uma doença em que a pessoa fica com compulsão em dar nomes a tudo. Alguém aí, por favor, sabe o nome dessa doença? SIX Plebiscito é cacete! O povo não, por favor. Não deixem o povo fazer nada. Quem elege esses congressistas deve fazer o mínimo possível. SEPT Além de piada de papagaio, existe também piada de gente. Ela se chama vida. DÉIS Lei é para todos. A lei da gravidade, por exemplo, atinge todos os corpos. Mas o homem inventa meios de burlar as leis. Santos Dummont foi condenado à morte por ter violado a lei da gravidade. Não invente nada, todo bom invento mata o inventor. Se não matar, não é bom. OITCHO Eu não sou ateu por que a vida é um avião em queda e ninguém é ateu em um avião em queda. TROIS ALDIR BLANC – “Comparo a perda dele [Dorival Caymmi] a uma catástrofe ecológica. Ficamos sem mar, sem vento, sem rio, sem floresta. Ficamos num deserto”. É o que penso também.
Segundo aqueles que negam a criação, a origem das espécies se deu assim: o nada estava lá quieto e, foi passando o tempo, foi passando o tempo, foi passando o tempo, e logo ele virou alguma coisa e essa coisa virou outra que virou outra até chegar à Gisele Bündchen. Será que era o nada mesmo? Para uma coisa virar outra, qualquer coisa que seja, ela já tem que ser a outra, pois a semente é apenas uma árvore zipada e um casulo é tão somente o executável de uma borboleta, algo como um arquivo butterfly.exe.
Vote em calvos, pois eles brilharão! Da cabeça ao bico dos sapatos Vote em putas, porque humilharão Esses filhos-da-puta com seus atos Vote em sábios porque eles farão Coisas como renunciar mandatos Vote em gatos, pois acompanharão Tantos veados, sapos, patos, ratos. Vote em branco, pois logo inventarão As tais cotas raciais para candidatos.
Eu me sentia só. Muito só. Precisava de alguém para conversar. Até aquele momento, quando abri o arquivo e vi a situação absurda em que estava a coisa toda, não tinha me ocorrido procurar alguém para contar sobre a minha relação com aquela romance fora de controle. A história tinha praticamente dobrado de tamanho. Eu já não tinha mais como escrevê-la, pois levava todo meu tempo lendo a dita. No computador estava lá a hora em que fora alterado aquele arquivo e vi que, de fato, ninguém tocara nele depois que saí. Mas a história andou – e como andou! Vou resumir o andar daquela carroça. Um sujeito da cidade, chamado Alexandre Clark (depois descobri que o nome dele era Aurino, Alexandre Clark era nome “artístico” de pastor “evangélico”) abriu uma igreja: “O templo do Grande Autor”. Para quem? Quem era o Grande Autor? Ora, “quem?”, este aqui que vos escreve. Eu ficara muitos dias sem tocar na história e o foco do enredo se deslocou totalmente para o fenômeno religioso que ocorria na cidade. O “reverendo” Alexandre Clark (que eu apelidei de “Clark Crente”) conheceu o menino Rafael na clínica psiquiátrica e acreditou em sua história. Antes de ser pastor, Clark era um locutor de rádio razoavelmente famoso na cidade, com seu programa de música sertaneja. Depois de ter um caso extraconjugal com uma ouvinte, que também era casada, Alexandre Clark foi vítima de um atentando. Em seguida, matou o marido da mulher e, para se safar, passou a se comportar como doido, truque que funcionou, e foi declarado incapaz pela justiça. Ficou por um tempo em um manicômio judiciário, onde teve problemas psiquiátricos reais, e, ao sair, passou a freqüentar a clínica para onde levaram o menino Rafael para tratamento. Coincidentemente, ele e Rafael, no mesmo dia, foram à clínica e, depois que ouviu a história dos pais da criança, Clark foi para casa e criou todo o arcabouço doutrinário de seu novo projeto. Os argumentos do credo do “Templo…” eram simples. Ora, se Cristo é o verbo de Deus, significa mesmo que Deus é um escritor e nós (eles lá) somos meros personagens que devemos entregar nossa vida e deixar que “Ele” escreva nossa história. E mais: se “no princípio era o verbo”, antes do princípio haveria um autor para verbalizar. Já havia até teses acadêmicas sobre a doutrina do “Templo do Grande Autor”. Li algumas orações dirigidas a mim. Várias. Não sabia se ria ou chorava. Era gente pedindo para vender uma chácara por um bom preço (assinalavam isso), pedindo casamento, emprego, para ganhar na mega sena, aumentar o pênis, diminuir a barriga. Tudo coisa que eu, como autor do livro, realmente poderia fazer por eles. Bastava entrar lá e com um parágrafo enriquecer ou desgraçar a vida de quem eu quisesse. Era muito para a minha cabeça. Eu realmente precisava falar com alguém. (continua…)
A noite é um caminhão que nos leva ao próximo dia. Chegamos ao outro dia com dores no corpo e a cara amassada depois da viagem. É duro viajar no tempo. O tempo é uma estrada esburacada. A pessoa chega ao dia seguinte se sentindo mais velha de tantos solavancos no caminhão da noite que vaga pela estrada do tempo até a cidade do dia seguinte. E você não vai sozinho nesse caminhão. Há seres estranhos lhe fazendo companhia. Centenas deles, milhares deles, pois a noite é um caminhão muito grande. O insone é aquele que perdeu o caminhão. Tateia os bolsos atrás do bilhete do trem que não chega. O que ele não sabe é que ele já está lá dentro do caminhão. Durma ou não, o caminhão da noite vai sacolejá-lo até o outro dia e, se ele não dormiu, pior para ele, que vai chegar à cidade do dia com o corpo ainda mais dolorido e a cara amassada. Dormir é apenas se desarmar, é embebedar-se de si mesmo. É fechar-se ao mundo exterior e abrir-se para o outro mundo. Enquanto o caminhão da noite nos leva.
1. Quando eu tiver 95 anos, blog será coisa de gente velha. 2. 11 de setembro é um dia muito atentado. 3. Há dias de paz e dia das mães. 4. Perdi a parada gay porque estava com uma garota numa parada bem hétero. 5. Se eu fosse a Amy Winehouse, virava evangélica. 6. Tem coisa pior que mudança de planos. É mudança de pianos. 7. Depois da Céu, surge a cantora Lua. A Sol deve despontar em breve. 8. Beber é melhor que dirigir. A lei seca será um desastre para a indústria automobilística. 9. Quando se deixa a barba crescer, está na cara que algo mudou. 10.Minha fé mantém as montanhas intactas.
Já cavei muito poço. É um trabalho pesado, mas divertido. Gosto de ver como tudo se dá. É como fazer uma casa. É um prazer ver que onde não tinha nada passa a ter uma coisa importante para a vida das pessoas. Pois é, uns parentes meus se mudaram recentemente para uma chácara e eu me ofereci para ajudar no que precisassem. E precisavam. Cavar uma cisterna é simples. Com uma picareta se faz um círculo e se cava o buraco. No começo duas pessoas fazem a coisa, uma com a picareta para cavar e a outra com a pá para retirar a terra. A partir dos 30 centímetros de fundura do buraco, se acertam as paredes para ficarem retinhas. E continua a cavação, retirando-se a terra com balde em uma roldana. No fim do dia se chega ao lençol de água. Cava-se mais um pouco e dentro do buraco só cabe uma pessoa, que fica lá, torcendo para a corda não arrebentar, pois um balde daqueles, cheio de terra, na cabeça do cristão pode fazê-lo se encontrar com o Cristo antes da hora. Uma vez o balde caiu quando eu estava no poço, por sorte caiu ao meu lado. Bom, depois disso, se colocam os tijolos como fosse uma casa, até acima da borda. Reboca-se, pronto. Tá pronta a cisterna. Mas não foi assim daquela vez. Daquela vez, quando chegamos a uns nove metros de profundidade, chegamos a uma rocha maciça que não tinha picareta que conseguisse furar. A saída foi sair, devolver a terra ao buraco e tentar em outro lugar. No fim do dia, cheguei em casa moído do esforço que fiz e nem toquei no computador para continuar a história. No outro dia, tentamos em outro lugar e, dessa vez, chegamos à água depois de cavar dez metros, mas a água era salobra, imprópria para o consumo. Tem isso também, às vezes, a água não presta. Jogamos a terra no buraco novamente e tentamos em outro lugar no outro dia, quando, enfim, deu certo. Nunca vi um poço dar tanto trabalho. Antes de voltar à história, uns quatro dias depois, pensava no que teria acontecido e como o tempo teria passado lá. E mais: o que aconteceria se eu abandonasse aquela história e voltasse a lê-la daqui a vinte anos? E mais: e se eu deletasse e me livrasse daquela maluquice? O que aconteceria com aquela gente que tinha vontade própria? Mas, se eles tinham vontade própria, existiam de fato e seria genocídio deletar aquele arquivo. Mais do que genocídio. Eu estaria destruindo um universo. Que enrascada. E, se eu não mexesse nunca mais, a história continuaria sozinha sem ter fim? Os personagens morreriam quando eu morresse? Baseados em que esperança eles viviam? Será que têm um deus? Ou vivem na tenebrosa esperança dos ateus? E se fosse EU o deus deles? Quem sou eu para desobscurecer o futuro de alguém? O que eu poderia fazer para salvá-los? Como eu poderia levar uma boa nova a eles? Eu estava curioso a respeito deles. Mas, que droga, fui eu quem os inventou! Para as coisas acontecerem como eu havia planejado, eu teria que dedicar todo o meu tempo para eles. Ora, eu não poderia ficar por conta deles para sempre, eu tinha minha vida. Nem poderia, como Cristo, me tornar um deles. De pensar nisso, me senti no fundo de um poço. (Continua…)
PS – O Pró Tensão lamenta a morte prematura de Dercy Gonçalves.
A ciência é um ramo da árvore. O sobrenatural é de onde veio a força da semente. Ciência e sobrenatural não são incompatíveis e se tocam mais do que muitos imaginam. A própria natureza está cheia de incompatibilidades aos olhos da ciência. Se tudo fosse simétrico na natureza como parece à primeira vista, teríamos dois corações como temos dois braços, duas pernas, dois pulmões (Chesterton nos lembra disso em seu livro Ortodoxia). A ciência nos mostra uma verificação feita à primeira vista. Em seguida nos mostra uma verificação à segunda, à terceira, à quarta, à quinta vista, e todas elas podem se contradizer e se desmentir mutuamente, pois a neve de longe é branca e de pertinho é meio cinza. A ciência é um método de medir. As leis da natureza têm um legislador. Esse legislador pode burlá-las, pois tais leis não se aplicam a Ele. É da ciência buscar a origem das coisas e ela sabe que a origem da coisa não está na coisa, assim como a energia que move a coisa não é produzida por ela. De onde veio a energia que faz o universo girar? De dentro dele? Não seria científico acreditar nisso. O problema é que o cientista ateu busca a causa das coisas até onde lhe convém. A Causa (maiúscula) ele descarta de cara e, nessa hora, se mostra não científico. A ciência é muito útil para desmascarar falsos milagres. Deveria ser útil também para reconhecer os verdadeiros. Nenhum cristão sério apoiaria o reconhecimento como milagre de algo falso. Ora, seguindo o raciocínio da causa, só podemos dizer que a causa da existência do universo é sobrenatural, pois antes de existir o universo, não se poderia falar em natureza. Se algo está além da razão, esse algo a engloba. Se o sobrenatural existe, ele vê e controla o natural, pois está acima dele. Pode inclusive fazer-se de invisível ao natural. Nada pode o natural afirmar a respeito do sobrenatural sem autorização deste. Só o agnosticismo seria respeitável em tal caso, pois o ateu se coloca na mesma posição anticientífica que ele tanto critica no crente. O crente, porém, não pretende mesmo ser científico. Se a ciência ainda não explica um evento, nós não o podemos atribuí-lo ao sobrenatural? Nesse ponto a ciência toma para si a divindade a se colocar como instância última que tudo sabe ou tudo saberá. É justamente o contrário, tudo deve ser atribuído a seres divinos, até que a ciência prove que não é. A ciência é um instrumento, não O saber. Além disso, existindo o mundo sobrenatural, ele pode muito bem entrar no mundo natural e usá-lo como instrumento. E a chuva, por exemplo, mesmo sendo explicada pela ciência, será uma chuva causada pela vontade de Deus (ou acontecerá algo que Ele não queira?). Vivemos em uma era científica, os cientistas acham isso, mas quão científica essa era é? Usando um raciocínio realmente científico, só podemos responder que não sabemos e que amanhã a ciência pode negar tudo o que afirma hoje. Outra coisa é a falsa dicotomia entre religião e ciência. A religião não é anticientífica e a ciência não deve ser anti-religiosa, pois, assim como a ciência desmascara falsos milagres, a religião também desmascara falsas ciências. A ciência é falsa justamente quando quer se travestir de religião. As verdades religiosas são eternas. As científicas são passageiras. Sempre que uma verdade científica se pretender eterna, deverá ser rechaçada, primeiramente pelos cientistas honestos e pela própria religião. Algumas teorias de Darwin, por exemplo, estão nessa classe de verdades científicas que se pretendem eternas e que a própria ciência já tratou de demonstrar a falta de um método científico ali e colocar tais teorias na caixa das meras hipóteses, apenas uma possibilidade no reino imensurável das possibilidades. Com a verdade religiosa se dá o contrário, pois seria muito estranho se o Papa aparecesse com a notícia de que o sexto mandamento foi revogado (apesar de que muitos gostariam que isso acontecesse). E quando as duas verdades se estranharam, há casos em que a Igreja recuou e há casos em que não recuou e só o tempo disse quem estava certo, mas nada tira a validade das verdades religiosas, pois ninguém discorda que não devamos matar o próximo e que devamos honrar nossos pais. Não foi um extremista religioso quem inventou a bomba atômica e, além disso, os maiores assassinos na humanidade eram ateus. Não posso afirmar que Mao Tse-Tung e Stalin mataram milhões de pessoas por serem ateus, como não posso afirmar que foi o islamismo de Bin Laden que o fez terrorista. O mal existe em qualquer coração. Cristo disse que “só Deus é bom”. A diferença é que um verdadeiro crente sabe que seus atos serão cobrados por Deus. As razões para atos moralmente aprovados de um ateu podem ser bem parcas, têm o limite de seus medos (ou de seu estômago). Talvez por isso, um ateu com muito poder seja mais perigoso do que um verdadeiro cristão com muito poder terreno (há vários exemplos de santos que foram reis e rainhas, mas não me lembro de ateus poderosos e bondosos, o que não significa que não existam). A maldade feita por quem se diz religioso é um desvio em sua religiosidade (o “extremismo religioso” é o que há de menos religioso, extremismo religioso era o de Cristo). Quem mata em nome de Deus desobedece a Deus. Mate a fé dessa pessoa e ela matará muito mais (imagina a bizarrice deste testemunho de um ex-crente: “eu tinha fé e matava, mas hoje, depois que me tornei ateu, sou um homem bom”). Um ateu não pode abrir sua científica boca para culpar a religião pelas violências do mundo e dizer em seguida que Stalin e Mao não foram genocidas por serem ateus, pois não é científica tal análise. Mesmo cientificamente, a fé não é algo que se deva combater, pois já se provou cientificamente que a fé faz bem para a saúde.
Três cubos entram em um bar que só atende militares. O barman se recusa a servi-los, então um dos cubos sai, pega um pincel e faz uma pinta em um de seus lados, duas no outro lado, três em outro, quatro, cinco e seis pintas no seu sexto lado e volta a entrar no bar. O barman pergunta: “peraí, você é militar?”. O cubo responde: “sou dado”.
*Piada com trocadilho, que fiz a pedido de Juliana Lemos (trocadilho bom é trocadilho ruim, né Jules?)
Na volta ao romance, a situação estava satisfatoriamente desordenada, isto é, se a idéia era tumultuar uma história, estava tudo ótimo. O menino insistia que tinha ouvido vozes, que toda sua vida era uma história e que eles eram personagens e deveriam ficar quietos e deixarem que o autor escrevesse em paz. Contou o sonho do tio para ele, o que fez muita diferença, pois Eurico estremeceu ao ouvir os detalhes. O pai de Eurico, avô do garoto, deu o diagnóstico: o garoto estava louco e deveria ser internado. O problema é que o menino realmente insistiu na história, não dormia de noite, não prestava atenção na aula, contava a história para todo mundo. A avó dizia: “que autor mais idiota! Se ele acha que deveríamos ficar quietos e deixar que ele escrevesse em paz, por que foi contar logo para esse menino linguarudo? E por que diabos esse menino fala feito um papagaio se está convicto de que deveria ficar quieto? Tem coisa errada aí. Além disso, como eu vou saber se estou falando e fazendo o que quero ou o que o autor quer? Não tem quem me governe não, meu filho. Está para nascer um filho duma égua que mande em mim. Se ele é autor e me fez ser deste jeito, com essas dores nas pernas, quero que ele se dane…”. A senhora me disse uns impropérios, usando palavras que me fizeram ir ao dicionário. Era uma senhora muito enraivecida e doutora em questões de esculacho, coisa surpreendente para mim. Talvez a idéia dela fosse que eu lhe retirasse as dores das pernas, única reclamação específica que fez. Fiquei de pensar no caso. A criança estava mesmo doente, pois depois que ouviu minha voz e passou a propagar essa história, a família se reuniu e achou melhor levá-lo a um psiquiatra que receitou pesadas drogas. O tio, que acreditava no sobrinho, fingia que não acreditava para não ser visto também como doido. Fez questão de estar presente na consulta e furtava comprimidos da criança, pois sabia que sofria do mesmo mal. Não exatamente do mesmo mal, pois a criança, além de ter passado, ela mesma, pela experiência de ouvir a voz do autor, era uma pessoa introvertida que se vira obrigada a agir de modo extrovertido. Enfim, ocorrera um trauma àquela criança. Ao tio nem tanto, pois ele era um pouco parecido comigo, por ser o protagonista do livro. Não se assustava muito com coisas absurdas, mas aquela revelação abriu mil possibilidades em sua cabeça. Embora passasse naquele momento por uma fase de agnosticismo, ele sempre desconfiara da existência de um “autor de tudo”. Agora, às vezes acreditava firmemente que era um mero personagem de livro e, nessas horas, furtava um dos remédios do garoto. Absorvido na história, sem ter escrito nada, pois uma hora ou outra eu esquecia que era o dono daquilo lá, meu telefone tocou. Era um primo pedindo que eu fosse cavar uma cisterna. Vocês acreditam?!
10 O DETRAN deveria fazer provas para concessão de carteira de habilitação para bêbados. O sujeito enche a cara, faz a prova e obtém a carteira comprovando que dirige bem, mesmo embriagado. Nada de lei nova ou bafômetro, basta a “carteira do motorista ébrio”. SEIS Todo mundo é hétero, pois todo mundo é atraído pelo outro. O único homo da história foi Narciso e o narcisismo é a mó viadäge. 5 Dois lincos aí prosëis – Pensamentos Cativos e Contra Impugnantes. DEUX Um dia desses, eu disse que era conservador e uma garota me olhou atravessado. Ela concluiu que eu sou também moralista e puritano. Nada a ver… VIII Coisas negativas se anulam. O sim ao sim é sim, mas o não ao não é sim. E não ter vergonha é ter vergonha de ter vergonha. CUATRO O adultério é um dos combustíveis das histórias de amor. Sem ele, a literatura ocidental teria poucas obras-primas. A literatura ocidental é uma lavoura farta de cornos. TROIS Idéia para camiseta: na frente em letras pretas: “Marxistas, graças a Deus”, abaixo da foto de Groucho Marx. No verso, os dizeres: “Não me filio a partido que me aceite como militante”. NINE Entre os taquígrafos os clichês são conhecidos por números. “Gelou-me o sangue nas veias”, por exemplo, é o número 112. UNO “Ah, isso é a sua opinião”. Muita gente acha que isso é argumento. Eu acho que não é, mas e se isso for só minha opinião? Tem outro “argumento” igualmente podre: “se você é feliz pensando assim…” E quem disse que eu sou feliz? Humpf… 7 Um triângulo encontrou uma reta e acalentou-a docemente em seu vértice. Era um triângulo amoroso.
Para que Eurico voltasse da ceva, usei um truque (coisa que me arrependi mais tarde), inventei que aquilo lá foi um sonho. Escrevi em seguida que Eurico acordava em casa, impressionado com o sonho muito real que acabou de ter, de que tinha ido para a ceva com o pai e estava feliz tomando uma cerveja, sentado em uma pedra, como se fosse um dos sapos do lugar. Tive prazer em escrever isso, para mostrar quem mandava naquela bagunça, não obstante preservei para o restante da história a existência do pai, da mãe, da fazenda e tudo mais que tinha aparecido sem que eu tivesse criado. A idéia que tive para me comunicar com os personagens foi a seguinte. Eu fiz o sobrinho de Eurico ouvir vozes. Acho melhor transcrever o que escrevi lá. O sobrinho que falava enquanto dormia um dia acordou e ouviu uma voz. “Rafael”, era seu nome. Ele disse “o que é, tio?”. Mas não era o tio que falava. “Rafael”, agora era uma voz de mulher. “O que é, Vó?” Mas não era a vó. “Quem tá me chamando?”. “Sou eu, Rafael”, agora era voz de homem, “eu sou o escritor desta história”. “Escritor?”, quis saber o Rafa. “Sim, você é personagem de uma história que estou escrevendo. Por favor, pede para as pessoas em sua volta não fazerem nada sem minha ordem. Para convencê-los, diga a seu tio Eurico que eu o fiz acreditar que foi um sonho, mas que, de fato, ele foi à ceva com seu avô e os milharais estavam devastados por macacos e que seu avô pagou um menino para matar os macacos”. Nessa altura da história, recebi um telefonema. Era um tio meu, muito doente, que insistia que eu fosse visitá-lo, porque “a gente não vai se ver mais”, dizia meu tio, agourando a própria morte. Fechei o micro e fui visitar o velho. Chegando lá, o encontrei muito melhor do que antes, um mês atrás, quando tivera sinais de derrame. O médico lhe receitou uns remédios e fisioterapia e ele havia melhorado. Mas insistia que “desta vez ia…”. Mandei que ele parasse com aquela bobagem e percebesse que estava melhor que antes. Portanto, que história é essa de “não vamos mais nos ver?”. Essa visita que fiz a meu tio foi só para atrapalhar minha conversa com o garoto Rafael e para criar um caos na vida do coitado do garoto. Vocês não acreditam.
Continua (…)
Todo sim que escuto é amargurado Todo trago que tomo é por inteiro Todo pranto que tenho é engraçado Todo medo que sofro é bem ligeiro Todo cheiro me vem falsificado Todo clone me vem tão verdadeiro Todo ensejo me chega atrasado Todo azo para mim é brasileiro Todo verso que faço é inventado Todo fato que invento é verdadeiro
VÍCIO – Viciou-se em drogas. Roubava para sustentar o vício. Com o dinheiro que sobrava do roubo resolveu se internar em uma clínica, que o livrou do vício das drogas. De volta à vida, adquirira novo vício. Roubava. O NOIVO DA DEFUNTA – No funeral, o noivo da defunta levou flores para a noiva. Os outros levaram flores para a defunta. VIVA SÃO JOÃO – No morro, a polícia invadiu a festa junina e prendeu uns bandidos por formação de quadrilha.
Não deveria ter dormido, pois quando acordei, o pai do Eurico, “seu Pedro”, tinha voltado da roça e colocou na cabeça do filho que ele deveria ir ver a ceva do ribeirão que passava na fazenda e ir lá pegar umas jiripocas. Já tinham fisgado mais de duzentos peixes. E ele deveria pegar as tarrafas e uns anzóis, porque “o trem” lá “tava bão demais da conta”. Eurico, que por pescaria era o mesmo que macaco por banana, foi para o ribeirão no outro dia. Chegando lá, Eurico ficou decepcionado ao ver sua plantação de milho devastada. Ele perguntou ao pai o que tinha acontecido e o pai falou que os macacos tinham comido o milho, mas que ele não se preocupasse, pois já tinha contratado um menino com uma espingarda para matar o tanto de macacos que conseguisse. “E o menino já matou uns vinte macacos, precisa ver”, dizia seu Pedro após uma gargalhada. Eurico ouvia isso sem acreditar, achando tudo uma selvageria, dos macacos e do pai. “Mas não tem outro jeito”, disse o pai, “até colocaram um espantalho que não adiantou ‘merda nenhuma’”, pois “macaco é bicho sabido”. Chegando ao ribeirão, sentiu aquele frio que se sente nos lugares com muita água, o cheiro meio doce das frutas do lugar que se espalha onde tem água farta e o canto do melro que também se espalha ao redor de mato fechado perto de ribeirões como aquele. Muita gente estava lá e realmente os peixes pulavam para fora d’água tentando escapar do cerco, num espetáculo bonito de ver. Eurico nem ligou para aquilo, improvisou uma churrasqueira e abriu um peixes, jogou no fogo, pegou cerveja e sentou-se em uma pedra, como se fosse um dos sapos do lugar. Tudo isso que acabo de contar aconteceu pelas minhas costas. Tomei conhecimento disso e fiquei muito zangado com tudo. Não gosto que me enganem, principalmente meus personagens. O fato é que eu já estava me deixando levar pela história e aprendendo dela mais do que a construindo. Apesar das surpresas que aqueles mal agradecidos me faziam, eu ainda tentaria imprimir minha marca ali. Definitivamente, eu precisava conversar com um deles e já sabia como fazê-lo. Peguei o computador e mandei ver. Já não me lembrava mais do problema dos ratos. Estava fixo no meu próprio problema com a rebeldia dos personagens de minha ficção.
(continua…) As partes deste conto são publicadas quase sempre.
1. O verdadeiro político é o que tem problema de dicção. 2. O halloween é uma brincadeira besta em que crianças vestidas de monstros são recebidas a balas. 3. Os kamikazes usavam capacete pelo mesmo motivo que os cegos usam óculos. 4. O “Quase” e o “nada” são quase a mesma coisa. 5. Hegel é o Caetano da filosofia. 6. Quando os homens viviam 800 anos, era comum o sujeito casar com uma mulher 600 anos mais nova. 7. Canja é um tipo de chá de galinha. 8. Vírus são doenças de computador transmitidas por piratas. 9. Sou pela prisão do verso livre. 10. O povo é igual às crianças (ou gente é igual menino).
O progresso da técnica não é o progresso do homem. A técnica apenas aumenta o conforto do homem. O conforto, não raramente, é corriqueiro instrumento de um dos esportes mais praticados pela humanidade: a auto-sabotagem. Uma dessas auto-sabotagens é o niilismo que se apossa da pessoa em seu conforto moderno. Não é à toa que o niilismo filosófico se agiganta no momento da história em que a técnica é entronizada (e a transcendência, aviltada). E assim, o progresso da técnica tira do homem a profundidade filosófica e espiritual. Poder-se-ia dizer “superficial como um cosmopolita”, “superficial como um metropolitano” etc., pois o homem moderno tem a profundidade de um rótulo. Essa superficialidade tem toda relação com o progresso tecnológico entronizado, isto é, endeusado como se ele pudesse, ou viesse para substituir o amor, por exemplo. Antigamente (nos séculos medievos) os pais eram professores dos filhos. Não havia babá, esse papel era da mãe do bebê. Hoje, a televisão é babá e professora. Imagine a diferença de profundidade entre a relação da criança com seus pais e com seu videogame. O progresso tem sido muito eficiente em matar o amor e em glorificar a superficialidade. Enquanto isso, a família anda desvalida, o amor anda miserável, a amizade é uma pobre coitada e a transcendência jaz na sarjeta. A internet nos aproxima dos distantes e nos distancia dos próximos e, assim, quanto mais aprofundamos uma amizade virtual, mais profundo fica o poço de nossa solidão.
Na volta ao livro, liguei o computador com relutância e não tive surpresa alguma, pois tudo estava realmente uma bagunça. Apareceu a mãe do tio – personagem que eu nem tinha criado – avó do menino que falava enquanto dormia. Era uma senhora que reclamava de não conseguir dormir de noite direito e que sentia muitas dores nas pernas. O importante é que ela tinha colocado uma ratoeira e pegara um rato. Todos os dias ela colocava uma ratoeira no mesmo lugar e pegava um rato, o que denotava baixa inteligência da população de ratos que habitava o lugar. Todos, ratos e humanos, viviam ali, acostumados àquele ambiente e rotina. Os ratos eram problema apenas para o tio (Eurico era seu nome, coisa que descobri mais tarde, pois quando comecei a história, pensei em chamá-lo “Rico”, que era o nome com que o sobrinho o chamava, “tio Rico, tio Rico, vem cá!”). Eurico estava em férias na casa de seus pais. Pelo menos eu imaginava que eram férias pelo seu descontentamento com aquela casa. Eu já não tinha muita certeza das coisas no meu próprio livro, mas continuei a escrita. Não se incomodem muito, vou contar coisas que só fiquei sabendo depois, como essa questão do nome, mas no geral não vai atrapalhar a narrativa. Afinal não estou escrevendo o livro aqui, estou apenas contando minha aventura de tentar escrevê-lo. Mas prossigamos. Naquele dia, eu tentei dar uma adiantada boa na história. Eurico se incomodava com os ratos, como se ele mesmo não morasse na casa. Incomodava-se como alguém que ganhara uma nova unha encravada. Ora, a dor dói mais quando chega do que quando se torna velha moradora em nós. Assim como o prazer, que é melhor quando chega do que quando continua. Os ratos o incomodavam como se ele fosse um convidado na casa. Naquele dia, ele teve uma grande idéia, que executaria assim que seu pai voltasse da fazenda. A idéia era restringir o espaço dos ratos, enfim, usar a inteligência contra os roedores: dificultar o caminho dos ratos com pequenos obstáculos ao longo de onde eles costumavam correr. Nesse ponto da história, adormeci no teclado e, quando acordei, desliguei o computador e fui dormir. Tive um sonho em que eu conversava com meus personagens e gostei da idéia. Quem sabe eu não poderia mesmo conversar com eles? Acordei pensando nisso.
(continua…) As partes deste conto são publicadas toda segunda-feira.
FÁBULA – o conto curto
Um dia uma flor ainda em botão foi despetalada e se transformou em uma menina que não via o amor.
FÁBULA – o soneto
Ainda em botão, um dia, uma flor Foi muito violentamente despetalada Quando cresceu se viu transformada Em uma menina que não via o amor.
E ela seguia pelas madrugadas Lembrando do tempo em que era flor E era de perfume as suas pegadas E sem sentir, se ia, semeando amor
E ela pisa o amor enquanto caminha O amor e todo seu estranho esplendor Porque ela pensa que está sozinha
E não vê o brilho do sol do amor O amor para ela é qual erva daninha O amor é espinho para aquela flor
As coisas mais absurdas nunca me causaram nenhum estranhamento. Eu sou aquele cara que, se uma bomba atômica caísse na cidade vizinha e alguém perguntasse o que era aquele barulho, responderia que não tinha certeza, mas me parecia um si bemol. Se eu estivesse com os três apóstolos no episódio da transfiguração, talvez tirasse uma soneca enquanto Cristo papeava com Elias e Moisés. Então, achei aquele desarranjo na minha história algo bem normalzinho. E era só um romance. Grande coisa! Continuei dali mesmo, afinal não tinha acontecido nada que atrapalhasse o esqueleto da história, nem mesmo os músculos ou a epiderme da história, pois eu apenas começara. E o romance seguia nos seguintes termos. De noite, estavam tio e sobrinho dormindo no mesmo quarto quando o barulho se repetiu. O tio pensou que eram ratos. Pensou não, ele concluiu definitivamente que eram ratos e se virou para o lado, tentando dormir. Havia muitos ratos lá e, de vez em quando uma ratoeira pegava algum, mas as baixas causadas pela ratoeira apenas tornavam os ratos mais fortes. Conforme as teorias do Dr. Darwin, somente os ratos mais fracos se deixam pegar pelas ratoeiras. Veneno não resolvia. Era até pior, pois o rato comia o veneno e ia morrer longe dali, em seu esconderijo e aquilo fedia por muito tempo, sem que identificassem a fonte daquela carniça. Nesse ponto da história resolvi tomar um banho e jantar. Depois da janta, chegou uma tia para nos visitar e falar dos problemas que tinha. Era uma lista enorme de doenças, que ela contava com muito contentamento, feliz por ser tão sofrida. Ah, deixe que eu me apresente, meu nome é Alfredo, sou escritor amador e estou contando a história do primeiro romance que tentei escrever e porque este é meu último relato, já que agora me dedicarei à pintura. Antes disso, quero contar a história do romance. Eu já tinha ouvido falar que personagens nem sempre costumam ter o destino que o escritor planeja para eles. Não só vi que isso é verdade, como vi que não é bem só o destino, é o itinerário também, as prosaicas coisas do dia-a-dia. Tudo pode ser muito diferente do que plano traçado pelo dono da história. Aquela era para ser um clássico, eu pretendia mostrar os personagens lutando com grandeza contra as coisas pequenas da vida, como ratos barulhentos, e lutando com humildade contras as grandes coisas da vida como a velhice. Queria personagens como nunca se viu nesta nossa literatura vil. Gente com mais alma que corpo. Queria fazer como Deus faz conosco ao ansiar que participemos de Sua grandeza. Quebrei a cara.
(continua…) As partes deste conto são publicadas toda segunda-feira.
Um paulista (desculpe, um cidadão nascido no estado do São Paulo) morador de Teresina, no Piauí, entrou na justiça contra seu chefe, gerente do supermercado em que ele trabalha, por assédio moral. O fato é que o chefe vivia chamando o empregado de “paulista” e ele se sentiu ofendido. Perante o juiz, o empregado reclamou que não só ele, mas vários empregados oriundos do Sudeste são freqüentemente tratados pelo seu gentílico, o que causa muito constrangimento. O juiz perguntou onde ele nascera e o empregado disse que tinha nascido em São Paulo. O juiz disse que então ele era paulista mesmo e perguntou então porque ficara constrangido e ofendido e ele respondeu ao juiz que o gerente não o chamara de paulista e sim de “paulista”, entre aspas. O problema todo era as aspas, elas desciam como martelo em sua cabeça. “Que aspas?”, quis saber o juiz. “Ora, Doutor, as aspas, o senhor sabe o que estou dizendo”. O juiz disse que não sabia não e que nunca vira aspas saindo da boca de ninguém e principalmente batendo como martelo em sua cabeça. “O senhor nunca viu aspas batendo em sua cabeça como martelo porque o senhor é nordestino”, disse o paulista com um sotaque irritante aos ouvidos do juiz, sugerindo que o juiz nunca sentira o peso de uma aspa no seu cocuruto, pois, sendo nordestino que nascera e crescera no Piauí, jamais sofrera as dores do paulista que sobe para ganhar a vida no nordeste maravilha. “Sou o quê?”, perguntou o juiz. “Nordestino”, disse o paulista. O rosto do juiz esquentou e invadiu-lhe a ira. Pela primeira vez, ele sentira aspas batendo em sua cabeça como martelo. Então, o juiz processou o paulista por preconceito.
Era assim que começava a história que resolvi escrever: No quarto, o tio e o sobrinho dormiam. Então o tio era despertado por barulho de ratos. Os ratos do casarão faziam barulhos durante a noite. Nessa hora o sobrinho começava a conversar. O garoto toda noite falava sozinho enquanto dormia. Parei a história nesse ponto, coloquei o computador de lado e fui à cozinha tomar água. Lá chegando, um amigo, que há tempos eu não via, chegou quase junto comigo. Ficamos ali conversando sobre nada muito importante, isto é, os problemas da nação, o roubo dos políticos, política internacional e afins. Eu gostava muito de falar sobre tais coisas com esse meu amigo porque ele não tem opinião alguma sobre essas questões, então minha opinião sempre prevalece quando conversamos, e isso me deixa muito satisfeito e aliviado. É como tomar um trago sem que ninguém veja, para um alcoólatra, em período de abstinência. Desde que prometi não opinar sobre mais nada, não perco a chance de conversar com esse amigo, porque com ele posso opinar como se não estivesse opinando. É como se conversasse comigo mesmo. No final acabo pensando porque parei de opinar, afinal continuo pensando o que penso, não adianta negar. Depois que conversamos bastante, meu amigo foi embora e eu voltei para o micro para continuar o romance do tio e do sobrinho que dormiam em um quarto e escutaram barulhos de ratos, pois tais barulhos aconteciam toda noite e toda noite o garoto falava enquanto dormia. Pois bem, quando voltei para continuar, ao olhar onde tinha parado a história, o dia já tinha amanhecido, o garoto tinha ido estudar e o tio conversava com garotas em uma sala de bate-papo virtual. Achei aquilo estranho, os dois personagens saírem assim sem minha permissão, e muito bizarro que o tempo tenha passado naquela história sem que eu tenha escrito nada. O fato é que era assim que estava. Enquanto eu conversava com meu amigo, o tempo passara e os personagens seguiram a vida. Nada podendo fazer, meio desorientado, peguei a história dali mesmo e a continuei. Eu tinha que mostrar quem é que mandava.
(continua…)
Este é um conto longo, publicado em partes, toda segunda-feira.
1. Só líquidos se adaptam ao meio e eu sou concreto. 2. Feiúra é apenas falta de Photoshop. 3. Compreender um mistério é uma contradição. Explicar um mistério é negá-lo. 4. Quem está quase certo está totalmente errado. 5. O blogosfera é uma cidade do interior cujo principal produto é a abobrinha. 6. A água é mesmo muito importante. Por exemplo, não dá para tomar um banho decente sem água. 7. Não olhe para a lente, olhe através dela. 8. O amor não é para amadores. 9. O vice-versa é o fim das exceções (e vice-versa). 10. Todo desejo é um pedido.
Colecionava livros que não leria. Buscava autores que não se deve ler. Não podia descobrir um autor ilegível, irrelevante, bobo, sem sentido ou meramente ruim que anotava e adquiria toda a obra. Tinha uma grande biblioteca de autores assim, com livros que comprara mesmo para não ler. Feliz, contemplava sua coleção e se regozijava pelo tempo que não perderia lendo tudo aquilo.
O perfume não pertence à flor. O perfume é o que a flor excreta, como sobras da beleza que ganhou da natureza. O perfume é uma beleza em forma de vento. As frutas são expelidas pelas árvores e nos alimentam. De fato, a fruta madura e colhida é uma parte da árvore que ela já não quer nem precisa. Todo alimento é um expurgo. Assim, a natureza cria seus ciclos, onde o desperdício de um alimenta a fome do outro. Produzir até o ponto do desperdício, para alimentar o outro, que precisa de tal desperdício é a função de tudo o que existe. O poeta desperdiça poemas, do compositor brotam canções até caírem de maduras. E assim, de Deus brotou todo o universo e a humanidade, pois somos fontes que transbordam e se tornam rios desperdiçando água, para aqueles que têm sede. Quem sou eu? Para o quê fui feito? Basta responder: o que eu desperdiço? Este texto, por exemplo, é um desperdício meu.
Gerald Thomas escreveu que Fidel Castro não é um intelectual como foi Che Guevara. Diante do caráter esotérico da frase, a fim de que as pessoas normais percebam o que quis dizer o grande diretor, ofereço algumas variações, aplicadas a outros campos da cultura.
- Michael Jackson não é um sanfoneiro como foi Tim Maia. - Paulo Coelho não é um percussionista como foi Pablo Neruda. - Gisele Bündchen não é uma baranga como foi Ingrid Bergman. - Luciano Huck não é um cabeleireiro como foi Costinha. - Gerald Thomas não é um fiscal de gafieira como foi Tião Macalé. - Chico Buarque não é um motorista de caminhão como foi Mussum. - Oscar Niemeyer não é uma uva como foi Aracy de Almeida. - Leonardo Boff não é um macaco-prego como foi Osho. - Wagner Moura não é um funcionário da Receita como foi Wilson Grey. - Frei Betto não é um puxador de escola de samba como foi Gurdjieff.
E não foi só isso, Gerald disse também que Fidel é uma espécie de Joseph Stalin misturado com Marilyn Monroe, mas essa eu deixo para a glosa de alguém mais disposto que eu.
Estava eu no interior de um ontem qualquer, quando o Márcio Guilherme me chamou para o Apostos, falei que seria uma honra participar de tão seleto grupo, porém, o adverti que eu seria um peso morto aqui. Ele disse que estavam precisando de um peso morto, então eu seria bem-vindo (na verdade ele não disse isso, mas eu gostaria que tivesse dito). Eu sou um monumento à preguiça, mas depois disso, sob tão alvissareira possibilidade de fazer parte do portal, pipocou em meu coco um monte de idéias dignas de mim mesmo, se é que isso é alguma coisa. Por exemplo, me ocorreu propor a criação do Dia Mundial de Combate à Porrada ou escrever sobre o prédio que tinha cobertura de chocolate ou inventar uma mistura de Rinossoro com Diabo Verde, que seria um desentupidor de pia e nariz. Mas me sentiria deslocado como Luiz Gonzaga cantando “Oh, Carol”, pois não entendo de porradas, minha rinite está sob controle e nem gosto muito de chocolate (tenho esse defeito). Outro defeito grave que tenho, para um humorista, é que uma das técnicas de humor mais usadas é a autodepreciação, na qual eu, desgraçadamente, sou um desastre. Sou o Rubinho Barrichelo da autodepreciação (lento, porém persistente). Além disso, internet é coisa de quem não tem convite pra sair à noite e eu que não sou pai (e com o passar do tempo não serei nem avô) tenho tempo sobrando, além do fato de que as pessoas do sexo masculino vão ficando infantis na medida em que envelhecem (algumas mulheres também vão ficando mais novas enquanto envelhecem, mas isso é outra história) e ser infantil é importante para quem é humorista. Um velho humorista é uma criança com muita idade, que morrerá por excesso de infantilidade. Um velho que teima em dizer a verdade é isso, um humorista. Tem que ser muito teimoso para continuar dizendo a verdade neste mundo onde tudo o que se faz é caçar níqueis. Ah, inventei um trava língua bem facinho: “típico título caça níquel” (repita isso o dia inteiro). Na verdade esse negócio de ser criança tem seus dois lados. Cristo quando elogiava as crianças evidentemente não estava elogiando a infantilidade. Lembrei desse aspecto da coisa porque ultimamente tenho sido uma espécie de paparazzi. Levo a máquina digital para o trabalho e tiro fotos dos colegas quando não estão vendo. O objetivo é unicamente documental. Acho importante que no futuro olhem para aqueles instantâneos. Há muitos que odeiam aquilo e me odeiam por aquilo e penso nessas pessoas como crianças. Aceitar ser fotografado é sinal de maturidade. Seres infantis não gostam, como os índios que acham que vão ter a alma roubada. Aqui em Brasília tenho me divertido muito fotografando também os turistas. Quase sempre vou à missa dos domingos na Catedral, que é o lugar mais visitado da cidade e fica fácil. O turista fica em frente a uma estátua daquelas dos apóstolos e seu amigo bate a foto, nessa mesma hora eu também bato a minha foto do turista sendo fotografado em frente à estátua. Ninguém desconfia que estou fotografando o turista. Gosto demais de ver turistas. Vou aos pontos turísticos para ver os turistas, não me interesso pelo ponto. Vou à praia para ver banhistas, pois a praia mesmo, eu detesto. Vou ao show para ver os fãs, passeio para ver as pessoas do lugar, afinal a estátua da liberdade vai ficar lá (enquanto o Osama deixar), mas aquelas mesmas pessoas não. Vou ao restaurante para comer (claro), mas quase não como, fico reparando as pessoas que passam. A internet, como quase tudo (do xote ao orkut), foi inventada para que as pessoas se encontrem. Deus criou o mundo para isso. Todo mundo foi criado para encontrar todo mundo. E quando todo mundo encontrar todo mundo deve amar todo mundo e ser amado por todo mundo, pois todo mundo é o grande barato do mundo. Agora, me dá licença que vou escrever um enorme poema em homenagem à prosa. Saudações a todo mundo.
Um dos eventos mais importantes na vida de Jesus foi quando Ele impediu o linchamento de uma mulher adúltera. Ele ficou lá, escrevendo na areia, não encarou a multidão (e René Girard assinala isso como muito importante, pois se o fizesse poderia até ser linchado) e nem se juntou a ela, apenas mostrou a verdade “quem nunca pecou, atire a primeira pedra”. Ele optou por amar aquela mulher e não por fazer justiça, pois a lei autorizava o linchamento de uma adúltera. A mulher se tornou uma santa seguidora de Cristo e cada um que fazia parte da multidão foi para casa pensar melhor na merda que ia fazer. Multidão é o lugar onde o diabo se infiltra e fazer a festa. Devemos fugir da multidão sempre, ela geralmente está errada. Mesmo uma multidão de santos faria merda. Cristo é a melhor lente que existe para se enxergar as coisas como elas são, afinal Ele é A verdade. Muita gente boa fica indignada com o espetáculo que estão fazendo em torno da sevícia e morte da menina Isabella. Uma horda tosca quer linchar os pais, supostos culpados. Por outro lado, há muita gente boa querendo linchar os linchadores. Parece que foi na última revista Bravo que li a frase de Walt Whitman em que ele diz algo assim “não sou do tipo que fica a se queixar de que as pessoas só ficam se queixando”. Quem julga o povo que quer linchar está cometendo o mesmo erro que eles e nem percebe isso, pois há um raciocínio sinistro (marxista?) também de que os linchadores são “eles” e nós não somos linchadores, “nós” somos bons (o mesmo que eles dizem dos linchadores que lincham como quem afirma “eles são assassinos, nós não”). A análise dessa gente boa do ponto de vista psicanalítico – e marxista – está correta (quem sou eu pra dizer que não?!). Acontece que esse negócio do “pega e lincha” é algo antiqüíssimo. Trata-se do mecanismo do bode expiatório. O bode expiatório é um teatro satânico que consiste no fato de que toda uma população odeia alguém a quem culpa pelos seus próprios (da população) erros. Depois de julgar e executar o “culpado”, a população verifica que aquele era inocente, porém o assassinato leva a população a se recolher e viver certo período de normalidade. Essa história do bode expiatório é um dado antropológico, é um fato presente em todas as civilizações (estudado com profundidade pelo já citado René Girard, escritor francês, antropólogo das religiões). Quem veio para acabar com isso foi justamente Nosso Senhor Jesus Cristo (claro que Ele não conseguiu acabar, pois o demônio não se aposentou e manda seus auxiliares para remontar a peça sempre e sempre e essa peça, pelo jeito, não sai de cartaz tão cedo), justamente se oferecendo Ele mesmo para o papel do bode expiatório definitivo(é por isso que ele morreu por todos nós). Com Cristo, a tal peça muda seu roteiro, pois diferentemente do bode expiatório tradicional, Cristo se oferece voluntariamente à morte, diferentemente do bode expiatório tradicional Ele é não só declaradamente inocente como é o próprio Filho de Deus. E, antes de morrer, deixa um recado, para que paremos de odiar quem quer que seja “amai vossos inimigos e orai por quem vos persegue”. Antes de morrer, Ele perdoa quem o matou. Essa é a fórmula para o fim desse teatro de lúcifer. . Devemos dar um basta ao ciclo demoníaco de odiar. Um psicanalista marxista jamais escreveria que a culpa desse enlouquecimento da multidão é do diabo, ele provavelmente não acredita no diabo (e nem em Deus). Ele jamais assumiria que a solução para esse problema já nos foi dado por Jesus Cristo, isto é, vamos dizer que foram mesmo os pais da garota os assassinos, o que devemos fazer? Amá-los e rezar por eles. Qualquer drama humano tem que despertar em nós enorme piedade, jamais ódio, pois é isso que o diabo quer de nós, que odiemos. Marx é um dos diletos auxiliares do demônio ao convencer muitos de que é a luta de classe a máquina que faz a história caminhar. Para Marx, o pobre deveria odiar o rico, tirá-lo seus bens e se tornar dono de tudo, pois todo rico é mau e todo pobre é bom (como se, ao tomar os bens do rico pra si, o pobre não se tornasse automaticamente rico também e, num passe de mágica, uma pessoa má). Como dizia um psicanalista cristão, o demônio é burro.
Saímos do concerto de Charles Aznavour e chovia pouco, mas já tinha chovido muito. Deixei minha amiga Naza no seu prédio na Octogonal que é um pouco longe de onde moro. Quando saí da Octogonal chovia muito e no tocador de MP3 tocava uma música de Laurent Voulzy, um cantor francês. Coincidência? Vocês não viram nada. Quando acabou essa canção, a chuva aumentou, e entrando no Parque da Cidade começou tocar uma canção do Celso Adolfo que diz “eu quero cair igual a chuva que cai e molha o pé da cidade”. Coincidência? Je ne sais pas. O fato é que chovia muito e eu cantava a canção junto com o coro infantil da gravação agradecido pela coincidência. Brasília tem chovido muito ainda neste fim de abril, que já deveríamos ter um céu muito azul e imenso como só em Brasília há. Quando chovia em março, eu cantava que eram as chuvas de março fechando o verão, como se aquelas fossem as últimas do ano. Não eram não. Hoje mesmo choveu muito e molhou ainda mais o pé da cidade. A chuva são nuvens que emocionadas com o calor se desmancham sobre nós. A chuva é o retrato de minha infância e a Naza, que cresceu no Pará como eu, me dizia que só não gosta de Brasília quando fica muito tempo sem chover. Se Brasília chovesse mais do que chove seria a perfeição dos trópicos. Chegando ao eixo monumental vi um relógio digital enorme informando que faltavam 739 dias para os 50 anos de Brasília. Eu sou mais novo que Brasília 7 anos e 1 mês, façam as contas se quiserem saber quando dias faltam para eu fazer 50 anos. Será em breve, pois os primeiros 90 anos de nossa vida passam muito rapidamente, estarei cantando “hier encore j’avais cinquante ans…”, como hoje cantaria Aznavour, que tem 83, ótima idade para a pessoa se casar. Nessa hora tocava no MP3 uma canção de amor de Mauro Duarte, naquele que é o melhor disco que comprei este ano. Uma obra-prima que não associei a nada, pois não tenho ninguém que tenha me abandonado e eu não queira mais, como diz o samba (pois eu quero sim todas as que me abandonaram). Passando pela rodoviária, entrei na Asa Norte, onde moro. O chão estava menos molhado, a chuva já tinha parado. Começou uma canção que não lembro qual, lembro que naquela hora resolvi escrever este post. O chão ficava cada vez mais seco e quando entrei em minha quadra parece que não tinha chovido nadinha ali. Começava no MP3 Luiz Gonzaga a cantar “já faz três noites que pro norte relampeia e a asa branca ouvindo o ronco do trovão…” (logo no começo da canção se fala em “norte” e “asa”). Eu pensei, “aqui na asa norte pode ter relampeado, mas não choveu nada”. Entrei em casa meio frustrado porque Monsieur Aznavour não cantara “Et Pourtant”. O show foi magnífico, mas nunca se está satisfeito e lembrei da piada do cara que tinha um cachorro que todo dia ia comprar carne para a casa e um dia o dono deu uma surra do animal porque o cachorro foi fazer compras e esquecera de levar a chave da porta. Obrigado pelo ótimo filé, Monsieur Aznavour, pardonnez-moi, je suis três content mesmo sem “Et Pourtant”.
- César, como eu faço pra perder peso? - Passa fome, criança! Fome é a única coisa que realmente emagrece e, além disso, é grátis. Eu perdi uns 6 quilos na última quaresma. Sinto-me um charlatão quando emagreço com jejum. Na verdade, quem está acima do peso, faz jejum com redobrado ânimo. Percebi perfeitamente isso: para emagrecer, nada melhor do que fome. Às 10 da manhã eu estava jubiloso de tanta fome. Não me importava, pois a idéia era aquela mesmo, passar fome. Se não passasse fome, cortaria ainda mais a ração que me mantinha de pé. O resultado foi ótimo, pois eu precisava mesmo emagrecer e eu que já fui gordo e já fui magro sei que ser magro é melhor. E vi o óbvio, que tudo o que fazemos por causa de Deus, os beneficiados somos nós. Passe fome e perca peso, pois a obesidade é um dos dois grandes males que atacam a humanidade. O outro é a fome. Há enorme diferença entre fome e jejum e entre jejum e dieta. Porém, entre dieta e fome há pouquinha diferença.
Uns meninos invadiram a UNB e comecei a pensar sobre a sedição e a lei com as próprias mãos, impulso de muitos de nós. Boa parte de meus amigos acha que a polícia tinha que ter entrado lá e tirado os meninos à força. Eu sou contra a ocupação de propriedades privadas. Mas das propriedades públicas, não vejo nada demais, afinal a praça é do povo como o sol é do condor. Além disso, é legítimo que o povo vá aos lugares públicos dizer o que pensa ou firmar uma posição, inclusive aquele povo com quem eu não concordo. O que deveria era o povo com quem eu concordo também se unir e invadir uma ou outra propriedade pública de vez em quando, mas isso ia ficar parecendo com coisa do povo com quem eu não concordo. É como o grande encontro dos machões que nunca acontece porque ia parecer coisa de gays. A maioria queria que o reitor saísse. Na verdade, o povo é o superego dos políticos. Se eles tivessem essa parte da personalidade que têm as pessoas normais, boa parte deles já teria, para o bem do país e de sua própria alma, tomado atitudes de gente. Renúncias seriam normais. Suicídios, corriqueiros. Expatriações, banais. Eu, quando era menino, não fazia nada errado porque achava que morreria (literalmente) de vergonha se fosse pego. Achava também que ao se flagrar um ladrão no ato do furto, ele se desmancharia em prantos, esmagado sob o peso da vergonha e se entregaria à polícia aos choros. Achava que os homens de bens tinham, só por serem de bem, autoridade física sobre os maus. Achava que os bandidos usavam máscaras porque tinham vergonha do que estavam fazendo. Eu era uma criança não entendia nada, como diria Erasmo de Niterói. Não obstante, a vergonha continua existindo e as pessoas sentem muita vergonha geralmente do que não deveriam e não sentem do que deveria matar de vergonha. Hoje se vê gente com vergonha de confessar sua real posição política, sua fé (e sua dúvida) e, a pior de todas as vergonhas, a vergonha de amar. Ainda bem que Deus não tem isso (“isso” é “vergonha de amar”, você acha que eu sou doido de chamar Deus de sem-vergonha?!). Depois de grande e vendo o quanto as coisas são diferentes do que eu pensava quando era pequeno, mesmo o mundo não tendo se adaptado a mim, faço o mesmo com o mundo e não me adapto a ele, pois continuo morrendo de vergonha das mesmas coisas da infância e amando sem a menor vergonha, que é para isso que fui feito.
UPDATE: dois dias após a publicação da parte aí de cima deste post, o MST invadiu a empresa em que trabalho, que é pública. Aí, sou contra, pois o MST não é povo, é um bando. O MST bem merecia um estado de sítio (perceberam o chiste?). O que me deixa tranqüilo como empregado da estatal é que o MST, como se sabe, só invade terra produtiva (de preferência devidamente arada e saneada).
Eu quase faço como o Noronha, mas felizmente os Rolling Stones voltaram ao ar. Não é por que minha preguiça só aumenta com a idade, há também o fato (contra o qual não há argumento. Fica aí sentado lendo, não discorde de mim, senão paro com este post bem aqui mesmo) é que eu já dei minha contribuição para o mundo blogueiro e agora chega. O Paulo Salles e o Marcelo de Polli é que estão certos, esse negócio de blog não dá camisa a ninguém e eu preciso de camisa, pois não vou sair por aí a mostrar meus pêlos tonirrâmicos. Além disso, nunca usei todas as possibilidades que a internet oferece. Esse negócio de só escrever textinhos engraçadinhos é muito sem graça. É que eu, além de morrer de preguiça, nunca achei um artista gráfico para me ajudar. Por exemplo, eu queria fazer uma coisa que requer tempo, paciência e photoshop. Eu iria a uma feira aqui em Brasília e compraria uns 10 litros de pequi (uma fruta ruim, mas muito popular entre as pessoas que gostam dela, aqui no Centro-Oeste). E então faria várias fotos de pequis fazendo algum esporte. Pequi sendo usado como bola de ping-pong (que nas olimpíadas chamam “tênis de mesa”. Teriam que inventar outro nome para “Peteca” ou ela nunca vai ser esporte olímpico, mas posso estar falando bobagem), pois bem, teríamos pequis como jogadores de futebol, argolas de pequis fazendo aquele símbolo das olimpíadas, pequi andando de bicicleta, pequi jogando vôlei, etc. Embaixo de cada um desses quadros haveria, com letras bem bandeirosas, a frase “Olimpíadas de Pequi”. Ia ser engraçado, não ia? Pois é, mas não vou nisso não, ia dar muito trabalho. Enfim, estou por aqui, qualquer hora eu falo mais. Estou escrevendo uns decassílabos, depois eu mostro. O que me torna mesmo um peso morto neste seleto grupo de blogueiros maravilhosos e suas máquinas voadoras é que um dia resolvi que não escreveria mais sobre uma porrada de assuntos (1 porrada é o equivalente a 20, para quem não sabe), por exemplo, política. Ah, também não ia mais dar nenhum pitaco sobre filosofia. Religião? Deus me livre. Economia? Nem me pagando. Mulher? Apesar de afrodisíaco, seria melhor deixar pra lá também (não quero falar mal delas e falar bem, segundo o Alexandre, não vai me ajudar conquistar nenhuma). Chocolate? Não, chocolate engorda. E fui fazendo a lista a respeito do que não seria aconselhável falar. Depois da lista feita, concluí que seria mais sábio que ficasse calado, pois não sobrava mais nada que pudesse sair de meus dedos e que fosse interessantinho. Pois bem, claro que eu não respeito as decisões que tomo e nem sou coerente com as promessas que faço para mim, o que me permite falar sobre todas essas coisas sem nenhum problema quando eu esquecer tais promessas. Além disso, há tanta gente que não mantém a palavra comigo, por que eu iria fazê-lo? Seria ridículo eu considerar a palavra de quem, logo a minha, como se fosse lei. Aliás, nem toda lei eu obedeço. A lei da gravidade, por exemplo, burlo de vez em quando e vou em vôo por aí. A lei da gravidade por sua vez também não me obedece e estamos quites (eu, com alguns hematomas). As leis não obrigam ninguém a nada, apenas nos impõem sua sanção, mas quem quiser pode desobedecer, não é proibido. A lei da oferta e da procura também é outra que me expulsa da blogosfera. Eu sou um tipo zero, como diria Noel Rosa, sou um tipo que não tem tipo e o mercado blogosférico foge de seres como eu. Então fica um doido ou outro (como a Meg, por exemplo) dizendo que gosta de mim, enquanto a maioria boceja e sai por aí fazendo coisas mais interessantes como upload de fotos no Orkut que agora aceita que você coloque mil e quinhentas fotos e, melhor ainda, permite que você em seguida proíba as pessoas de olhá-las. Eu, por minha vez, farias coisas mais interessantes do que postar, como ouvir Jamelão cantando Lupicínio e fazer sonetos para uma garota de olhos azuis. Seria bom para todo mundo. A verdade é que não tenho novidade, tudo continua como no último post, continuo sem assunto porque a realidade deste país é mais engraçada que qualquer texto que eu pudesse escrever e outra coisa que resolvi foi não escrever nada baseado em fatos reais, afinal sou um poeta e o poeta é um fingidor. O problema é que sou também humorista e o humorista é sempre verdadeiro (basta dizer a verdade e as pessoas morrem de rir), o humorista é aquele que diz a verdade, o poeta é o que mente. Sendo eu um humorista poeta ou um poeta humorista, trago forte tendência de ficar em silêncio, pois tenho meu verbo neutralizado pelas duas atividades, uma que me impede dizer a verdade, outra que me impede mentir. O que me resta, quando tenho que escrever mesmo é desobedecer a um dos dois dons e depois não dormir de noite por não ter sido suficientemente poético ou engraçado o bastante. Vou postar com mais freqüência, acreditem, pois estou muito feliz. Saudações a todos.
Praticando a verdade que se conhece, merece-se a que se ignora
(A. D. Sertillanges, in “A Vida Intelectual”)
Quem gosta de livro é a traça, eu gosto é de conhecimento. A traça traça o livro. O traço traça a traça (o traço é o macho da traça). Os cupins comem livros de matemática e cagam regras. Não gosto de livros, eles dão hérnia de coluna e também ocorre neles com freqüência algum encontro internacional de ácaros. Essas coisas por onde nossos olhos passeiam, os livros, são o habitat favorito desses bichinhos fomentadores de doenças respiratórias, como a rinitzsche, ai minha santa bárbara! Livros têm orelhas que é aquele lugar que se você ler depois de ler o livro, você ri muito, pois, dizem, não há um livro que justifique a orelha. Tenho um amigo que não lê orelha de livro para não se decepcionar (ou se influenciar). Os adivinhos deveriam ler orelhas de pessoas como lêem as mãos. Santa bárbara… Mas somente os livros têm essa sorte de que lhe leiam as orelhas. Os livros até merecem respeito, pois livro também é gente. Não demora muito, pois, se gente é tratada como coisa, coisas se tornarão gente e os livros estão em primeiro lugar. Pelo que ouço falar, o livro é a panacéia. Livro cura arca caída, frieira, auto-estima baixa, tédio, hemorróidas, dor-de-corno, miopia, vista cansada, saudade, mau-humor, solidão, dor de cabeça, esquerdismo, ateísmo e caganeira. Livro também é gente, pois é vivo, ensina e aprende, nasce e morre (Ler um livro é dar-lhe vida). Livro chateia, livro agrada, livro é banido e é saudado, esquecido e lembrado. Livro melhora e piora. Livro empobrece, livro dá fama e fortuna. O livro é indefeso, precisa que o embalemos entre nossos dedos e apertemos seu dorso e o abramos para que ele fale conosco. Há livros grossos que não são arrogantes. Há livros pesados que têm muita leveza. Há livros finos, bonitos, feios, doces e amargos. Os livros têm corpo e alma. Livros vão pro céu e pro inferno. Livros têm signo, chakras, opinião, aura, íntimo, âmago, âmbito, tudo o que se pensar, livro tem. Claro que há diferenças entre gente e livro. Livro, por exemplo, nasce em árvores. Eu já escrevi livros, já plantei árvores, mas não tenho filhos. É que filhos não nascem em árvores. (Eu sei que vocês vão dizer “filho nasce em árvore sim: árvore genealógica”, no que eu responderei: “não senhor, filho nasce em árvore ginecológica”, mas estou falando de árvore mesmo, árvore vegetal). Um dia desses na aula, o professor explicava quais as profissões e em que situação se deve contribuir para a Previdência Social, então, uma colega, bem séria pergunta: “professor, e o índio?” “Ora, minha senhora, índio também é gente”, deveria ter respondido o professor. Não sei bem, o que ela quis dizer, pode ter sido como algo do tipo: se um índio montar um grande supermercado, ele deve recolher à Previdência Social e a todos os órgãos que oneram a folha de pagamento dos empresários comuns? Ou, se um índio tiver uma empregada doméstica, ele deverá pagar o INSS da moça? Tem gente que fica lavando os pratos enquanto Jesus está na sala tomando chá de cadeira. Jesus que, aliás, também era uma espécie de livro. Jesus era tudo o que Deus tinha a nos dizer. A vida sem rotina também é rotineira. Se você tem razão, muito cuidado para não perdê-la, pois só perde a razão quem a tem. Ganhar razão é mais difícil. As discussões do casal que se ama muito é esquisita, os dois brigam para demonstrar que o outro é quem tem razão, pois o amor é o reino da desrazão. O império do ilógico. O perdão é muito mais bonito do que a justiça. Esperar é sofrer. Nunca espere muito. Nunca espere pouco. Nunca espere. Não é o fim do mundo a solidão que lhe dão de presente e se só lhe dão solidão, agradeça por ela, pois assim como livro também é gente, solidão também é presente. Talvez ninguém esteja preparado para curtir sua eminente presença e se na iminência de sua presença, todo mundo se ausenta, entre para a comunidade do Orkut, “quando eu chego, todo mundo sai”. Ou faça um banho de manjericão, talvez você esteja com algum encosto, como certas cadeiras. Quem vai ao terreiro de macumba leva a demanda ao pai-de-santo e esperar o resultado, depois do despacho. Muito do que se fala no mundo corporativo foi tirado da linguagem do candomblé. Por exemplo, quando o pai-de-santo chama a secretária para um despacho, a coitada se pergunta se deve levar papel e lápis ou cachaça e galinha preta. Claro que eu nunca entrei em um terreiro de candomblé e essa ignorância me permite falar as maiores sandices a respeito do assunto e isso é divertido. Às vezes, é importante ser ignorante para ser engraçado (ignorante às vezes, honesto sempre), pois, às vezes, muito conhecimento impede a pessoa de ser engraçada, mesmo que a verdade, já disse isso, seja muito engraçada (quando o anjo disse que Maria era cheia de graça, essa Graça era o Cristo dentro dela, isto é, a própria Verdade é a Graça, mas não mudemos de assunto). A verdade vista pela ignorância honesta e ingênua é que é mais engraçada. Por exemplo, um dia desses uma amiga maravilhosa que eu tenho foi ao Paraguai. Puxa, como eu dei rata ao fazer um monte de observações maldosas sobre o país irmão e que é, realmente, muito ridicularizado por nós como se fosse aquele vizinho meio freak, que faz churrasco todo domingo com música dos anos 70 na maior altura tocada em sua radiola, pois ele só tem LPs. Minha amiga me mostrou o quanto eu estava equivocado sobre o Paraguai, pois ela era, digamos, sobrinha daquele vizinho e gosta muito dele, e alguns LPs daqueles foi ela quem o presenteou. E que se eu vencesse a ignorância e preconceito e fosse lá um dia, veria o quanto é inesquecível a picanha e o contrafilé que ele faz. Pois é. Meio que fiquei com vergonha dela, mas a agradeci muito pela lição e até prometi que irei ao Paraguay, assim que for a Paris, onde se secarão todas as garrafas. Essa é a verdade. A verdade arrebata, nos golpeia, nos espanta. A verdade se agiganta. A verdade não sugere, a verdade sempre certa, ligeira, nos prende a ela e, em seguida, nos liberta. A verdade é nossa estrada, a verdade nos conduz, é a lua na madrugada, a verdade nos invade, abre a porta, liga a luz e salva a humanidade. A Verdade é o Cristo Jesus. A liberdade é um apelido simpático para a insegurança e a solidão. Segurança é falta de liberdade. Liberdade e segurança não é um problema só do governo, liberdade e seguranças são coisas públicas e privadas ao mesmo tempo. Há ações públicas e ações privadas. Vaiar é uma ação pública. Cagar é uma ação privada. Não convém misturar as duas coisas, mesmo que, quando você vaia um político, está vaiando merda, mas podemos dizer também em tais casos, que eles é quem cagam, eles é quem misturam a coisa pública com a privada. É preciso tapar o nariz e ficar de olho nessas coisas, isto é, o homem público não tem vida privada e sua vida pública é também privada. Tapar o nariz e abrir os olhos. Quem tem olhos profundos gasta muito mais colírio. Quem não tem olhos, tem que ter muita imaginação. Quem não tem imaginação é meio cego. Cego é aquele que só vê a asa da graúna. O olho do cego só serve para guardar lágrimas, pois cego não vê, mas chora. Não é à toa que “graúna” é nome de choro. Um choro de João Pernambuco, gênio da música brasileira, que era o porteiro da escola Villa-Lobos de música no Rio de Janeiro. Quer chorar? Põe pra tocar Françoise Hardy cantando “Chanson floue”. E o índio? Será que índio também se apaixona como naqueles livros do José de Alencar? O certo é que os índios andam todos nus o tempo todo ou quase nus, isto é, as índias, quando estão se tornando mulher, sentem vergonha e se vestem um pouquinho. Quando a índia aparece vestida, todo mundo pensa “ih, essa menina tá querendo dar”. Eu me criei vendo índio no meio da rua. Eu me criei ouvindo Luiz Gonzaga e tocando violão. Ouvindo tiros de revólver, lendo a Bíblia, ouvindo rádio, ouvindo minha mãe cantar. Criei-me com A Vida de Jesus debaixo do braço. Ah, santa bárbara! (Alguém aí sabe o verdadeiro nome de Santa Bárbara? Desconfio que “bárbara” refere-se a sua origem, pois sua família era de bárbaros). Há livros demais. As pessoas não deveriam colocar mais livros no mundo. Deveríamos sim é cuidar dos que estão aí passando fome. Eu mesmo já abortei uns cinco ou seis livros. Quem vai a feiras, grandes sebos e megastores sabe do que falo. Dá pena ver tanto livro largado por aí, coitados. É irresponsável essa gente que põe tanto livro no mundo só para passar fome e no fim virar lixo. Quem reclama de mim quando falo dos livros que não escrevi, respondo que o autor tem direito ao próprio corpo e deve sim evitar um livro indesejado (e até os desejados). Direito ao próprio corpo é isso. Você vai a um lugar qualquer e bate papo com os amigos e, pimba, sai do encontro grávido de um romance. Uma semana depois aquilo já cresceu bastante em você. Claro que é traumático e a alma daquele livro-feto talvez lhe persiga para sempre, mas pode ser pior, ele pode nascer, destruir você e causar muitas mortes. Livros podem ser mortais. Além disso, com uma semana de gestação, o livrinho ainda não é nada, é só uma coisinha que nem enche uma colher de café e nem precisa ir à clínica nenhuma. Não seria má idéia que se inventasse remédio abortivo para idéias. Algo como a pílula do dia seguinte. O sujeito tem uma idéia para uma novela das oito ou para mais um roteiro de filme nacional, por exemplo, então vai ao médico, que se compadecendo do mundo, receita a pílula que curará o suposto autor, limpando qualquer vestígio de pensamento sobre a grande idéia que ele teve. Ou poderiam inventar o DIC (Dispositivo Intra Cerebral), que quando uma idéia de escrever livros se aproximasse da consciência do escritor, seria desviada e excretada instantaneamente em um espirro. Pessoas inteligentes não sairiam sem seu DIC (lembrei agora do cara que a garota disse para ele que usava DIU e ele começou a cantar no ouvido dela “DIU, como te amo”, ela morreu de rir e tiveram uma noite e tanto). Voltando ao DIC, não seria isso algo como lobotomia, de forma alguma. O escritor usaria tudo o que sabe e conhece para sua vida, mas jamais para escrever livros. As idéias que lhes ocorressem seriam todas para que ele as colocasse em prática e não que saísse por aí dando palestras, por exemplo. A quantidade de livro escrita já dá para abastecer o mundo de leitura por uns cinco séculos ou mais. Seria saudável para humanidade só recomeçar a produção de livros depois que lêssemos os que estão por aí abandonados. Depois desses 500 anos, as pessoas poderiam em pequena medida recomeçar à escrita, desta vez tendo um público muito mais exigente e, o escritor, por sua vez, seria alguém totalmente sem costume de escrever e só o faria quando o livro se impusesse. Só os livros necessários seriam escritos. Livro necessário é aquele que não só pede para nascer como chega a ser mais importante que toda a humanidade, como Cristo, que, não por coincidência, é chamado o Verbo Divino, como se Maria tivesse engravidado de um livro (é bom esclarecer isso, a Bíblia não é a palavra de Deus, a palavra de Deus é Cristo). E todo livro seria sagrado (“A fonte do saber não está nos livros, está na realidade e no pensamento” nos diz Sertillanges). Tradutores brasileiros traduzem “dawn” por aurora e “hill” por colina (quando deveria ser “morro”). Aurora e colina são palavras que ninguém usa no Brasil, exceto em alguma marchinha de carnaval de antigamente. “Dawn” é nome de mulher, em país de língua inglesa. “Aurora” também é nome de mulher por aqui. Mas se “dawn” não for nome de mulher, a tradução razoável seria “madrugada”, “amanhecer” ou qualquer coisa que um vendedor de picolé saiba o que é e não “aurora”. Tem também aquela tradução irritante de “teve lugar” no lugar de “aconteceu”. E traduzir “play a role” por “jogar um papel” no lugar de “desempenhar um papel” no meu mundo ideal daria cadeira elétrica. Acho que tradutores sacaneiam escritores, se esquecendo de que tradutor também é escritor. Eu acho o seguinte: opinião é coisa sem importância. Mas esta é só minha opinião. Isto resume as coisas suficientemente, pois quem acha vive se perdendo, já achava Noel Rosa desde o século passado, o século do progresso, onde o revólver teve acesso pra acabar com a valentia. O fato é que se vê muito poeta dando sua opinião sobre dados estatísticos. Esta é uma das razões da existência de imbecilidades como o sonho socialista: poetas sonhadores, indignados com as injustiças deste mundo, se deparam com dados estatísticos. Pronto, essa é a mistura cujo resultado é porcaria (não dê o resultado de uma pesquisa para um poeta interpretar, pois ele a interpretará de forma poética, quer dizer, irreal, fantasiosa, utópica). Já dizia Noel que qualquer economia acaba sempre em porcaria. Acho que falava do ato de economizar, mas hoje a frase ganhou abrangência e essa economia aí, já pode ser escrita com “E” maiúsculo. Pior é que o pobre poeta sequer dispõe de um economista de verdade para lhe esclarecer os tais dados estatísticos, pois o economista que ele vai procurar (quando vai) é outro poeta, que por falta de dom para escrever versos, entrou na faculdade de economia e também acredita que riqueza se faz tirando de quem tem e dando para quem não tem, como se um ato voluntário de bondade e caridade fosse um princípio da Economia e fosse essa a função do Estado. Mas a culpa de tudo isso é da internet onde todo mundo pode achar o que quiser, graças aos instrumentos de busca. Se você não achar nada sobre um assunto, o Google acha para você. Mas, o que o Google acha ou deixa de achar não tem nenhuma importância. Quem é o Google para achar alguma coisa? É apenas uma criança, nem espinhas na cara tem. Mas é um direito dele achar alguma coisa. Eis o problema do achar: todo mundo tem esse direito. É algo democrático. Quando algo é “democrático” não se deve esperar muita coisa ou simplesmente saber que não tem importância alguma. Sobre “achar”, tenho que falar do cientista ateu. Senhor cientista ateu, primeiramente, vá estudar Santo Tomás de Aquino para ter o direito de se dizer ateu. Você jamais verá um teólogo discordando de teorias sobre Física sem ter, esse teólogo, estudado com profundidade a Física (e se vir, se trata de um teólogo cretino, coisa perfeitamente possível de existir). O cético que nunca estudou Santo Tomás não é ateu, é ignorante. Toda luta por inclusão disso e daquilo é também luta pela desmoralização disso e daquilo, pois estar incluído em algo é ter algo a mais para “achar”. Veja o quanto é grave a questão. Somos e seremos sempre, que Deus nos ajude, governados por políticos. Político é um palpiteiro profissional em quem votamos, para que ele transforme seus palpites em normas para nossa conduta. Democracia é isto, ou isto é apenas um palpite meu (vamos parar com isso, tudo o que eu disse aqui, é o que eu acho e toda opinião que eu der aqui não tem nenhuma importância, mas é apenas uma opinião, o que significa que pode ser que tenha alguma importância, mas isso é só uma opinião, etc, etc, etc). Pois bem, falávamos dos políticos. Político é um tipo de animal que tem algum ressentimento e paixão por determinado tema. Isto é, o animal político é um adolescente. Um homem realmente adulto não se mete em política. O resultado disso é que as estatísticas serão lidas sempre por alguém meio poeta. Não me admira que o mundo da política produza tanto cocô. O que salva o mundo? Os adultos trabalhadores que honradamente trabalham para criar os filhos e que não acham nada, apenas sabem. Sabem que quem não trabalha não come. É isso: somos governados pelo achismo. Muita gente já veio brigar comigo porque eu escrevi na semana anterior uma coisa qualquer que eu achava. Então, explico pra pessoa que já não acho mais aquilo e que agora concordo com ela e que semana que vem posso deixar de concordar. Além disso, que relevância tem minha opinião? A pessoa costuma responder, que isso é apenas o que eu acho, pois ela acha que minha opinião tem sim muita importância e que eu deveria ser menos modesto, pois a opinião de uma pessoa é muito importante sim, é tudo o que ela tem, é o que faz com que ela exista, pois já nos disse o René que o pensamento é prova da existência da pessoa. E eu respondo “ah, isso era o que ele pensava, ele não sabia disso, ele achava”. Toda filosofia é apenas um eterno achar com algum embasamento, às vezes com nenhum. E há filosofias em vários níveis e nenhuma delas é a resposta para toda pergunta. Bem, acho que me perdi um pouco. Estava falando de minha conversa com o sujeito que acha que achar é importante e que eu acho que achar nüntäcünädä. Sei que devo estar errado, mas ouvi isso um dia e achei que a pessoa podia estar certa por achar que achar é algo relevante. Achar o contrário talvez isto sirva apenas para desqualificar Deus e o mundo ou nos chamar para uma vida mais criteriosa em que digamos “eu não sei” com mais freqüência. E diríamos tanto “eu não sei”, que, logo todos diriam apenas “ens”, que são as iniciais de “Eu Não Sei”. O problema é que sempre que alguém perguntasse “o que você acha disso” e você respondesse “eu não sei”, a pessoa responderia, “eu sei que você não sabe, quero saber o que você acha”. E você diria “eu não falo o que eu acho, só falo o que sei”. Talvez você respondesse “eu não sei o que acho, quando eu souber, eu falo”. E o outro: “quando souber o que acha ou quando souber, ponto?” E você: “quando eu souber, ponto!” E a outra pessoa: “eu não quero saber o que você sabe, quero saber o que você acha, por favor, não tire a poesia da nossa conversa, imagine se só falássemos do que sabemos e ninguém desse um mínimo pitaco sem importância em nada? Seria muito sem graça, você não acha?” E você: “eu não sei”. Tá difícil, não é? Quando Einstein falava sobre a velocidade da luz, não era apenas um achismo? Quando Demócrito falava de átomos, não era apenas a opinião dele? Talvez toda opinião tenha alguma semente. E quem acha nem sempre se acha. Apenas acha porque acabaria mudo se esperasse saber. E, apesar do que Noel dizia, só achando é que se encontra. Sigamos achando, achando, até que vejamos que estamos errados (ou não). Talvez o segredo para a opinião ter algum valor é exercitá-la e jamais se fechar no medo de estar errado. O dicionário, parece, foi feito pelos marxistas. Diz ali que eles, marxistas, são progressistas, como se alguma contribuição Marx tivesse dado para o progresso da humanidade. Já o reacionário, isto é, aquele que é contrário às idéias marxistas, é descrito pelo dicionário como antidemocrático, como se alguma democracia houvesse no comportamento dos seguidores de Marx sempre que chegaram ao poder. Marx que pregava como sendo o fim inevitável da humanidade a ditadura do proletariado é posto nos dicionários como guru daqueles que são favoráveis ao progresso da humanidade. Apesar dos dicionários, na prática o que se vê são governos reacionários em países democráticos e ditaduras marxistas. Na prática, o marxismo é o avesso da democracia e segue dando base a ditaduras eternas e o reacionarismo sempre ou convivendo com a democracia ou levando a ela, em ditaduras passageiras. Mas não é o que parece quando se lê o dicionário. “Conservador” é outro termo maltratado pelo dicionário. Segundo o Houaiss, conservador é a pessoa que defende o autoritarismo. Isto mesmo, está lá, só vendo mesmo para acreditar em uma coisa dessas. É como se Reagan fosse um ditador e Fidel Castro um democrata. Malditos tempos estes em que os dicionários são apenas ecos do que a malta ignorante repete. Parece-me óbvio dizer que conservador é “aquele que conserva”. Mas não é só isso, pois isso tornaria Fidel Castro um conservador do status quo cubano, o que é verdade, ele quer mesmo conservar sua política autoritária, mas isso não faz dele um conservador. Ele é um revolucionário e o será sempre. Por falar nisso, veja no dicionário como candidamente se diz o significado da palavra “revolucionário”. É de chorar de lindo. Na prática, sabemos que, revolucionário é apenas um jagunço com ideologia. Mas voltemos ao conservador. Esse sim é um termo por demais ignorado em sua essência e profundidade. Ao estudá-lo devidamente, mesmo alguns marxistas iriam concordar com seus pressupostos e quem sabe mudariam de lado. O conservadorismo é a ideologia contra toda ideologia. Assim, um conservador jamais queima a língua, pois não acredita em soluções humanas para todos os problemas humanos. E, uma vez que, desde que a humanidade existe, ela sempre teve problemas, o conservador pode sempre bater no peito e dizer: “eu não disse? Eu não disse?” O conservador acredita que, enquanto formos governados por políticos, isto aqui irá de mal a pior. Uma grande falha é que muitos consideram o conservador alguém avesso às transformações e à mudança. Nada mais falso. O conservador adere à mudança, desde que ela já tenha provado no tempo que era realmente fundamental, isto é, se a tal mudança for boa mesmo de serviço, ela se impõe e pronto. Isto é, a versão do software que o conservador usa não dá pau, pois ele não sai por aí comprando programas cujos bugs ainda não foram corrigidos só por serem novos. Um conservador pode, com isso, incluir a sua vida uma novidade por dia, mas não será o primeiro a fazer aquilo, ele quer que a novidade se imponha pela necessidade e jamais a quer apenas por ser novidade. É a prudência da mudança. Mudança sim, mas gradual e criteriosa. O passado jamais deve ser desprezado ou odiado. O fato é que o conservador gosta de viver em paz. Por isso defende o costume e a tradição, porque um costume só se cristaliza sob um clima de paz e sem a continuidade, as gerações se desconhecem. Dá para imaginar o povo judeu sem a tradição? Sem tradição é todo aquele povo que não existe. Tenho tradição, logo existo. Não tenho, ninguém me reconhece. Fé e razão não são opostos como muitos querem. Ora, se assim o fosse, falta de fé seria excesso de razão, mas tem muita gente por aí sem fé e sem razão ao mesmo tempo. A realidade, enquanto as duas brigam, assovia e olha para o teto. Se bem que tem muita gente também que vive fora da realidade. Geralmente quem vive sem fé nem razão, vive fora da realidade. Não é coincidência que aqueles que não têm fé tendem a duvidar também da realidade. É como se precisasse de fé para saber algo mais do que a própria existência. Por outro lado, essas pessoas que duvidam até da própria existência, sua “razão” é mais delirante que a razão do mais maluco dos doidos. Nessas pessoas, Deus é apenas mais uma vítima fatal de sua dúvida convicta. O que faz todo sentido, pois a realidade é a voz de Deus, então quem não acredita em Deus é apenas coerente em não acreditar em Sua voz. Compreender um mistério é uma contradição. Explicar um mistério é negá-lo. Acreditar na realidade não requer fé nem razão, basta ter um dos cinco sentidos, nem precisa ser gente. Porém, aqueles que não têm fé, automaticamente, pegam a própria razão e a utilizam para anular os cinco sentidos e ficam, graças ao delírio de sua razão, cegos-surdos-mudos, sem olfato e sem tato. Claro, que assim se acham geniais e acreditam que a eles ninguém engana. Claro, pois eles mesmos já trataram de aplicar em si mesmos doses suficiente de auto-enganação. São sem fé, sem razão e sem realidade. A razão serve bem como instrumento para as questões lógicas, mas a realidade, a voz de Deus, não é lógica nem científica nem matemática. A realidade apenas é e pronto. A fé tem sim relação estreita com a realidade, pois se baseia em fatos. Se Jesus fosse um assaltante e trapaceiro e ainda assim, depois de morto, ressuscitasse, ninguém acreditaria na promessa de Seu retorno. Os cristãos acreditam na volta de Cristo porque Ele se fez digno de confiança por meio de sua vida, morte e ressurreição (e age todo dia na vida do cristão). Então a fé se baseia em fatos. A razão, por outro lado é apenas um retrato bidimensional dos fatos. A razão é um poço de lacunas. Pela razão, você pode chegar aos fatos e pode chegar a lugar nenhum. Não é à toa que a ciência, castelo construído pela razão, viva em permanente alteração de conceitos, sendo a incerteza mesma um de seus pressupostos. Uma afirmação científica geralmente diz respeito aos limites do processo de medição dos fenômenos em determinada época (Ignorar é natural. O grave é ignorar que ignora). Quem não tem fé, repito, aniquila a própria razão, pois quem não tem fé é um ser desconfiado. Mesmo Cristo tendo nascido, vivido, morrido e ressuscitado como um Deus, ele não acreditam na Sua volta. Fé é questão também de boa-fé ou boa vontade. Para ter fé é preciso não ser um jumento. Deus não é para ser entendido. É para ser amado.(as mulheres também, por falar nisso). Eu não acredito em cientistas ateus. Ele não acredita em Deus e quer que eu acredite nele. Quem ele pensa que é? Deus?! Não é muito difícil que um sem-fé se julgue o próprio Deus, pois vive em um mundo muito particular e delirante, onde sua razão é suprema, mais do que a realidade. Se palavras ferem, o mudo é um homem desarmado. Se o olhar diz muito, o cego é um homem meio mudo. Dos três, o surdo é o mais afortunado, pois não ouve nem fala, porém vê e quem vê, ouve o que os olhos dizem. E, por nada falar, é também um homem desarmado. O cego tem a vantagem de não ter a realidade toda ela sobre seus ombros. O cego vive em um mundo virtual. Um mundo em que as coisas são vistas com mãos, ouvidos e olfato. Mundo em que a luz não ofusca, em que o fogo não ilumina (só queima), mundo em que a verdadeira escuridão são os móveis fora do lugar. Mundo em que cães, bengalas e a fé (em Deus e naquilo que lhe dizem os que enxergam) fazem o papel dos olhos. A imaginação é o olho do cego. O cego sem imaginação é um cego míope e precisa de óculos para falta de imaginação. O professor ensina apenas o que já existe, ele é, pois, um porta-voz do mesmismo. Todo professor é um criador de perpétuos repetidores de fórmulas. Só o autodidata inventa. Inventor não tem professor. Por que é chato cometer erros em público, é mais fácil inventar na solidão. A escola amedronta. Quem foi o orientador de Thomas Edson? Qual escola de inventores Santos Dummont freqüentava? A instituição e a obrigação de que se freqüente escolas é o assassinato do poder inventivo. Escola integral, então, meu Deus! Educação não é arroz. Quanto menos integral, melhor. Só o autodidatismo nos salvará. Sugiro que se acabe com qualquer escola em tempo integral e se comece a pensar na escola de meio período um dia sim outro não, de preferência terça e quinta (até a extinção), para que os meninos tenham tempo de exercer seu lado autodidata. Esse negócio de educação nos moldes de hoje é uma daquelas coisas que a modernidade faz parecer aos desavisados que sempre foi assim e que é coisa normal. Não é. Escola para criancinhas é uma das aberrações destes tempos. Os filhos sempre foram alfabetizados pelos pais (na idade média era pela mãe, na Grécia antiga era por algum escravo da família), depois decidiam em que gostariam de se aprofundar e, adultos, iam atrás. Eu era feliz na escola, nunca tive problema e fiz grandes amigos. Isto é, tirando as aulas, tudo era ótimo. Uma coisa que tenho que agradecer muitíssimo a minha mãe é que ela jamais se importou se eu tinha feito minhas tarefas ou não. Ela intuía que aquilo tudo não tinha a menor importância e que eu deveria apenas passar de ano e já tava bom e essa parte de dar conta das atividades escolares sempre foi comigo, o aluno. Tudo o que aprendi de relevante em minha idade escolar, aprendi com meus pais. Não consigo me lembrar de nada que tenha aprendido com professores. Se eu tivesse estudado em alguma dessas escolas que são objeto de promessas de políticos – a tal de freqüência integral – certamente eu seria muito mais bocó do que sou. Só o amor ensina e só o amor aprende. Um pai que podendo ficar com os filhos parte ou todo o dia os manda para a escola é um idiota e péssimo pai. Se eu tiver tempo, meus filhos freqüentarão o mínimo possível de escola e só por que isto é obrigado por lei. Não conheço casos de grandes homens que tenham sido educados em escola integral com professores estranhos. A escola integral fornecerá à sociedade uma quantidade mais que suficiente de maconheiros e vagabundos ou nerds deprimidos, pois são pessoas que foram amestradas mecanicamente e não educadas com amor, pois não se ama tanto assim os filhos alheios e muito menos os pais e mães dos outros. Prevejo que, indignados com o fracasso desse sistema, na geração seguinte haverá uma campanha para acabar com a escola integral e outra campanha pela escola em casa, coisa comum antigamente e atualmente também, em alguns países. Lugar de criança não é na escola. Lugar de criança é com a família. Lugar de qualquer pessoa é com quem a ame de verdade. As reclamações dos professores sobre a terrível vida que levam, de ganhar pouco e ter que agüentar crianças horrendas filhas alheias são muito justas. As reclamações dos pais de que os professores são despreparados são justas e dos alunos que não querem ir para a aula são também justas. Está todo mundo certo, o sistema é um fabuloso exemplo de um processo em que todos perdem. Porém, inexplicavelmente, todos acham que a escola (e mais, a escola em tempo integral) é uma maravilha, um exemplo a ser seguido. É triste este nosso tempo em que a teoria dissociada da realidade é o padrão (“o que acima de tudo nos interessa é o que é, e não o que o escritor diz” é o que nos diz Sertillanges). A escola institucionalizada deveria ser remédio e não alimento. E remédio se dá em doses estritas. Alimento é o amor. O escritor é o primeiro leitor de si mesmo e o leitor é o último escritor do livro lido, pois ler é escrever. Doido também tem razão. O leitor é a crítica personificada, pois maus leitores não costumam ler bons livros. Dá para saber se um livro presta perguntando quem o leu. Entre as linhas de um livro há outro livro escrito pelo leitor. O crítico literário é um gigolô das palavras alheias. Um livro é algo que alguém tem a nos dizer. O nosso improvável é o óbvio de Deus. Creio, porque é óbvio! Barulho é o grito da matéria ao levar um tapa. Matéria também é gente. As filosofias orientais quando chegam ao ocidente se ocidentalizam e se desorientam. Comprar um livro é uma das formas de jamais lê-lo. Nada é sério, exceto a graça. Os frutos do trabalho do pensador são de subsistência. O pensador não exporta. Hegel disse que ninguém aprende a nadar lendo um tratado de natação. Se você tem uma história para contar, mas lhe faltam palavras, faça um filme mudo. Escrever é pensar com os dedos. Escrever é descortinar a própria ignorância, pois, como diz minha mãe, o besta calado passa como sabido. As palavras envelhecem, o significado não, pois não existe espírito velho e a palavra é o corpo do significado. Só os corpos envelhecem. Palavras gritam e uivam são cheias de uis e ais. Alimentam-se e salivam, palavras são animais. Palavras se cheiram e trepam, matam-se e se seduzem, morrem de fome e prosperam. Palavras se reproduzem. Palavras comem e bebem. Palavras dão e recebem e correm atrás de carinho. E depois, cheia de dedos, revelando mil segredos, palavras choram baixinho.
Só há dois tipos de pessoas neste mundo (e muito provavelmente em todo o universo): eu e você. Dessas duas, a primeira é uma espécie muito interessante, uma terra de todo mundo. Vejamos, somente uma pessoa em todo o universo sou eu. Isso torna a coisa muito difícil para mim (ou para “minha pessoa” como muitos dizem), pois passaria a vida inteira, em vão, procurando outro da minha espécie. Não obstante, todo dia nasce alguém que chama a si mesmo de “eu”. São lunáticos, evidentemente, pois só pode existir um eu. Enfim, sempre quem fala se diz ser “eu”. O euismo é uma seita, uma ideologia arrasadoramente grande e todos se dizem pertencentes a ela. O pior é que todo mundo se diz ser eu e ao mesmo tempo todo mundo diz que todos os outros são “você”. Ora, se todo mundo é você, eu também sou. Esta pequena nota é para declarar a minha saída do euismo. Não sou mais eu, podem me chamar de você. Doravante, eu sou você. Declaro a paz a meus amigos “eus” (todos vocês aí). Podem me chamar de você à vontade, que não vou mais ficar brigando. Já vi muita discussão do tipo: – “hei, você!”; – “eu não sou você, eu sou eu”; -“não senhor, eu sou eu, você é você”; – “ah, você é sua mãe, você me respeita, eu sou é eu, rapá!”; – “vem aqui, que eu te mostro que eu sou eu”: “-ah, eu te mato, desgraçado…”. Pois é, deixem-me fora dessa, vocês que são eus que se entendam… Então, para não brigar, eu sou é você e pronto (mesmo que você saiba muito bem, que eu sou eu). Deus, o próprio Todo-Poderoso, quando perguntaram quem era, Ele disse “Eu sou o que sou”. Até Deus se diz ser eu (ou Eu). Taí uma autoridade. Então se eu não sou eu, ninguém mais é. Você aí, que me lê, pare de se chamar de “eu”. Eu, só Deus é. Sendo Eu, só Ele, então todos nós somos você, pois não pode haver dois deuses. Deus é mais que “eu”, Deus é “eus”, tá lá no nome Dele. D’eus, que significa “de todos os eus”. Assim como “dele” significa “de ele”, “Deus significa de eus”. Taí, a coisa devidamente explicada, límpida como água. O que me faz voltar à primeira afirmação, de que (e agora você também) não sou eu. Eu sou você e você também é você. Claro que você é muito mais você do que eu (e eu, muito mais eu do que você), isso não se discute. Sim, ninguém mais sou eu, pois se nem eu sou eu, quanto mais os outros. Todo mundo é você, inclusive eu, e não tenha medo, deixe de ser eu e seja você mesmo. Eu já deixei. Pois bem, lendo esse texto para uma amiga, ela me disse que está bastante confuso e que “eu” (“você”, ela disse) deveria desenvolver mais a idéia, para clarificar o assunto. Ainda tentei argumentar que Eu não poderia perder tempo com isso, pois o único Eu que aceito tem mais o que fazer e mais, segundo um filósofo medieval, Deus não fala com palavras. Então, pode esquecer, Eu não vou explicar é nada. Mas como ela disse “você”, então eu, que sou você (já disse isso), vou tentar explicar tudo de novo e rogo sua paciência leitora amiga (imagino que nenhum homem terá mais paciência de ler isto daqui para frente, é preciso ser forte como mulher para prosseguir). Comecemos, é simples. Há muita gente por aí fazendo textos dizendo por que não sou isso, por que não sou aquilo. E são as coisas mais óbvias. Aparece um ateu dizendo por que não é satanista. Um comunista dizendo por que não é de esquerda. Um direitista dizendo por que não é liberal, uma mulher dizendo por que não é feminina, etc. Então, eu, antes que algum gaiato diga, digo eu o porquê de eu não ser eu. A história é velha. Um poeta brasileiro dizia “eu sou trezentos”, o que é querer muito pouco, já que é para alucinar, não sejamos econômicos. Ao me declarar ser você, deixo de ser só eu e sou, assim, bem mais que os meros seis bilhões de pessoas do planeta terra. Sou também os seres extraterrestres e os seres de todos os outros mundos, inclusive os seres de outras dimensões. Pois outras dimensões da realidade existem sim, realidade onde existem seres amorfos sem nenhum contato com a vida e desconhecendo o prazer e a esperança e não estou falando do casamento, embora este seja de fato outra dimensão da existência, mas, do casamento há como retornar às três dimensões naturais, mesmo sendo muito doloroso o processo, sendo inclusive proibido pelas religiões. O fato é que no casamento, duas pessoas se tornam uma. Isto é, dois eus se tornaram um eu. Vejam bem a força desse evento e a relevância dessa questão. Então, como você destrói um ‘eu’? Não pode, pois “Eu” só Deus e não se pode matar Deus, por isso o casamento é indissolúvel, porque foi tocado pelo divino e, assim dois vocês se tornam eu da hora pra noite, isto é, casamento também é gente, gente em que o homem é o corpo e a mulher é a alma (ou vice-versa, dependendo do casal, ou sei lá como quando casal é gay). Quando o casamento morre, você volta a ser você, o que pode ser um alívio para muita gente, principalmente quando o corpo insiste em desobedecer a alma. É obrigação de todo corpo amar a própria alma. A lógica diz que “A é A” e que “’A’ não pode ser diferente de ‘A’” (o que prova por A + B que a lógica jamais veio ao Brasil). No caso de “eu” não podemos dizer “Eu é Eu”, fica esquisito, não fica? O certo seria “Eu sou Eu”, mas esse ponto é por demais controverso, já que “Eu” mesmo só Deus é. Também não se pode dizer “Eu não pode ser diferente de Eu”, o certo seria “eu não posso ser diferente de mim”, mas não é isso que a lógica quer que digamos, então esqueçamos essa história de eu e a lógica. Porém, se dissermos “Você é Você” e “você não pode ser diferente de você”, dá certo, então não vamos ficar quebrando cabeça e matando neurônios com algo tão simples, pois se “eu é eu” é inconcebível e “você é você” é possível, logo, logicamente, só “você” pode ser aplicado aos seres vivos desta e de outra galáxia. Isso está bem entendido, não está? Esperem um pouco, vou passar o texto para minha amiga, para ver se ainda está confuso. Daqui a pouco, eu volto. Vamos falar de outra coisa, enquanto isso. A crença em um Deus não se trata de preguiça de pensar, é exatamente o contrário. Preguiça mental tem aquele que, por não ver o invisível, conclui logo que ele não existe. A existência de Deus é uma questão de probabilidade. É mais fácil acreditar que Ele existe por uma questão de bom senso, não de preguiça mental. Digo isso, pois já fui ateu, mas minha fé foi diminuindo, diminuindo, diminuindo e hoje estou desviado das veredas do ateísmo. Assumi que não tenho fé suficiente para ser ateu. Cientistas dizem que Deus não existe e esquecem de dizer que tal afirmação não é científica e sim, no mínimo, religiosa, teológica, isto é, coisa que não é do ramo deles. Deveriam ficar calados sobre esse assunto. Por falar em ramos, em Brasília tem muita árvore e nessas árvores têm muitos pássaros que cantam muito. Gosto muito do canto dos pássaros, só não entendo direito as letras. Piu piu piu piu, que raios de letra é essa?! Os pássaros precisam urgentemente de letristas ou então têm muito que melhorar a dicção ou deveriam ainda ser apenas compositores e deixar o canto para os profissionais do ramo. Só por que eles vivem no ramo das árvores, pensam que são do ramo. O verdadeiro cantor é um pássaro que vive pousado no ramo da música. Ramo, ramo, ramo. A ciência é apenas um ramo da árvore da qual, o sobrenatural é de onde veio a força da semente. Não são incompatíveis, mais se tocam mais do que se imagina. A própria natureza está cheia de incompatibilidades aos olhos da ciência. Se tudo fosse simétrico na natureza como parece à primeira vista, teríamos dois corações. Tudo o que a ciência nos mostra é uma verificação à primeira vista. Em seguida nos mostra uma verificação à segunda, à terceira, à quarta, à quinta vista e todas elas podem se contradizer e se desmentir mutuamente, pois a neve de longe é branca e de pertinho é meio cinza. A ciência é apenas um método de medir. As leis da natureza têm um legislador. Esse legislador pode burlá-las, pois tais leis não se aplicam a Ele. É próprio da ciência buscar a origem das coisas e ela sabe que a origem da coisa não está na coisa, assim como a energia que move a coisa não é produzida por ela. De onde veio a energia que faz o universo girar? De dentro do próprio universo? Não seria científico acreditar nisso. Ok, voltemos ao assunto, minha amiga acha que agora está tudo esclarecido, então vou terminar esta história. Não insistamos no assunto, vocês (isto é, eu e todo mundo) já entenderam o que eu disse. Isto é, vocês disseram. Outra vantagem de não se ser eu é que, sendo você, nada que faço fui eu quem fez. Tudo o que eu fiz, o culpado foi você, o que torna leitor e escritor a mesma pessoa. Você que lê isto aqui, aviso-lhe que foi você quem escreveu este texto. Parabéns, tá muito bom, embora a parte inicial esteja um pouco confusa, conforme a opinião de uma amiga minha. Você é quem escreve o que publico aqui. Logo, você também é quem deixa de escrever quando não tem nada por aqui. Então, não me culpe, por qualquer coisa, quem faz e quem deixa de escrever o que aqui se lê é você. Eu existo, mas eu não sou Eu. Eu sou você. Chegamos, finalmente, ao ponto que interessa realmente. Demonstrarmos do modo mais insofismável possível, desde Santo Anselmo, a existência de Deus. Pois, prepare-se, lá vai. Ai, me dá uma preguiça esse negócio de provar a existência de Deus, mas vamos lá. Ai, meu Deus, que preguiça de fazer isso. Depois vai aparecer um chato citando Kant para desmerecer meus argumentos, esquecendo o chato que eu não tenho nada com isso, pois quem fez isso foi você. Então, vamos, a culpa é sua mesmo. É o seguinte, eu existo, não é verdade? Até Descartes concordava com isso. Até meu chefe sabe que isso é verdade, embora eu seja meio feito chifre de corno (existo, mas ninguém nunca viu). Mas não falemos de casamento, voltemos à prova da existência de Deus. Eu existo e Eu é Deus, mais que isso, Deus é eus, todos os eus possíveis. Então, pronto, não preciso falar mais nada, preciso? Deus existe, pois Eu, como sabem, é Ele. Só ele é Eu. Eu, por minha vez, sou você. E você também é você. Somos todos você, o que torna a sua conta de luz bastante alta. Enfim, é uma forma interessante que Deus tem de dizer, “Eu sou Eu e o resto é tudo japonês”. “Você deve ser a mudança que você deseja ver no mundo”, disse-nos Gandhi. Então, se você quiser mudar o mundo, já sabe. Pare de reclamar que o mundo é ruim, porque a culpa é sua. John Donne diz que quando uma pessoa morre, ele se sente menor. Claro, pois se todo mundo é você, quando outro você morre, os vocêses do mundo ficam menores. Então falam muito do egocentrismo, querendo parecer que o eu é centro da vida da maioria das pessoas, mas não é verdade. Você é muito mais importante. A criança pequena, como meu sobrinho de três meses, ele não tem a menor consciência de si ainda, mas da sua mãe ela tem, ele sabe e procura e espera e precisa dela o tempo todo. Quando o vejo virando a cabecinha a procura não sei de quê, já sei, evidentemente que não procura a si mesmo. Quem você pensa que é? É você que ele procura. E você, neste caso, é a mãe dele. Pois, todo mundo é você, inclusive a mãe dele. Veja você o quanto é prática esta tese. Com ela, tudo se responde. Sendo você o culpado por tudo, de bom e de ruim desta vida, você não precisa mais se torturar com os problemas do mundo. Pois, quem pode resolver tudo o que nos assusta, tudo o que nos deixam amedrontados e tensos? Ora, você! O que se deve fazer para vivermos em um mundo melhor? Bem, “o quê”, não sei, mas “quem” vai fazer, com certeza, é você. Você deve ser honesto, honrado, cumpridor dos seus deveres de cidadão, pai e filho, ou qualquer outro raio de papel você tiver neste mundo. Você é a saída para este mundo em ruínas. Você é a solução, pois você é o problema. E, por falar em John Donne, não pergunte por quem os sinos dobram, pois você já sabe, não é? Aliás, não sei por que os tradutores traduzem “bell tolls” por “sinos dobram”. Como assim, “os sinos dobram?” Dobram de tamanho? Dobram assim como se dobra uma toalha? Como assim? Nunca vi isso. Mesmo assim, se houver um sino por aí e de repente você olha e o tal do sino estiver dobrado, isto é, tiver aumentado de tamanho, não tenha dúvida, esse sino dobrou por você. Ou então, como é muito comum, você está andando pela rua e o vem um sino seguindo você, pulando em seu badalo, sorrateiramente. Você se vira e o sino pára. Você continua e o sino continua. Então dobra uma esquina e o sino também dobra. Não duvide, ele dobrou por você. Pois só você existe, quero dizer, todo mundo é você e você é todo mundo e assim sempre será. Não tem saída, você será você até morrer e quando você morrer, outro você nascerá.
Como vêem no post anterior, jamais acreditei na morte na Meg. Acontece que não acredito em morte nenhuma. Sou cristão e depois de Nosso Senhor Jesus Cristo esse negócio de morte é balela. Não acredito na morte de ninguém, nem na morte da Meg. O problema é que muita gente diz que ela tá viva, que forjou o desaparecimento por motivos sentimentais e isso faz dela, segundo o povo por aí, uma figura deplorável. Eu já desconfiava que o povo tem essa tese, de que defunto bom é defunto morto. É só saber que o defunto não morreu, que o povo desce o cacete no coitado. Antes, quando estava morto, era a melhor pessoa do mundo, agora que renasceu, não vale nada. Parece que o grande defeito da Meg teria sido não ter morrido. Se eu fosse a Meg, agora é que eu não morria mesmo, só de pirraça. Eis uma lição disso tudo: gente, só se deve acreditar na morte de alguém, se o morto mesmo em pessoa vier nos dizer. Tirando isso, pode ser que o defunto esteja vivo (as duas ou três últimas frases são irônicas, svp, o sério é que enquanto a Meg não aparecer me dizendo que está viva, para mim ela não morreu). Para mim não faz muita diferença, mesmo se for uma farsa, continuarei amando a Meg e reafirmando que o fato de ela ter morrido, não a impede que desmorra, pois é direito de todo defunto deixar de sê-lo. Defunto bom é defunto ressuscitado. Oi, Meg!
PS – O amor não é para amadores.
Eu já escrevi cartas para a Meg. Mais de uma, mais de duas. Foi em 1995, a internet era a carvão e manivela, que nos conhecemos. Um dia, a Meg me ligou e conversamos durante umas 10 horas e só paramos porque amanhecia e eu tinha que trabalhar, mas o assunto estava longe de terminar. Na Meg se presencia generosidade inigualável em seres humanos destes tempos, a ponto de ter sido a Meg quem, antes de todos, me chamou de escritor. Sempre tive a impressão de que as outras pessoas sofrem de atraso mental e espiritual se comparadas com a Meg. A Meg some de vez em quando e depois reaparece alegre, me ensinando coisas, me apresentando pessoas. Logo, a Meg reaparecerá dizendo que são meio exageradas essas notícias sobre sua morte. Perder amigos é como ser amputado e os amputados sentem pontadas, fisgadas e comichões nas partes perdidas, assim, o incômodo lhes fazem acreditar que jamais terão perdido o que perderam, e eis me aqui com coceiras pelo coração e pelo cérebro, partes gerenciadas pela Meg. Se este blog ressuscitou para falar da Meg, que dirá a Meg também, que vale muito mais que blogs. Até mais, Meg!
Post dedicado à Jules e ao WM Voltando de férias, afônico de tão rouco pedi a meu amigo André de Oliveira (que tinha um blog maravilhoso e fechou, coisa odioso essa de bons blogs fecharem, o que pede um blog coletivo chamado “sociedade dos blogs mortos” com textos do André, Felipe Ortiz, Juliana Lemos, Marcelo de Polli, Martim Vasquez, Bruno Gripp e tantos outros que, agora que qualquer um, até jornais, tem blog, pararam com essa coisa de blog para, quem sabe, se manterem na vanguarda ou para não se entediar por fazer parte de um “movimento” que aparece na capa da Época. Só pessoas de até 15 anos deveriam ter blogs, o que nos daria mais 3 anos do ótimo Blog do Biga), pois bem, eu dizia, pedi ao André, que é médico, que me receitasse um remédio para a rouquidão e ele, mui responsavelmente, me disse que o melhor remédio para o rouco é o silêncio. Eu lhe respondi que, semelhantemente, o melhor remédio para a pele também é a escuridão, mas as mulheres usam dezenas de cremes e que eu queria algo parecido com tais cremes. Só que para a garganta não existe creme. Tentei ficar em silêncio. Se condenar ao silêncio é como engessar um braço. A diferença é que não me engessaram a boca, então sempre se fala alguma coisa, ainda que com um fiapo de voz. Quando o telefone tocava, não sabia o que fazer. Quando o interfone tocou certa vez, desci para a portaria e perguntei o que era (era engano). Quando nos perguntam algo que a resposta é sim ou não, é mais fácil, mas fica difícil quando a coisa requer algum esforço silogístico, mas ia argumentando aos poucos, sempre falando mais baixo e quando terminava minha explanação, meu interlocutor está falando tão baixo quanto eu, é engraçado (havia também os que falavam comigo gritando e eu tinha que esclarecer “estou rouco, mas com meu ouvido está tudo bem”). O chato é quando vem – e sempre vem – uma vontade enorme de cantar um samba que exige um agudo (“tu não sabes amar, para quê tens um coração, ai meu Deus”), só resta ficar na vontade e imaginar a Teca Calazans cantando a bela melodia. O que ocorre é que as pessoas falam mais do que deveriam. Uma vez fiquei sem buzina no carro e, de fato, não precisei usá-la nenhuma vez até que a consertaram e saí por aí buzinando desnecessariamente, como todo mundo faz, como se no mundo não houvesse barulho demais. (me lembrei de Harpo Marx que fazia um mudo que vivia com uma buzina, como aquela do Chacrinha, que lhe substituía a fala, ele não falava, mas buzinava). Sugeriram que minha rouquidão fosse faringite, mas não era, pois nem comi tanta farinha assim para me atacar uma faringite (pausa para risadas). Pois é, cheguei das férias e tive umas férias maravilhosas, revolucionárias, eu diria. Conheci uma senhora que só come coisas boas para saúde porque só gosta disso. Ela saliva vendo um prato de granola e detesta açúcar. Ouvi uma criança falando para o meu amigo Manelão (que anda descalço há uns 30 anos, como São Francisco ele tem pés descalços e é poeta) que a chinela dele é “natural”. Ele achou engraçado. Visitei praias e cemitérios (tenho um morto novo, um tio muito querido). Conheci e amei pessoas. Fui abraçado e rejeitado pela mesma pessoa (a Tatá, minha sobrinha de 2 anos, seus mente suja). Lembrei de piadas antigas e esquecidas (a mulher na loja de armas: “a senhora tá comprando essa arma para se defender, não é?” pergunta o vendedor. “Não”, responde a mulher, “para me defender, vou contratar um advogado”). Outra, do Falcão que diz que nas rádios do nordeste é comum o locutor anunciar: “e agora vamos ouvir com o finado John Lennon, ‘Imagine’” (tudo pronunciado com sotaque paraibano). Vi a “Funerária União”. Não entendi, pois deveria ser “Funerária Desunião”, pois é isto o que funerária faz, nos desune dos nossos mortos (ou dos nossos vivos). Se bem que a Funerária União pode ser união mesmo, isto é, talvez seja especializada em covas coletivas ou genocídios, suicídios coletivos, chacinas, etc. Deve ter anúncios na tv local do tipo: “Amigo suicida, não tenha medo nem se dê ao trabalho, venha à Funerária União, nós matamos você para você!” Revi amigos que não via há décadas e foi maravilhoso, pois todos me acharam muito bem conservado. Poderia ter ficado mais, pois seria mais divertido com certeza, pois não há nada mais divertido do que ficar na casa de meus pais só os ouvindo conversar com meus irmãos e sobrinhos, pois eu sou a pessoa mais sem graça da casa, todos são mais engraçados e vou lá recarregar meus assuntos e apurar a técnica, embora seja frustrante ouvir uma tirada de meu pai e ter vontade de bater com a cabeça na parede por não ter pensado naquilo antes. Aquilo lá é meu mar, para onde eu, riacho, corro naturalmente duas vezes por ano. Fora o amor insubstituível que sentem por mim e eu por eles. Então, a rouquidão foi até barato. Um dia, com a alma calejada de pancadas de existência, com o espírito dolorido de tanto viver, com as costas arquejadas pelo peso dos anos, a pessoa acorda um dia e descobre que é um adolescente. É assim a vida. Anjos não precisam de chinelos. Aliás, jamais entendi por que o Superman usa sapatos. Se eu pudesse voar, não pisaria no chão. A mãe produzia leite condensado, os filhos eram diabéticos. Sem corpo, a alma dorme. Sem alma, o corpo dorme. O peixe, amestrado por de Heráclito, nunca nadava no mesmo rio. Os filhos de Heráclito nunca nadavam no mesmo rio. O que não se faz por uma idéia! A mulher reclamava, “ai, Heráclito, que exagero, e na piscina, a pessoa não pode se banhar duas vezes na mesma água da piscina?” O velho efésio já arrependido com a bendita frase, respondia “ah, numa piscina, vá lá, mas trocam as águas de vez em quando não trocam, da segunda vez tem urina, não é a mesma água mesmo? No aquário, a mesma coisa. Mas seria ridículo se eu dissesse ‘ninguém se banha nas mesmas águas duas vezes, exceto em piscinas onde não mijam, aquários e afins’, tenha dó!” A mulher retomava “oh, Heráclito, muda o disco, ninguém banha no mesmo rio, além disso, isto valerá pra qualquer coisa? Ninguém vai ao mesmo show duas vezes, ninguém come a mesma lasanha duas vezes, ninguém varre a mesma casa, ah, ninguém vai engolir isto, quer dizer, eu tenho uma amiga que não veste o mesmo vestido duas vezes, mas isto é raro, tem que ter dinheiro.” Pelo jeito, não era só o Sócrates quem tinha uma anta como esposa. Não é à toa que Wittgenstein não se casou, imaginem o que sua mulher não faria com sua frase “o que não se pode falar, se deve calar”? Salvo, evidentemente, caso se casasse com mulheres como as amigas que tenho, todas lindas e geniais. Respirar é uma coisa que ajuda bastante a pessoa viver. Brasília é como um pão-de-queijo, seca por fora, macia por dentro e é coisa de mineiro. Não há muita diferença entre dizer mentalmente e pensar mentalmente. Há pessoas que dizem mentalmente e pensam com a língua. Antigamente de alguns políticos se dizia “rouba, mas faz”. Hoje (nos ensina Reinaldo Azevedo) é “rouba, mas distribui renda”. O raciocínio deve ser sempre o contrário, “faz, mas rouba”, “distribui renda, mas rouba” e se rouba, deve cair fora, não importa se faz ou se distribui renda, babado, roupa usada ou o que quer que seja. Aquela orquestra era tão pobre que parecia uma mulher, só tinha duas trompas. Você não precisa de muito esforço para ter contato com Deus. Basta se abrir e deixar que Ele lhe invada. Ninguém recebe mais conselhos do que os felizes. Basta você estar muito feliz, que logo aparecem dezenas de amigos lhe aconselhando a mudar de vida. A essas pessoas costumo aconselhar que parem de dar conselhos. Mercenários entram em greve em protesto ao acordo de paz assinado pelas duas famílias mafiosas. “Possente, possente thà ,gran sacerdotisa” é uma ária de Aida de Verdi. Lá no meio dela tem uma flauta que toca exatamente uma parte de “A saudade mata a gente”. Se o respeito ao sexto mandamento fosse um valor nosso, tudo seria diferente. Os muçulmanos vêm aí para nos destruir. Eles nos desprezam e somos mesmo desprezíveis. Não obedecemos nosso Deus. Queremos o que há de bom em nosso Deus, mas não queremos amá-Lo sobre todas as coisas e nem reconhecê-Lo como nosso Senhor e com isto caminhamos para nosso fim, caso não mudemos a rota desta carroça. A importância de adotarmos o cristianismo em nossas vidas é fundamental para que mantenhamos aquilo que conquistamos graças a ele. Quando você não quer Deus em sua vida, você não O tem. Deus é um cavalheiro. O que acontece é que, desde Adão e Eva, sempre que Deus dá às costas ao homem (no sentido de deixar o homem se divertir sozinho), este faz merda. Depois volta chorando ao Pai, que, como todo pai, acolhe, perdoa, cura as feridas e tudo recomeça. Assustadora é nossa situação. Há campanhas que querem nos transformar em uma sociedade abortista, outras querem institucionalizar o homossexualismo. Enquanto isto, os muçulmanos vêm aí, sem abortos ou viadagem, encher nosso mundo de muçulmaninhos. A quem clamaremos por ajuda? Quem nos salvará dessa horda? O Chapolim Colorado? O Papa Bento XVI fala em sua primeira encíclica sobre o homem que abandona a Deus e depois quando as armas humanas não resolverem seus problemas, a quem ele vai recorrer? O fato é que hoje combatemos contra nosso Deus. Depois não reclamemos na eminência de sermos aniquilados por um povo que obedece ao seu Deus. Eles de fato não nos aniquilarão. Apenas ocuparão o lugar que era nosso. Nós mesmos nos aniquilamos. Os muçulmanos apenas ocuparão o lugar do cristão que não nasceu porque a mãe tomou pílula, do cristão que não nasceu porque a mãe o abortou, do cristão que não nasceu porque os pais se tornaram gays (portanto estéreis), do cristão que não nasceu porque cristãos já não mais existem. É em Cristo que a mulher ocidental alcançou sua dignidade. É o Cristo que impede o apedrejamento da mulher pega em adultério. E em São Paulo (o apóstolo, não o time) que diz que o corpo da mulher pertence ao marido e o corpo do marido pertence à mulher, pondo definitivamente fim à superioridade masculina sobre a mulher. O ponto da questão é: não basta à mulher moderna achar lindo e digno de ser seguido apenas a parte feminista do cristianismo. Ela deve achar lindo e digno de ser seguido todo o cristianismo, sob o risco de perder também a parte mais confortável da questão. E mais, deve acreditar na promessa de Cristo, enfim, ter fé em Jesus, nosso Salvador e trazer essa fé para a sua vida. Abandonamos Deus quando abraçamos o relativismo e cultuamos a dúvida. Hoje muitos voltam à religião por meio de crenças pagãs, como se Jesus não fosse de fato o que de mais novo há em matéria de religião. Mostrem-me uma religião (ou ideologia, vai) que seja superior a uma que se baseia no amor e no perdão. Hoje no mundo em que vivemos e no estágio em que se encontra a sociedade ocidental, adoramos adorar ideologias e como todas elas são desastrosas, criamos ideologias como o viciado que troca de narcótico, crente que o próximo não lhe causará mal como o anterior. Pegamos um acidente qualquer, como o homossexualismo, por exemplo, e o transformamos em ideologia. Pegamos uma idéia tosca qualquer (um acidente também) como o comunismo, por exemplo, e a transformamos em ideologia. Vamos transformando coisas fortuitas em ideologia e tais incidentes nos aniquilam, pois são mesmo aniquiladores em sua essência, pois se não o fossem, não seriam acidentes e o natural no ser humano seria o homossexualismo, o comunismo e o sexo sem reprodução. Deus quer que quando você fizer sexo, você tenha filhos. Filho é coisa boa. Jamais vi alguém em são estado mental falar mal dos filhos que têm. As crianças de minha família são maravilhosas e graças ao bom Deus que eles nasceram. Pois bem, milhares de crianças, indesejadas no começo da gravidez, hoje fazem a alegria de milhares de pais que abriram mão um pouco do controle que tem sobre a própria vida e confiaram em Deus. Dê uma parte de sua vida a Deus, pelo menos uma parte. Argumentar com os próprios atos, eis o grande desafio! Quem argumenta com palavras geralmente queima a língua. É possível não estar só e sentir-se solitário, diz uma revista. Pois bem, é possível também estar solitário e se sentir acompanhado. Quem tem Deus jamais está só. Do mesmo jeito que o cego enxerga Deus e o mudo fala com Ele, a solidão daqueles que amam o Senhor é uma contradição em termos. Não é impossível a um surdo cantar uma canção. Impossível é ele aprender a música. O destino do surdo cantor é ser compositor também, para ter o que cantar. Prometa a si conhecer as 4 sinfonias de Brahms, é para o seu bem. Jornais não deveriam ter caderno de cultura. Só quando alguém produzisse algo que pudesse ser considerado em importância a, por exemplo, A Sagração da Primavera (que é uma barulheira chata). Estamos sempre esperando reconhecimento, admiração e apreço das pessoas, enquanto isto Deus bate na testa. Burro é para puxar carroça, mas no Brasil eles entram para política. O homem é um animal com quem Deus dialoga. O livro tem a função de ocupar espaço e dar trabalho na hora da mudança. Assim como os teólogos estudam a ciência, os físicos deveriam ter uma matéria chamada “milagres”. Hoje quando alguém diz “cuide-se”, geralmente está aconselhando o uso da camisinha. A vocação de alguns para produzir merda chega a ser admirável, pela eficiência da produção, não pelo produto. Órgão Público são os genitais das prostitutas. O dinheiro não tem o menor respeito pelo dono. A Solidão é a real prisão O melhor lugar do mundo é onde temos quem nos quer. O que comem os participantes no intervalo de um suruba? É difícil uma suruba de canibais porque alguém sempre entende errado e espeta um e põe pra assar. O espelho não vê com bons olhos os narcisistas. Vão acabar com a propaganda de bebidas, como se as pessoas fossem para os bares assistir tv. A estrada da procura do amor humano é calçada com pedras de falsas juras. Se a Bíblia se bastasse e devesse ser levada ao pé da letra, a frase “a letra mata, o espírito vivifica” não seria um versículo bíblico. Preguiça é a covardia sem medo. Liberdade é dominar a vontade. A educação é outra parecida com a coerência. De que adianta uma educação marxista para todos? A educação sozinha não significa muita coisa. Educação para todos sim, seria ótimo, mas que tipo de educação? A que o MST dá a suas crianças? No quesito música insuportável, o Brasil tem produzido obras-primas. A opinião de um artista sobre a própria arte não tem importância. O problema não é crer em Deus. O problema é confiar no deus errado. Abraão, por exemplo, não era monoteísta. Ele acreditava em outros deuses. O Islã precisa urgentemente de um João Gilberto para modernizá-lo, sair dos três acordes. Todos os caminhos que levam até Deus levam também à liberdade. A escravidão é apenas uma coisa: a falta de Deus. Apesar desta vida maluca, eis uma luta diária, a conquista da delicadeza. Após cada comício, deveria haver um contracomício (ou um “semmício”), isto é, o povo deveria ficar para ser esclarecido sobre todas as bobagens, acintes e mentiras oriundas das bocas asininas de quem discursou. Após cada discurso desses de candidatos de esquerda em igrejas protestantes, tenho vontade de estar presente só para subir ao púlpito e falar das palavras fingidas que acabaram de ouvir, ditas por seres que jamais esconderam que são ateus, pró-aborto e que sempre cultivaram agendas escandalosamente anticristãs e em tempos de eleição urdem uma fé mais falsa do que nota de três reais. Ou você é cristão ou é de esquerda, as duas coisas são excludentes. A raiz do esquerdismo é justamente a negação de Deus e a idéia tosca de colocar o Estado no lugar de Deus. O político de esquerda sabe disto, então quando ele entra em um templo cristão para pedir votos, demonstra o quão realmente é ateu e no seu desrespeito ao pedir votos a cristãos nada mais faz do que tripudiar sobre o Deus alheio. Que enorme banquete satanás fará com as tripas dessa laia! Eu toco teclado qwerty (há também o teclado abcdefg, que é o teclado do piano). Não seja movido a internet. Viciado é aquele que não pode consumir algo. Por exemplo, alcoólatra é quem não pode sequer chegar perto da cachaça. Já, nós, que não somos alcoólatras, podemos encher a cara à vontade. O que significa que vício é apenas uma prisão psíquica. Basta você se libertar e voltar ao copo sem medo de ser feliz, amigo cachaceiro. A criação deste instrumento blog resultou na inclusão (ui) de todo mundo que tem acesso à internet e quer ter uma página ali. No começo, achei que era meio coisa de menina ou de gay, mas logo vi blogs com cara de livro bom e resolvi também dar minhas chapuletadas. E é muito bom ter um blog. Você experimenta, experimenta, escreve o que quer até criar uma linguagem parecida com você, é muito divertido. Faz amigos, aprende, descobre que muita gente não gosta de você e no fim das contas o resultado é como em sua vida pessoal, no meu caso, com poucos amigos, mas amigos de nível elevadíssimo, como poucos poderiam ter, o que me faz concluir, que pessoas de alto nível são bem humoradas e que a falta de senso de humor é um tipo de burrice. No começo o pouco que se salvava da blogosfera era o Alexandre, o FDR, o Ruy Goiaba, o pessoal d’ O Indivíduo, depois a Meg abriu seu blog e eu criei o Pró Tensão. (Esse nome, que não é um palíndromo, é sim, um trocadilho e uma citação meio enviesada de uns versos do Tao Te-King). Este blog nasceu em 10 de janeiro de 2003, o que significa que faz agora em agosto, 3 anos e meio e já publiquei quase três mil posts (este é o post n° 2.970 – noves fora, zero), coisa bem rara de se ver, pois blogs não duram muito mesmo, por razões várias, mas a principal é, como diria o Jaiminho, a fadiga. Em novembro de 2003, fui convidado pelo Wundermeister Marcelo de Polli para entrar para os Beatles e nosso livro Wunderblogs.com saiu pela Barracuda em julho de 2004, graças a coragem empreendedora do Freddy Bilyk e a paciência, talento e doçura da Isabella Marcatti, nossos maravilhosos editores. Falam muito na relatividade do tempo, que ele passa rápido quando estamos felizes e lentamente quando as coisas estão difíceis. Tenho verificado, porém, que o tempo tem progredido e o que sinto é que o tempo tem voado cada vez mais velozmente em qualquer situação, boa ou ruim, e que os noventa primeiros anos de nossas vidas passam muito rápido mesmo. Há também em nós uma vontade de que o tempo passe mesmo, que nem é auto-sabotagem, pois queremos que as coisas se sucedam, que as fases ocorram, que a hora do almoço chegue, que o gozo aconteça, que o fim-de-semana chegue e quando ele chega, que sábado chegue e quando sábado chega, corremos atrás daquela coisinha melhor do nosso sábado e ela só acontece se o tempo passar e no segundo seguinte pensamos no próximo sábado e assim, puxamos o tempo pelos cabelos, enquanto ele nos leva pelo braço. Uma urgência: devolver a alma de alguém. Na casa mal-assombrada, quem é morto sempre aparece. O passado é um fantasma. O passado é a prova de que fantasmas existem, pois nada mais real do que o passado. De fato, dos três, futuro, presente e passado, só este existe, persiste e há em abundância. Os outros dois são meras miragens. Admiram-se quando digo que não gosto de escrever. Pois não gosto mesmo. Escrever é coisa para secretárias, digitadores, datilógrafos e companhia. Gosto de pensar e o escrever é conseqüência disso. É como se fosse o subproduto do ato de pensar, que tem que ser expelido, para dar lugar a outro pensar. Ora, não acho agradável expelir nada, mas tenho que expelir e me sinto aliviado. Ah, mas eu gosto de brincar com as palavras (como os palíndromos e alguns haicais), mas não creio que fazer palíndromos possa se chamar de escrever. Escrever é se usar palavras para dizer algo. Já essas brincadeiras com palavras e letras, elas são O algo a ser dito. Quem faz um poema concreto, por exemplo, não é um escritor não, pelamordedeus. A cabeça da serpente pessimista pensa que é só rabo. A serpente é uma girafa sem as quatro patas. Quando vão fazer um filme chamado “Nascido em 11 de setembro”? Só o mar atrapalha o pescador. Só a distância atrapalha o corredor. E o atrapalho é tudo o que eles querem. Livro de auto-ajuda para corredores não traz conselhos para que ele pare de correr. Há um só Deus, mas há muitos adeuses. Quisera eu, que, como Deus, só houvesse um, só um e não mais que um adeus. Ou menos que isto. Nenhum. Que só houvesse mesmo Deus e nenhum, nenhum adeus. Eu não sei por que amo um monte de coisa. Amo a música, amo as palavras, um bom livro, uma linda poesia, amo meu Criador, amo Cristo que morreu para me salvar mesmo sem eu merecer, quem amo, amo sem saber o porquê (junto e com acento). Deus nos fez porque (junto e sem acento) Ele é Amor. Um amor que não se conteve e produziu estrelas, planetas, um lindo universo, para então criar um ser, que sopraria nas narinas o fôlego da vida. E esse ser Seu companheiro no exercício da contemplação e do amor. Fomos feitos para amar. Amamos por instinto. E um dia, se alguém tiver muita sorte, Deus criará um outro alguém decretado por Deus para aquele alguém amar. Se eu chamar e alguém não vier, penso sempre que a pessoa não quer nem me ver pintado. É o lado ruim de ser cavalheiro. Um cavalheiro jamais se impõe, é como Deus. Deus não obriga ninguém a amá-Lo. Já um cavaleiro vai atrás de sua donzela que está presa no castelo. O homem ideal é uma mistura de cavalheiro e cavaleiro. As flores são colhidas, expostas depois, recolhidas, pálidas de sol são substituídas e a natureza refaz seu ciclo. A mulher não é uma flor. Não é semente nem fruto que se colhe e põem à mesa. É sim, o supremo invento do Autor da natureza. Se o sol queima a pele dela, vê-se o não fugaz encanto, uma vez que não é flor, pois fica ainda mais bela. Tem arsenais de beleza e o destino de ser mais que flor de mais majestade e esplendor do que toda a natureza. Caprichosa, simples e extravagante, nutrindo-se de vestígios de amor, sempre viva, vai rompendo escuridões. Sincera, sensível e exuberante, florescendo a qualquer tempo, ignorando as estações. O presente só existe, isto é, só dizemos que ele existe justamente quando saímos do tempo e vamos para aquele eterno presente que na verdade não é presente, pois sequer é tempo. Conversando com uma amável amiga dia desses, eu falava que o prazer de tocar um prelúdio de Bach é comparável a ver um ótimo filme e a namorar quem amamos. Em tais momentos, saímos do tempo e experimentamos um pouco o paraíso, quer dizer, a eternidade, onde não há tempo. Um famoso celista disse que tocar Bach sozinho é o paraíso, porém, tocar a mesma peça de Bach em público é o inferno. Sempre senti o mesmo e achava que era coisa de músico amador. Há alguma coisa aí que é própria da música barroca, acho. Namorar também é assim. Se você for obrigado a namorar em um palco para que todos vejam, seria um inferno. Voltando ao tempo. O tempo passa. Mas a verdade não passa. A verdade é o que se passou no tempo, a verdade é o passado, por isto ela não passa, pois se o presente nos escapa o tempo todo (e deixa de ser presente o tempo todo), o passado jamais deixa de ser passado. A pregação igualitarista, as denúncias contra “as desigualdades” quando toma conta da cultura de um país costuma ser muito eficiente na produção de inveja e ódio pelas camadas sociais detentora de menos bens. Geralmente tal cultura de vitimistas é fomentada pelo próprio Estado, suposto detentor do poder de resolver “o problema”. Quando a inveja se transforma em violência, os donos do Estado têm os argumentos que precisam para implantar a tão sonhada (por eles) tirania. No Brasil, país de gente passiva, essa agressividade é diretamente fomentada e financiada pelo Estado a grupos que nada mais são do que o braço armado e violento dos burocratas de plantão. Esquecem-se de que é burra, a idéia de forjar o cumprimento de profecias. Isto é, não que não seja a coisa mais natural do mundo que as pessoas queiram mudar de status (para melhor), o que significa, em algum sentido, que somos mesmo naturalmente invejosos. O invejoso pode se comportar, sob frustração, com violência. Se tal inveja for endêmica, naturalmente hordas de invejosos frustrados sairão por aí, sei lá, depredando o Congresso Nacional. Porém esse tipo de coisas naturalmente não se daria ou até poderia se dar caso se tratasse de um evento profetizado, isto é, decretado pelo destino. Um encontro de invejosos com esse intento só se dá “assim do nada”, quando é forjado por fabricantes de profecias, coisas que os marxistas, para horror de Marx, são especialistas. Se você for de esquerda e achar bonitos os ideais marxistas, ótimo, é um direito seu. Porém, tenha coragem e honestidade de perceber que esse povo aí que está no poder não serve. Coloquem outros esquerdistas no lugar deles. Qualquer esquerdista, menos esses enlameados. A questão aqui não tem relação alguma com esquerdismo ou direitismo, o problema são os alicerces onde bailam a esquerda e a direita. Até em gafieira tem estatutos. Urge que os formadores de opinião gritem essa verdade básica: o básico está sendo desobedecido. Esta verdade óbvia: estão ignorando o óbvio. Por uma fatalidade, dessas que vem do além, a esquerda escreve mal e a direita escreve bem. Deve ser essa a explicação para grande massa de esquerdistas que lê Reinaldo Azevedo, Alexandre Soares Silva e liam Paulo Francis, pelo menos as caixas de comentários de páginas de direita é cheia de comentários de esquerdistas. Imagina se eu perderei tempo lendo blogueiro defensor de uma ideologia que eu discordo? Mas, enfim, o marxismo é mesmo uma espécie de masoquismo, essa pode ser outra explicação para os canhotos vermelhinhos serem grandes fãs de escritores que odeiam. Mas ainda fico com a primeira hipótese, o masoquismo, típico de quem não crê em Deus, pois também o ateísmo é masoquismo. De veio em veio, eu me fiz fonte. De grão em grão, um canteiro. De chão em chão, o horizonte. De meio em meio, fiz-me inteiro. De tanto estrume na cabeça, nossa mente fica fértil. Sou um matuto. O maturo absoluto. Pode ser esquisitice. Contra a qual eu já não luto. Já lutei, mas não tem jeito. Foi assim que eu fui feito. Desse jeito todo bruto. E por mais que eu lapidasse. Ficava inda mais matuto. Ia mais me matutando. Era assim que eu melhorava. Tem gente que pra matuto. Tem que se deslapidar. Já eu, tanto fez ou tanto faz Se melhoro ou se pioro. Não sei se rio ou se choro. Mas desde que sou menino. Trago em mim esse destino. A sina de matutar. Um dia desses recebi um email, uma resposta, do poeta Jessier Quirino, para quem não conhece, ele é, mal comparando, a mistura de Patativa do Assaré, Xangai e Falcão com uma pitada de doçura. Na resposta, danei a imitá-lo, a fazer uns jogos de palavras parecidos com o que ele faz. Temos esse impulso de imitarmos a quem amamos, talvez só assim, acharemos nosso próprio caminho. Mas que é esquisito e até ridículo, isso é. Imaginem um concerto com Luciano Pavarotti e toda a platéia cantando junto com ele. Dá vontade de mandar aquela malta calar a boca e deixar só o grande tenor dar seu show. Imaginem pessoas levando violinos, violoncelos, trompas e clarinetas para também “cantar” junto com a orquestra a que vão assistir. Da mesma forma são os comentadores de blogs. São platéia cantando junto com o Fábio Jr o seu grande sucesso “senta aqui” ou “quero colo”, como se fora o artista que tivesse ido vê-los cantar. Como se o Alexandre Soares Silva, cansado de Nabokov, tivesse feito o blog só para ler seus comentadores. Putz! Enfim, no email seguinte, pedi desculpa ao poeta e me comportei como gente séria e normal e não cantei junto. Não cantem junto, gente. O artista que se preza despreza isso (eu não sou um artista que se preza, pois adoro meus comentadores). A dialética é um dos vícios de nossa raça. Por isto, costumamos agir contrariamente ao que defendemos ou temos a mania de acredita com ardor naquilo que detestamos fazer. Há muitos poemas de suicidas dizendo o quanto a vida é bela. Ao contrário, nem imaginem que quem fala mal do Brasil ou da vida tenham a menor intenção de se livrar de um dos dois. Há mesmo a natureza intrínseca das coisas que obriga que a realidade assim seja. Por exemplo, a política, coisa que mais necessita de pessoas honestas, é geralmente hospedaria de bandidos. Isto é, o bandido, que por temperamento deveria ser tudo menos político, busca nela um equilíbrio de suas tentações e vai lá “dialeticar” na vida. De tensões semelhantes vem o sabor da vida. Pensava nisso quando chamei este blog de Pró Tensão e observando a vida, fiz muita graça, graças a Deus, em cima de nossas graças e desgraças. Fui muito bem recebido por gente muito generosa e amorosa (e de muito bom gosto e charme) e deste blog só ganhei coisas boas em momentos difíceis da vida, que eu precisava mesmo de carinho. Ainda preciso, sempre precisarei do amor de Deus e do carinho dos amigos (todo mundo foi feito para ser amado), porém, atualmente manter o blog se tornou dolorido e em seguida se tornará impraticável. Quem não tem problemas de falta, geralmente se queixa de excesso. Envelhecer é ir deixando de comer coisas e de ir a lugares. A função de um professor é nos impedir de ler os livros errados. Nosso legado cultural só nos ajuda a adquirir os livros, para entendê-los, precisamos do Espírito Santo de Deus. Ocorreu-me outra coisa, que, sendo fábricas humanadas de contradições, deveríamos entender as razões de quem discorda de nós, nesse sentido, Nosso Senhor nos exorta a amar nossos inimigos e rezar por quem nos persegue, até porque nós mesmos somos amiúde nossos próprios inimigos e sabotadores de nossa própria vida. Amar o inimigo é tratar o outro como tratamos a nós, pois se nós, que nos prejudicamos, queremos nossa própria felicidade, àqueles que nos quer prejudicar, também deveremos dar o crédito de compreensão que jamais deixamos de dar a nós mesmos. Quer ver mais tensões? O Brasil, por exemplo, que é um país bonito, então o povo capricha na própria feiúra. O maior problema do Brasil é a pauperolatria. Aqui se cultiva a pobreza por questões estéticas (ou anti-estéticas). A maioria, ricos e pobres (coisas que no Brasil se mistura), acha linda a feiúra. Quanto mais a moda é feia, mais o povo acha bonito (nos diz o poeta Juraíldes da Cruz). Para compensar a beleza do Araguaia, o povo da beira ouve música ruim. Aqueles poucos que ouvem música bela, nem olham para a beleza da natureza. O povo brasileiro gosta da pior pobreza que existe, a pobreza da beleza e esta é responsável por todas as outras pobrezas. Temos que lutar sempre contra o exílio da beleza de que somos tentados por viver nesta bela terra sem tufão e outras coisas feias. Isso é muito triste. Então, sem tristeza, agora que é lançada esta Antologia, anuncio que este é o último post do Pró Tensão. Obrigado a todos. Que Deus seja louvado!
Após alguns anos morando lá, ele descobriu que ali era um hospício e ele, evidentemente, era um doido. Contou, animado, a revolucionária descoberta para os amigos e ouviu: “tá maluco!” A partir disto, passou a ser tratado pelos outros como um demente. Não era a primeira vez que era tratado pelos seus pares como um matusquela. Desde que nasceu sempre o consideram um lunático, de tal maneira que o internaram no hospício. Agora era a vez dos doidos de verdade o julgarem um doido. Logo agora que possivelmente estava bom, pois pela primeira vez tivera a noção correta de sua situação. Sentiu-se feliz. Era doido sim, porém, na opinião de um bando de birutas. Sentiu-se normal mesmo proscrito e marginalizado pelos amigos. Já estava acostumado. Pensava o tempo todo: “que loucura, meu Deus! Que loucura!”
Depois da consumação dos séculos, no céu, Adão e Zaqueu, um cearense vendedor de cocos, se encontram. Foi muito emocionante o encontro dos dois. Um evento decerto sonhado por ambos e escrito nas estrelas. Adão, como se sabe, foi o primeiro homem, feito por Deus. Zaqueu foi (ou terá sido) o último homem nascido. O último indivíduo da raça humana e o primeiro se cumprimentaram com um longo abraço, trocaram emails e emocionados Zaqueu disse, “me liga”, “passa lá em casa uma hora dessas” e se despediram. Jamais se encontrarão novamente, afinal, Zaqueu é brasileiro.
Quem não faz Gol, faz Varig.
O homem se esforça em encontrar Deus. Deus, porém deve também “querer” ser achado. Se Deus não quiser, o pobre do buscador terá trabalhado em vão. E mais uma vez irá desesperadamente atrás do Criador, que mais uma vez se esconderá muito bem dele. O santo homem, então, no fim dos tempos, no julgamento final, será salvo, apesar de, ao dá-lhe a absolvição, pensará Deus com seus botões celestiais “esse chato de novo”. No paraíso, junto aos outros bem-aventurados, se gabará de ser o único ali que foi salvo por esforços próprios e não pela graça e amor de Deus, que, na verdade, foi vencido pelo cansaço. Neste momento o orgulho acomodou-se em su’alma e o leva inopinadamente para o inferno, para largar de ser mal agradecido.
As coisas estão aí para serem usadas. Use direito sua raiva. Use bem sua inveja. Capriche no uso de sua ira. Deus é supremo em tudo e, sobretudo na arte de transformar o mal em bem. Eu por exemplo, sinto uma inveja linda dos sanfoneiros. Devem ser as pessoas mais felizes do mundo. Os palhaços, acho que são tristes. Mas o sanfoneiro parece que vai voar quando sua cento e vinte baixos abre as asas e canta. Há tanto o que se aprender com o sanfoneiro, não sei bem o quê, mas que há, há. Vamos por partes, o “cada um por si” é o natural do ser humano. “Projetos coletivos” é que é algo estranho, é que é uma moda e as tentativas de levá-los ao extremo gerou Stalin, Mao Tse-Tung e Fidel Castro. Isto é, o neoliberalismo não inventou o “cada um por si”, apenas o neoliberalismo é o capitalismo após o comunismo, isto é, o capitalismo sem Deus, e aí, danou tudo. A grande vantagem do capitalismo sobre o comunismo não era o fato de que o capitalismo só sabe gerar riqueza e o comunismo só sabe gastar. A grande vantagem era que o capitalismo era cristão e o comunismo era ateu. O cristianismo é um verdadeiro achado, pois ali há um individualismo bom, isto é, o indivíduo é julgado pelo que fez de bem para os outros. Nesse intento, cada um por si, tentará salvar a própria alma usando as armas do amor ao próximo. Essa noção se some no marxismo, pois é uma ideologia atéia e, mata-se Deus e passa-se para o Estado a obrigação de fazer o bem, putz, não há idéia mais tosca. Como o comunismo não deu certo, o capitalismo declarou-se vitorioso e os países comunistas agora obrigam seus cidadãos a serem capitalistas, então surge um capitalismo esquisito, um capitalismo ateu, isto é, sem a melhor parte do que o capitalismo tinha. O capitalista inteligente (ou minimamente cristão) sabe que enriquecerá se inventar uma coisa qualquer que facilite a vida das pessoas. O caminho para a riqueza é este: facilitar a vida das pessoas. Porém, ninguém faz isto se não for recompensado. A ação humana é dirigida pela recompensa. Se a isto chamam individualismo, então individualismo não é nem defeito nem qualidade, é um fato e contra fatos não há argumentos (não se deve confundir “individualismo” com “egoísmo”, este sim, intrinsecamente mal). O grande erro dos projetos coletivos é esse de querer mudar a natureza humana, pois todas essas ideologias sanguinárias são filhas de Rousseau, que acreditava que “o homem nasce bom”. Não nasce não, o homem precisa da graça de Deus para ser bom. A “França da solidariedade” trata-se de um dos países mais estúpidos da história da humanidade, que desde a Revolução de 1789 vem dando espetáculos dantescos à humanidade. Há um livro chamado “A Fabrica de Desempregados”, em que a autora, uma francesa chamada Beatrice Majnoni D’Intignamo prevê o que ocorreria a França neste dias por causa desse monopólio da bondade que a sociedade deu ao Estado. Não é papel do Estado a administração do bem-estar de seu povo. Um texto do Le Monde reclama que a solidariedade está em frangalhos, claro que está, ninguém mais tem medo de ir pro inferno. A evolução do ser humano sozinho é o mesmo que sempre foi quando o homem virou as costas para Deus. O fato é que ou você serve a Deus ou ao mal, não há meio termo. Não há como ser bom, sem Deus ali lhe lembrando disso o tempo todo. Uma coisa interessante no texto do Le Monde é a frase “Não raro esses militantes da solidariedade se sentem decepcionados com a política, na qual eles não mais encontram o que procuram para satisfazer sua vontade de engajamento coletivo”. De fato, a tal da politicagem é o acento circunflexo da palavrinha cocô (como diz o poeta Jessier Quirino). Eis um dos grandes defeitos dos sábios de nosso tempo: a ingenuidade em acreditar que as ações políticas podem melhorar a vida das pessoas. Jamais melhoraram, não sei por que o fariam agora. De fato, se você tem uma idéia incrível para ajudar seu semelhante, você deve mesmo arregaçar as mangas e, com seu dinheiro, tocar tal projeto. Se você montar uma ONG e essa ONG começar a receber dinheiro do governo, você será o primeiro a torcer para que o tal problema se perpetue. Então esse tal “engajamento coletivo” muitas vezes é mero disfarce para assaltar os cofres públicos. Isto é, não acredito na bondade que quer se institucionalizar. Lobby do bem para mim é uma contradição em termos. Confunde-se muito “esquerda” com solidariedade (basta ver todos os políticos de esquerda quando estão no poder como agem, isto é, do mesmo jeito dos políticos de direita, isto é, o interesse de permanecer eternamente no poder). A solidariedade da esquerda é o famoso cumprimento com o chapéu alheio ou como diria o Lobão é o gozar com o pau dos outros. O tal “interesse geral” tem servido tão somente à demagogia de políticos de direita e esquerda, vem daí a necessidade de um estado pequeno. O fato é que foi por causa da economia de mercado que os países ricos enriqueceram. No fim do século XIX, o PIB do EUA era menor que o PIB do Maranhão. O caminho que os dois países tomaram, um com um choque de capitalismo e o outro com um choque de paternalismo é o que explica a situação dos dois atualmente. Devemos discutir sempre o papel do Estado, principalmente hoje no Brasil em que, parece, a sociedade tem optado mais uma vez por um Estado paternalista. Dias piores virão, principalmente porque os “pais” de plantão, é, na verdade, no dizer do Procurador Geral da República, uma quadrilha que se apropriou do Estado brasileiro. Que Deus nos ajude. O outro assunto é a questão do individualismo moderno que é mesmo fruto do cristianismo e do capitalismo, com ótimos resultados para quem o abraçou com amor, sinceridade e honestidade. Porém, não é crível um mundo de homens livres sem conflito. O conflito (e a guerra, seu mais terrível momento) é fruto do conflito de liberdades. O problema é que algum idiota culpou o capitalismo pela Segunda Guerra mundial e sugeriu que o Estado deveria intervir e cortar as asas do liberalismo econômico instalando-se as ordens de Lord Keynes que nos governará até o fim do mundo. Mas é óbvio que a tal mão invisível do mercado trará conflitos, pois certamente trará progresso, riqueza, dinheiro, muito dinheiro. Não é possível não existir conflito onde exista muito dinheiro. Pois onde há dinheiro há inveja. Os países que adotaram a economia de mercado ficaram ricos, tão ricos que em suas fronteiras não cabiam mais o dinheiro que tinham. Então os ricos daqueles países resolveram investir em outros países. Os países beneficiados com essa grana ficaram putos com isso e começaram a chamar os países ricos de imperialistas e exploradores etc. Enfim, é o que ocorre hoje entre a Petrobrás e o Evo Morales. Eu sendo rico não titubearia em simplesmente tirar meus investimentos de países mal agradecidos. Mas os anticapitalistas acham certo é que os países me tomem o dinheiro que eu investi em seus países. Putz. O certo é que se tem uma coisa que a mão invisível do mercado jamais garantirá é a harmonia entre os homens, pois há muitos males sociais que não têm nenhuma raiz social. Há diversos problemas sociais que sempre existirão e que não têm causa na luta de classes ou qualquer outro tipo de conflito social. Há diversos problemas sociais que não são causados pela pobreza ou pelo analfabetismo. Há diversos problemas sociais que não são causados pela exclusão, má distribuição de renda ou qualquer outro clichê do discurso socialista. Essas centenas de problemas de causas não sociais jamais serão resolvidos pelo Estado, quer dizer, por algum artifício de engenharia social. A política jamais será o remédio de todos os males sociais. A economia de mercado tem sido o remédio de alguns desses males. Abolir a economia de mercado é um remédio que vai matar o doente. E dar ao Estado a possibilidade e o direito de ser um agente mercantil é abolir a economia de mercado, pois a mão deixa de ser invisível e se torna a mão (ou as mãos) do burocrata de plantão e de sua quadrilha. É preciso que voltemos a nosso estágio humano de antes de sermos o animal político ou ainda, antes de sermos o animal cidadão titular de direitos e deveres. Antes disso, há que se perguntar que direitos são esses e que deveres são esses. Só após se estabelecer essa base é que poderemos decidir que tipo de Estado nós precisamos e queremos. Nessa base fixaremos nossa sociedade. É importante que nossa base seja fixa, senão caímos. Aí sim, sob essa base, todos nós seremos iguais, isto é, todos obedecerão aos pressupostos dessa base para que o corpo social não desabe. Então TUDO que diz respeito a uma sociedade deve começar desses pressupostos. Quem não obedece a tais pressupostos são degredados, mandados para a prisão para serem reformados, são enxotados das relações políticas até que provem merecer algum crédito. Não importa se são eficientes, talentosos, se são bonitos, inocentes, gente boa etc. O critério primeiro e eliminatório é O BEM. O que é O BEM no jogo político? É simples, são meras ações baseadas na ética. Então, se há um grupo que trabalha com cocaína e armas, isto é com produtos ilegais e destrutivos, mesmo que esse grupo seja bonzinho para a comunidade, dê segurança, saúde, casa, comida, roupa lavada, deve ser enxotado e digno de repúdio à priori, por todos. Pois, não atenderam ao primeiro pressuposto. Há um grupo no poder que dá bolsa-escola, vale-gás, bolsa-família, casa, comida e roupa lavada para todos os habitantes da nação, mas se esse grupo é uma quadrilha que compra políticos, que tem relações obscuras com regimes autoritários, se vive mergulhado na lama de escândalos, assassinatos, coerção de testemunhas, fortes suspeitas de terem sido eleitos com dinheiro de traficantes dos quais são irmãos ideológicos, esse grupo deve ser repelido e visto pelo povo com desprezo, do contrário significa que vivemos em uma sociedade de cegos ou pior (muito pior), que vivemos em uma sociedade que elegeu uma base podre para se fixar. A coisa mais importante para se fazer uma casa são os alicerces. Não adianta você ter um excelente material de acabamento, sem o alicerce, você pode dispensar todo o resto, pois você não é doido de adquirir ótimos azulejos, excelente esquadrias, caríssimas pias e jogar tudo sobre um alicerce de areia movediça. É isto que tem acontecido neste nosso pobre país. A primeira coisa a fazer seria retirar os atuais engenheiros que nos trazem tal proposta de tentar construir um país sobre a areia movediça. Mandá-los para o limbo com suas carradas de lindos azulejos, belos tijolos e magníficas tintas, enquanto insistirem em usar a areia movediça, o lamaçal e o lodo como base de nosso país. Mas não, o povo, assim como admira e chora a morte dos traficantes de cocaína, se prepara animadamente para reeleger os enlameados que lhes dá duas mariolas todo mês e só por isto, que importa se a mariola vem suja de lama?! Jesus perguntou a um cego de Jericó “que queres que eu te faça?”. O cego respondeu “Senhor, que eu veja”. Deveríamos pedir isto a Deus, que vejamos. Ouvindo os hinos nacionais no começo das partidas da copa do mundo de futebol constatamos o quanto são bélicos todos eles. Ridículos de tão bélicos do tipo, prendemos e arrebentamos, quem nos invadir nadará no próprio sangue, nós é nós o resto é o resto. Chega a ser engraçado ouvir, sei lá, Togo ou a Costa do Marfim arrotando tal valentia. Esses hinos são apropriados para as crianças cantarem, pois aquelas que entendem a letra (coisa rara, só muito recentemente vim a entender parte do nosso hino) podem realmente concordar com aquilo. Bertrand Russell diz que quando era criança acreditava que um inglês com um só braço batia em dois alemães. Os hinos devem ter sido feitos todo na era do militarismo das nações. Se esperassem um pouco mais, pela era do comércio, teríamos hinos falando em superávits primários e câmbios flutuantes. No nosso, cantaríamos, “verás que um filho teu não deixa de aplicar na poupança”. Poderia ser pior, poderiam fazer hinos da era social onde se falaria de ONGs, igualdade social e cantaríamos “verás que um filho teu vota no Lula”. Quando mais construirmos cemitérios, mais os urubus passarão fome, pois o preço da carniça está pela hora da morte. Ah, esta é a página mais importante da internet. É a mais preciosa. Coloque nos seus favoritos e todo dia leia um pouco até o fim. Antigamente só Deus e as lombrigas conheciam a pessoa por dentro, mas depois se inventou a endoscopia e só a pessoa mesmo, o próprio dono do ser é que não se conhece por dentro. O tarado e o casto têm muito em comum. Cícero dizia que o amor é o desejo de alcançar a amizade de uma pessoa que nos atrai pela beleza. Poder-se-ia dizer da amizade que ela é o desejo de alcançar o amor de uma pessoa que nos atrai pela simpatia. Um de meus desafios é dizer coisas desagradáveis sem ser chato. Briga de galo é crime, mas abortos querem liberar. Deus é um juiz que torce pelo réu. Um juiz cujo réu é seu filho. Um ateu é apenas um filho de Deus com baixa auto-estima. A Erudição é apenas um instrumento. Você pode usá-la para qualquer coisa. Vou exigir auxílio-funeral porque eu estou morrendo de trabalhar. Tchau, gente.
O rapaz ateniense perguntou a Sócrates se deveria casar ou não. Sócrates respondeu: “não importa o que você faça, vai se arrepender”. É mais ou menos este o resumo de toda ópera. Então o que fazer quando o arrependimento é certo? Ora, faça qualquer coisa, pois não fará a menor diferença mesmo, mas a vida é sua, então não me ouça. O certo é que quando o amor aparece, fazemos o que ele manda e o amor quando acontece, a gente esquece o que sofreu um dia, como diz a canção. E como diz outra canção, se não tivesse o amor, melhor era tudo se acabar. É a mesma coisa com Deus. Se não existisse Deus, melhor era tudo se acabar. Há coisas sem as quais não se admite a existência de mais nada. Jamais o homem viveu sem amor e sem Deus. O Deus dos pagãos era um Deus inventado. Um dia o verdadeiro Deus apareceu para Abraão, o filho de um pagão e mais tarde, o mesmo Deus nasceu do ventre de uma virgem. O amor que vivemos também não é O Amor, é o nosso amor. E o nosso amor, como diz a canção, a gente inventa. Inventa muito mal inventado e resulta no que Sócrates disse, não importa se você case ou não, você vai se arrepender. O objetivo das lâmpadas é atrapalhar a noite. Durante a noite acontecem coisas estranhas, bizarras, assombradas, inacreditáveis e até inadmissíveis. Vivemos na escuridão. Sorte de quem é cego, pois ignoram a escuridão. Quem enxerga apenas levanta as pálpebras e vê o breu e às vezes se faz de luz a fim de atrapalhar a noite. Meu professor de latim acredita que os anjos têm alguma coisa de material. Ele acha que tudo o que Deus fez tem algo de material, pois só Deus poderia ser espírito puro. Enorme maquete é apenas isto uma grande cidade. O verdadeiro cristão acredita que o perdão é mais justo que a vingança. Que o exemplo é mais convincente do que o argumento. Que o amor é mais forte que o mal e a corrupção. O amor de Deus jamais foi um amor verborrágico no sentido humano do termo. Jesus nos disse “sede santo como eu sou santo”. A santidade de Jesus não era um palavrório vazio e muito menos agressivo. Ele sempre foi “manso e humilde”. Uma Igreja de santos e mártires era assim a Igreja dos primeiros séculos. Quanto mais matavam cristãos, mais a Igreja crescia. A caridade deve ser a preocupação do cristão, o resto vem por acréscimo. Sem medo de amar, o cristão segue convicto de que as portas do inferno não prevalecerão sobre a Igreja de Cristo. No momento em que vivemos há a terrível perspectiva da guerra entre judeus e islâmicos que aponta mesmo, segundo profecias, para a terceira guerra mundial. Aquele entrave lá de judeus e islâmicos só teria remédio se eles fossem um pouco cristãos. Motivos para uma guerra de proporções mundiais já houve. Se algo na proporção do ataque ao World Trade Center a ao Pentágono fosse feito pelos EUA, é improvável que a resposta palestina fosse invadir algum país e promover eleições diretas. A democracia é uma dessas coisas que leva todo o jeitão cristão de ser. Até os “paradoxos do cristianismo” há na democracia, coisas como o maior dentre vós seja o menor e o menor ser aquele para quem o maior trabalha. Não é coincidência que jamais tenha havido guerra entre países democráticos. Quando um país democrático entre em guerra é sempre contra algum tipo de totalitarismo. O último olhar, o último gesto, o último riso, o último tudo, o último todo, o último nada, o último nado, o último medo, a última história, a última canção, o último fantasma, o último sonho, o último sabor, a última palavra, a última moda, o último assunto, o último gozo, a última dor, a última sombra, o último esquecimento, entre você e eu, do que ficou pra trás. E Deus disse ao anjinho, “não mexa nas estrelas”. O melhor do Brasil é o brasileiro. E o pior do Brasil também é o brasileiro, pois brasileiros é tudo o que temos. Ah, ouça o Renato Braz e seu CD “por toda a vida” (impressionantemente belo). Toda década tem seu “Código da Vinci”, um dia desses vi na livraria um de tempos atrás, “eram deuses os astronautas?”, virão outros, afinal otários sempre o tereis. Ele lá é Catulo da Paixão Cearense e eu cá, tolo da paixão paraense. Sobrar, soçobrar, soçobrei, sobrei. Minha jornada interior é externa. Meu interior é o mundo. Meu interior é o outro. Meu interior é tudo que não seja eu, nem a mim pertença. Meu interior é do lado de fora. É assim que me descubro, é assim que me conheço é só assim que sirvo para alguma coisa. Vai ter festa junina, não sei se pago para ir ou pago para não ir. Há muitos lugares que muita gente paga para ir, que outros pagariam, prazerosamente, para não ir. O sol emudece grilos, sapos e cigarras. A lua os releva. Dia de jogo do Brasil na copa do mundo de futebol é quase feriado. Há uma comunidade no Orkut fazendo lobby para que se torne de fato feriado todo dia de jogo da seleção em mundiais. Concordo. O interessante é que não se ouve ninguém dizer, como falam nos feriados religiosos: “mas o Estado não é laico?” O Estado é laico, não tem religião, assim como, por ser laico, não tem esporte favorito. Porém as pessoas têm esportes favoritos e professam um credo religioso. O Estado existe para não atrapalhar as pessoas de serem o que são. Um Estado laicista, que é contra a religião, o esporte e toda forma de vida, seria o sonho da gente insossa que nos rodeia. Em Brasília tem feriado do “dia do evangélico”. Criticaram muito o governador que sancionou essa lei, que nada mais é do que um reconhecimento do Estado de que os evangélicos existem e que o Estado respeita todos eles em sua crença. Os insípidos ficam realmente putos com qualquer sinal oficial de respeito a quem tem sangue nas veias. Esse respeito é a base do Estado laico. Toda privada deveria ter uma biblioteca pública. Toda biblioteca pública deveria ter pelo menos duas privadas. Em toda biblioteca pública deveria ter outra biblioteca dentro da privada. Quem sabe nadar também morre afogado. Eu vi você no meu espelho. Se você morrer, não se preocupe, os vivos cuidarão de tudo. Isto é, se morrer, fique quieto, não se mexa. A solidão é um veneno? Não! A solidão não é um veneno, pois não existe veneno, o que existe é dose. Uma dose adequada de solidão, na hora certa, pode ser um remédio. Veneno é a overdose de solidão. E vice-versa. Qual o antônimo de solidão? Fazer-te de meu mar. Desaguar-me em ti. O nadador que nada certo imita o tempo, pois nada como um dia após o outro, nada como viver, nada como uma boa conversa. Já o outro nadador nada errado, pois nada como uma noite de sono. Não ter amigos é uma ótima desculpa para o mutismo. Quem não tem amigos poderia (e até seria preferível) ser mudo, pois o amigo é nossa voz, já que o sentido da vida é mesmo partilhar, isto é, dar e receber. Quem tem muito para dar e não tem para quem dar preferiria ser estéril, quer dizer, não ter nada. Tenho aquele conto cuja idéia me vem sempre e que jamais escrevi. Seria a história do sujeito muito solitário, muito carente de carinho, que costuma forjar circunstâncias que o faça receber carinho. Então, ele costuma ir a pedicuros, onde o acariciarão suas mãos, tira a barba no barbeiro, que o acariciará o rosto, procura por fisioterapias que nem precisa tanto, tudo só para ter pessoas a sua volta que ele sinta que se importam com ele. Falta ao conto um alinhavo qualquer que o faça engraçado, por enquanto só tem elementos meio melancólicos, num é? Eu não quero disco, eu quero é a música que tem lá dentro. Não quero livros, quero a história deles. Antigamente o cara só casava se a namorada antes transasse com ele. Hoje o cara só namora se antes transar com a garota. Chamam-se a isso progresso. Um livro alado pousou em minha cabeça, voou mais um pouco como um satélite em torno de mim e pousou no meu ombro, fazendo meu olho, dentro de minha cabeça parada, acompanhar seu vôo. Preciso comprar mais veneno contra livros, eles não nos deixam em paz, voando em nossas cabeças, nos acordando de noite com o seu bater de páginas barulhentas. Que chato são os livros. Chatos, quadrados, pesados e caros. Porém, há seres estranhos que capturam livros, os colecionam como alguns fazem com as borboletas, aliás, livros e borboletas são muito parecidos, a diferença é que a borboleta é um inseto voador e o livro é um vegetal voador. (Deus diz no livro de Ezequiel “então todas as árvores dos campos saberão que sou eu, o Senhor”). Cristo quer que sejamos a luz do mundo. A luz não existe para si nem por si. A luz existe para que olhemos a estrada ou o quarto escuro onde vivemos. Com a luz acesa, você não erra a porta, mas nada impede que bata com a cabeça na parede. A luz é discreta. Ser luz pode parecer aviltante porque a função da luz é mostrar a verdade, não ser a verdade. A luz se apaga quando quer se comportar como estrada. Jesus é o caminho, nós somos a luz. Quem pergunta é mais esperto do que quem responde. Quem pergunta busca a verdade, foge de ilusões, pois a verdade o rói irresistivelmente e perguntar é apenas coçar a ferida deixada pela falta da verdade. Sábio mesmo era Sócrates que ensinava perguntando. Claro que Sócrates era absolutamente coerente pois perguntava porque, segundo ele, nada sabia. Cada pergunta de Sócrates deixava seus discípulos em êxtase. Depois de dezenas delas, saiam todos mais sábios dos encontros. Tudo começou quando ele perguntou a um grande admirador seu “será que vai chover hoje?”. O rapaz se sentiu abençoado por Sócrates lhe dirigir a palavra e considerou aquela pergunta mais boba o ó do borogodó e espalhou entre os conhecidos, “imaginem você o que Sócrates me perguntou, ele disse ‘será que vai chover hoje’?” “uau”, respondeu a turma, “que homem fantástico, que pergunta inteligente!” Com o tempo, provavelmente, o pobre Sócrates já não podia perguntar mais nada, que era saudado com um ooooh! “Como vai?” ele perguntava, o seu interlocutor pensava “‘como vai?’ ele perguntou, que maravilha de pergunta!” “Tudo bem com sua família?” perguntava o sábio a outro. O outro, com os olhos marejados, não se continha, “como vai minha família? Que pergunta genial, é um gênio esse Sócrates”. E pronto, tudo o Sócrates perguntava, por mais prosaico que fosse, se vestia de sua fama do sábio que ensina perguntando. Mas o ideal é um sábio que ensinasse calado. O difícil seria achar quem o ouça e um Platão que escrevesse seus diálogos mudos em trinta volumes de páginas em branco de pura sabedoria. Pronto.
As criaturas testemunham o Criador 1 São naturalmente insensatos todos os homens que ignoram a Deus e que, através dos bens visíveis, não chegam a reconhecer Aquele que existe. Consideram as obras, mas não reconhecem o seu Artífice. 2 E acabam considerando, como deuses e governadores do mundo, o fogo, ou o vento, ou a brisa fugaz, ou o firmamento estrelado, ou a água impetuosa, ou ainda os luzeiros do céu. 3 Se ficam fascinados com a beleza dessas coisas, a ponto de tomá-las como deuses, reconheçam o quanto está acima delas o Senhor, pois foi o autor da beleza quem as criou. 4 Se ficam maravilhados com o poder e atividade dessas coisas, pensem então quanto mais poderoso é Aquele que as formou. 5 Sim, porque a grandeza e a beleza das criaturas fazem, por comparação, contemplar o Autor delas. 6 Esses, porém, merecem repreensão menor, porque talvez se tenham extraviado procurando a Deus e querendo encontrá-lo. 7 Vivendo no meio das obras dele, procuram pesquisá-las, e a aparência delas os fascina, tanta é a beleza do que se vê. 8 Contudo, mesmo esses não têm desculpa, 9 porque, se foram capazes de conhecer tanto, a ponto de pesquisar o universo, como não encontraram mais depressa o Senhor do universo? Inutilidade dos ídolos 10 Infelizes também são aqueles que depositam sua esperança em coisas mortas, e que invocam como deuses as obras de mãos humanas: coisas de ouro e prata, trabalhadas com arte, figuras de animais, ou uma pedra sem valor, obra de mão antiga. 11 Um carpinteiro, por exemplo, serra uma árvore fácil de manejar. Depois lhe tira cuidadosamente toda a casca, trabalha a madeira com habilidade e fabrica um móvel, útil para as necessidades da vida. 12 Terminado o trabalho, ele recolhe as sobras da madeira, as emprega para preparar a comida, e se farta. 13 Da sobra de tudo, que não serve para nada, madeira retorcida e cheia de nós, ele a pega e a esculpe nos momentos de lazer. Para se distrair, modela a madeira com capricho, e lhe dá o formato de um homem, 14 ou então a forma de algum animal desprezível. Depois pinta o ídolo de vermelho e cobre de massa todos os seus defeitos. 15 A seguir, prepara-lhe um nicho digno dele, e o coloca na parede, prendendo-o com um prego. 16 Toma esses cuidados para que não caia, sabendo que o ídolo não pode cuidar de si mesmo: é apenas uma imagem, e precisa de ajuda. 17 Entretanto, logo em seguida lhe dirige orações por seus bens, casamento e filhos, sem se envergonhar de ficar falando com uma coisa sem vida. Para a saúde, invoca o que é frágil. 18 Para a vida, faz súplicas àquilo que é morto. Para um auxílio, pede ajuda àquilo que não tem experiência. Para uma viagem, dirige-se a quem não pode dar um passo. 19 Para seus negócios, trabalhos e sucesso nos empreendimentos, pede forças a quem não tem força nenhuma nas mãos. Livro da Sabedoria, Capítulo 13
Um santo nasceu, viveu e morreu em ambientes santos. Morto, foi santificado e foi morar no céu. No paraíso, batia um papo com Santo Agostinho que lhe contava a vida de devassidão que teve no começo da vida e nesse momento ao santo, que nascera, vivera e morrera em ambientes santos, ocorreu que jamais fora tentado de nenhuma maneira e que mesmo um devasso vivendo naquelas circunstâncias em que ele viveu, é provável que também se tornasse um santo. Lá naqueles ambientes santos, seu trabalho de toda sua vida foi cuidar de velhos e doentes, sua maior diversão era ir à igreja. E então, se imaginou no lugar de Agostinho e temeu que pudesse estar no inferno caso nascesse noutro lugar. Agradeceu a Deus pela graça de ter vivido sob condições que lhe levaram naturalmente à santidade, mas lhe nasceu uma ponta de autocomiseração por não ter sido responsável em nada pela própria salvação, ignorando que ninguém mesmo o é. Enquanto isto, Deus achava graça.
“Brigue você, se quiser, eu fujo armado de amor” Vi o filme espanhol “Crime Ferpeito” (sic), puro humor negro e muito bom. Em uma cena, o personagem principal descreve um ex-chefe que, segundo ele, se comportava como se fosse superior aos outros, era como se seu sangue fosse diferente do sangue dos demais. E era mesmo. Tinha leucemia. Humor negro é isto. Eu doei sangue um tempo atrás, quando morava em Goiânia. Achei maravilhoso e me senti um cidadão perfeito e um ótimo cristão. A cada 60 dias eu ia ao banco de sangue e deixava lá 450 ml do meu. Na segunda ou terceira vez, comecei a senti uns calores assim que se aproximava o dia da doação. Parece que o corpo se acostumara com aquela quantidade de sangue que eu tirava a cada sessenta dias, então resolvia produzir sozinho mais sangue e aquele excesso de sangue me fazia suar muito além do normal, suores que cessavam assim que eu doava o sangue. Daí me vei
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