RECLAMA UM DEMÔNIO (conto curto)

- A imunidade me depravou. Fosse eu mortal, seria um santo.

MARIDOS E AMANTES

Os maridos da liberdade costumam mandar matar os amantes da liberdade. Quem vocês acham que mataram Lincoln, Luther King, Gandhi etc? Ora, os maridos da liberdade! Quem mandou ser amante de mulher dos outros?! Eu por exemplo tenho um amor totalmente platônico pela liberdade. Sei que é mulher casada.

CACHORRO TAMBÉM É GENTE

O ditado “no mato sem cachorro” hoje em dia nada significa. Os donos morrem de medo que seus cães entrem no mato, tadinhos!

NOTÍCIAS

“Uma jumenta botou seis ovos. Semanas depois nasceram dezenas de cabras, todas lindas”. Todo dia as pessoas lêem textos semelhantes como esse nos jornais com a maior naturalidade. De noite o Jornal Nacional dá a mesma notícia com a maior naturalidade. E todo mundo acha normalíssimo.

FALA O NIILISTA

Eu tenho uma teoria que é o seguinte: “teoria e merda é tudo uma coisa só”. É a teoria para pôr fim a todas as teorias. Essa minha teoria vai demonstrar que não se deve teorizar. Que a pessoa tem que ser muito jumento para acreditar em teorias. Vai arrebentar essa minha teoria.

CRÔNICA DA SECA CRÔNICA

Horda de tenistas esfomeados invadiram a cidade de Carson City, vindos de Miami. Dizem que por onde passam, os tenistas fazem vários saques. Um jogador de futebol que presenciou um saque, disse que havia mais de 200 tenistas, mas confessou que o número pode não ser exato, pois estava só chutando. O governo prepara uma ajuda a fim de rebater os ataques da esfomeada malta enquanto prepara medidas preventivas contra a situação calamitosa que ameaça os jogadores de vôlei. O medo é que os saques aumentem, pois jogador de vôlei também efetua saque muito bem e são em quantidade seis vezes maior. Tudo começou mesmo com a seca que se alastrou e matou vários nadadores por falta de água nas piscinas. Os mortos foram enterrados pelos jogadores de basquete, especialistas em enterradas. Com a falta de água, as quadras de tênis de grama se acabaram, o saibro estorricou-se ao sol e a região desértica não forneceu mais madeira para as raquetes. Os jogadores de ping-pong também já começam a fazer seus saques, mas a maioria é de origem japonesa e muitos deles voltaram para a terra de seus pais, sem falar que o saque de ping-pong não assusta tanto. Alguns atribuem a situação a uma carga negativa na aura da nação e que só se vai resolver a questão com muita reza. Para acabar com essa ladainha, convocou-se jogadores de futebol para dar alguns passes. Muitos, fugindo da seca foram encontrados na banheira. Aceitaram o convite, mas não tem funcionado muito bem porque os jogadores têm dado muitos passes errados. Para melhorar a questão do passe foi chamado um técnico que na hora escalava a serra da Cantareira, para que ele escalasse jogadores bons de passes. A nação se mobiliza. Os cassinos prometeram mandar alguns jogadores para ajudar, mas até agora não chegou ninguém, pelo jeito estavam blefando.

A FÉ, A DÚVIDA E A DESCRENÇA

No dia do juízo final se formarão enormes filas para o julgamento. Um monte de anjos organizará o trabalho dos juízes. No meio da multidão um anjo, como se falasse com os integrantes da Banda de Ipanema, com megafone gritará:
- Ateus, ateus, por favor, quem for ateu faça fila aqui, por favor, os ateus, aqui ó.
Alguém pergunta:
- E agnóstico?
O anjo responde:
- Agnóstico também é considerado ateu, aqui também, por favor;
- Pêra um pouco. Eu fui agnóstico até cinco minutos atrás. Com este rolo todo rolando aqui agora. Centenas de anjos voando sobre minha cabeça, peraí, eu não sou mais agnóstico não. Como eu posso ser? Eu tô vendo!
- Agora é tarde, meu amigo – diz o anjo – tá vendo aquelas placas acolá? Vê lá, “fé, “dúvida” e “descrença”. Fica lá, escolhe o lugar de acordo com o que você era até cinco minutos atrás. A história acabou, meus amigos. Quem teve fé, teve fé, quem não teve, não teve. Vamo lá, que ainda temos muito trabalho pela frente, quanto isto vai acabar só Deus sabe e se querem saber, Ele tá uma pilha hoje!

POEMAS INEXPLICÁVEIS – UMA VISÃO INFANTIL II

Para Dani, que é parente de Carlos.

No meio do caminho tinha um caminhão cheio de pedra
No meio do caminho tinha um quebra-molas
Minhas retinas estavam cansadas, mas vi mais…

No meio do caminho tinha um cachorro
Um menino vendendo manga
Uma ponte em cima de um rio
Uma cidade pequena
Uma casa caiada

Minhas retinas cansadas

No meio do caminho tinha um posto de gasolina
Muito buraco também no meio daquele caminho
Um acidente feio do meio do caminho.
Um homem morreu, jamais esquecerei.
Que tinha muito, mas muito muito
Muito mais do que pedra
No meio do caminho.

ps – O outro.

SEGREGAÇÃO

Não adianta, toda maioria tem um monte de minorias lá dentro. Centenas. As minorias também, estão cheias de minorias dentro delas.

BANANAS

Ao texto do Nelson Ascher, aqui, acrescentaria que as bananas nanicas, por exemplo, são, contrariando o próprio nome, umas das maiores bananas que existem e assim são chamadas porque a bananeira que dá a banana nanica é menor do que as outras. Fora isto, o texto é excelente e irretocável.