Só há dois tipos de pessoas neste mundo (e muito provavelmente em todo o universo): eu e você. Dessas duas, a primeira é uma espécie muito interessante, uma terra de todo mundo. Vejamos, somente uma pessoa em todo o universo sou eu. Isso torna a coisa muito difícil para mim (ou para “minha pessoa” como muitos dizem), pois passaria a vida inteira, em vão, procurando outro da minha espécie. Não obstante, todo dia nasce alguém que chama a si mesmo de “eu”. São lunáticos, evidentemente, pois só pode existir um eu. Enfim, sempre quem fala se diz ser “eu”. O euismo é uma seita, uma ideologia arrasadoramente grande e todos se dizem pertencentes a ela. O pior é que todo mundo se diz ser eu e ao mesmo tempo todo mundo diz que todos os outros são “você”. Ora, se todo mundo é você, eu também sou. Esta pequena nota é para declarar a minha saída do euismo. Não sou mais eu, podem me chamar de você. Doravante, eu sou você. Declaro a paz a meus amigos “eus” (todos vocês aí). Podem me chamar de você à vontade, que não vou mais ficar brigando. Já vi muita discussão do tipo: – “hei, você!”; – “eu não sou você, eu sou eu”; -“não senhor, eu sou eu, você é você”; – “ah, você é sua mãe, você me respeita, eu sou é eu, rapá!”; – “vem aqui, que eu te mostro que eu sou eu”: “-ah, eu te mato, desgraçado…”. Pois é, deixem-me fora dessa, vocês que são eus que se entendam… Então, para não brigar, eu sou é você e pronto (mesmo que você saiba muito bem, que eu sou eu). Deus, o próprio Todo-Poderoso, quando perguntaram quem era, Ele disse “Eu sou o que sou”. Até Deus se diz ser eu (ou Eu). Taí uma autoridade. Então se eu não sou eu, ninguém mais é. Você aí, que me lê, pare de se chamar de “eu”. Eu, só Deus é. Sendo Eu, só Ele, então todos nós somos você, pois não pode haver dois deuses. Deus é mais que “eu”, Deus é “eus”, tá lá no nome Dele. D’eus, que significa “de todos os eus”. Assim como “dele” significa “de ele”, “Deus significa de eus”. Taí, a coisa devidamente explicada, límpida como água. O que me faz voltar à primeira afirmação, de que (e agora você também) não sou eu. Eu sou você e você também é você. Claro que você é muito mais você do que eu (e eu, muito mais eu do que você), isso não se discute. Sim, ninguém mais sou eu, pois se nem eu sou eu, quanto mais os outros. Todo mundo é você, inclusive eu, e não tenha medo, deixe de ser eu e seja você mesmo. Eu já deixei.
Pois bem, lendo esse texto para uma amiga, ela me disse que está bastante confuso e que “eu” (“você”, ela disse) deveria desenvolver mais a idéia, para clarificar o assunto. Ainda tentei argumentar que Eu não poderia perder tempo com isso, pois o único Eu que aceito tem mais o que fazer e mais, segundo um filósofo medieval, Deus não fala com palavras. Então, pode esquecer, Eu não vou explicar é nada. Mas como ela disse “você”, então eu, que sou você (já disse isso), vou tentar explicar tudo de novo e rogo sua paciência leitora amiga (imagino que nenhum homem terá mais paciência de ler isto daqui para frente, é preciso ser forte como mulher para prosseguir). Comecemos, é simples. Há muita gente por aí fazendo textos dizendo por que não sou isso, por que não sou aquilo. E são as coisas mais óbvias. Aparece um ateu dizendo por que não é satanista. Um comunista dizendo por que não é de esquerda. Um direitista dizendo por que não é liberal, uma mulher dizendo por que não é feminina, etc. Então, eu, antes que algum gaiato diga, digo eu o porquê de eu não ser eu. A história é velha. Um poeta brasileiro dizia “eu sou trezentos”, o que é querer muito pouco, já que é para alucinar, não sejamos econômicos. Ao me declarar ser você, deixo de ser só eu e sou, assim, bem mais que os meros seis bilhões de pessoas do planeta terra. Sou também os seres extraterrestres e os seres de todos os outros mundos, inclusive os seres de outras dimensões. Pois outras dimensões da realidade existem sim, realidade onde existem seres amorfos sem nenhum contato com a vida e desconhecendo o prazer e a esperança e não estou falando do casamento, embora este seja de fato outra dimensão da existência, mas, do casamento há como retornar às três dimensões naturais, mesmo sendo muito doloroso o processo, sendo inclusive proibido pelas religiões. O fato é que no casamento, duas pessoas se tornam uma. Isto é, dois eus se tornaram um eu. Vejam bem a força desse evento e a relevância dessa questão. Então, como você destrói um ‘eu’? Não pode, pois “Eu” só Deus e não se pode matar Deus, por isso o casamento é indissolúvel, porque foi tocado pelo divino e, assim dois vocês se tornam eu da hora pra noite, isto é, casamento também é gente, gente em que o homem é o corpo e a mulher é a alma (ou vice-versa, dependendo do casal, ou sei lá como quando casal é gay). Quando o casamento morre, você volta a ser você, o que pode ser um alívio para muita gente, principalmente quando o corpo insiste em desobedecer a alma. É obrigação de todo corpo amar a própria alma.
A lógica diz que “A é A” e que “’A’ não pode ser diferente de ‘A’” (o que prova por A + B que a lógica jamais veio ao Brasil). No caso de “eu” não podemos dizer “Eu é Eu”, fica esquisito, não fica? O certo seria “Eu sou Eu”, mas esse ponto é por demais controverso, já que “Eu” mesmo só Deus é. Também não se pode dizer “Eu não pode ser diferente de Eu”, o certo seria “eu não posso ser diferente de mim”, mas não é isso que a lógica quer que digamos, então esqueçamos essa história de eu e a lógica. Porém, se dissermos “Você é Você” e “você não pode ser diferente de você”, dá certo, então não vamos ficar quebrando cabeça e matando neurônios com algo tão simples, pois se “eu é eu” é inconcebível e “você é você” é possível, logo, logicamente, só “você” pode ser aplicado aos seres vivos desta e de outra galáxia. Isso está bem entendido, não está? Esperem um pouco, vou passar o texto para minha amiga, para ver se ainda está confuso. Daqui a pouco, eu volto.
Vamos falar de outra coisa, enquanto isso. A crença em um Deus não se trata de preguiça de pensar, é exatamente o contrário. Preguiça mental tem aquele que, por não ver o invisível, conclui logo que ele não existe. A existência de Deus é uma questão de probabilidade. É mais fácil acreditar que Ele existe por uma questão de bom senso, não de preguiça mental. Digo isso, pois já fui ateu, mas minha fé foi diminuindo, diminuindo, diminuindo e hoje estou desviado das veredas do ateísmo. Assumi que não tenho fé suficiente para ser ateu. Cientistas dizem que Deus não existe e esquecem de dizer que tal afirmação não é científica e sim, no mínimo, religiosa, teológica, isto é, coisa que não é do ramo deles. Deveriam ficar calados sobre esse assunto. Por falar em ramos, em Brasília tem muita árvore e nessas árvores têm muitos pássaros que cantam muito. Gosto muito do canto dos pássaros, só não entendo direito as letras. Piu piu piu piu, que raios de letra é essa?! Os pássaros precisam urgentemente de letristas ou então têm muito que melhorar a dicção ou deveriam ainda ser apenas compositores e deixar o canto para os profissionais do ramo. Só por que eles vivem no ramo das árvores, pensam que são do ramo. O verdadeiro cantor é um pássaro que vive pousado no ramo da música. Ramo, ramo, ramo. A ciência é apenas um ramo da árvore da qual, o sobrenatural é de onde veio a força da semente. Não são incompatíveis, mais se tocam mais do que se imagina. A própria natureza está cheia de incompatibilidades aos olhos da ciência. Se tudo fosse simétrico na natureza como parece à primeira vista, teríamos dois corações. Tudo o que a ciência nos mostra é uma verificação à primeira vista. Em seguida nos mostra uma verificação à segunda, à terceira, à quarta, à quinta vista e todas elas podem se contradizer e se desmentir mutuamente, pois a neve de longe é branca e de pertinho é meio cinza. A ciência é apenas um método de medir. As leis da natureza têm um legislador. Esse legislador pode burlá-las, pois tais leis não se aplicam a Ele. É próprio da ciência buscar a origem das coisas e ela sabe que a origem da coisa não está na coisa, assim como a energia que move a coisa não é produzida por ela. De onde veio a energia que faz o universo girar? De dentro do próprio universo? Não seria científico acreditar nisso.
Ok, voltemos ao assunto, minha amiga acha que agora está tudo esclarecido, então vou terminar esta história. Não insistamos no assunto, vocês (isto é, eu e todo mundo) já entenderam o que eu disse. Isto é, vocês disseram. Outra vantagem de não se ser eu é que, sendo você, nada que faço fui eu quem fez. Tudo o que eu fiz, o culpado foi você, o que torna leitor e escritor a mesma pessoa. Você que lê isto aqui, aviso-lhe que foi você quem escreveu este texto. Parabéns, tá muito bom, embora a parte inicial esteja um pouco confusa, conforme a opinião de uma amiga minha. Você é quem escreve o que publico aqui. Logo, você também é quem deixa de escrever quando não tem nada por aqui. Então, não me culpe, por qualquer coisa, quem faz e quem deixa de escrever o que aqui se lê é você. Eu existo, mas eu não sou Eu. Eu sou você. Chegamos, finalmente, ao ponto que interessa realmente. Demonstrarmos do modo mais insofismável possível, desde Santo Anselmo, a existência de Deus. Pois, prepare-se, lá vai. Ai, me dá uma preguiça esse negócio de provar a existência de Deus, mas vamos lá. Ai, meu Deus, que preguiça de fazer isso. Depois vai aparecer um chato citando Kant para desmerecer meus argumentos, esquecendo o chato que eu não tenho nada com isso, pois quem fez isso foi você. Então, vamos, a culpa é sua mesmo. É o seguinte, eu existo, não é verdade? Até Descartes concordava com isso. Até meu chefe sabe que isso é verdade, embora eu seja meio feito chifre de corno (existo, mas ninguém nunca viu). Mas não falemos de casamento, voltemos à prova da existência de Deus. Eu existo e Eu é Deus, mais que isso, Deus é eus, todos os eus possíveis. Então, pronto, não preciso falar mais nada, preciso? Deus existe, pois Eu, como sabem, é Ele. Só ele é Eu. Eu, por minha vez, sou você. E você também é você. Somos todos você, o que torna a sua conta de luz bastante alta. Enfim, é uma forma interessante que Deus tem de dizer, “Eu sou Eu e o resto é tudo japonês”.
“Você deve ser a mudança que você deseja ver no mundo”, disse-nos Gandhi. Então, se você quiser mudar o mundo, já sabe. Pare de reclamar que o mundo é ruim, porque a culpa é sua. John Donne diz que quando uma pessoa morre, ele se sente menor. Claro, pois se todo mundo é você, quando outro você morre, os vocêses do mundo ficam menores. Então falam muito do egocentrismo, querendo parecer que o eu é centro da vida da maioria das pessoas, mas não é verdade. Você é muito mais importante. A criança pequena, como meu sobrinho de três meses, ele não tem a menor consciência de si ainda, mas da sua mãe ela tem, ele sabe e procura e espera e precisa dela o tempo todo. Quando o vejo virando a cabecinha a procura não sei de quê, já sei, evidentemente que não procura a si mesmo. Quem você pensa que é? É você que ele procura. E você, neste caso, é a mãe dele. Pois, todo mundo é você, inclusive a mãe dele.
Veja você o quanto é prática esta tese. Com ela, tudo se responde. Sendo você o culpado por tudo, de bom e de ruim desta vida, você não precisa mais se torturar com os problemas do mundo. Pois, quem pode resolver tudo o que nos assusta, tudo o que nos deixam amedrontados e tensos? Ora, você! O que se deve fazer para vivermos em um mundo melhor? Bem, “o quê”, não sei, mas “quem” vai fazer, com certeza, é você. Você deve ser honesto, honrado, cumpridor dos seus deveres de cidadão, pai e filho, ou qualquer outro raio de papel você tiver neste mundo. Você é a saída para este mundo em ruínas. Você é a solução, pois você é o problema. E, por falar em John Donne, não pergunte por quem os sinos dobram, pois você já sabe, não é? Aliás, não sei por que os tradutores traduzem “bell tolls” por “sinos dobram”. Como assim, “os sinos dobram?” Dobram de tamanho? Dobram assim como se dobra uma toalha? Como assim? Nunca vi isso. Mesmo assim, se houver um sino por aí e de repente você olha e o tal do sino estiver dobrado, isto é, tiver aumentado de tamanho, não tenha dúvida, esse sino dobrou por você. Ou então, como é muito comum, você está andando pela rua e o vem um sino seguindo você, pulando em seu badalo, sorrateiramente. Você se vira e o sino pára. Você continua e o sino continua. Então dobra uma esquina e o sino também dobra. Não duvide, ele dobrou por você. Pois só você existe, quero dizer, todo mundo é você e você é todo mundo e assim sempre será. Não tem saída, você será você até morrer e quando você morrer, outro você nascerá.

