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1. Só líquidos se adaptam ao meio e eu sou concreto. 2. Feiúra é apenas falta de Photoshop. 3. Compreender um mistério é uma contradição. Explicar um mistério é negá-lo. 4. Quem está quase certo está totalmente errado. 5. O blogosfera é uma cidade do interior cujo principal produto é a abobrinha. 6. A água é mesmo muito importante. Por exemplo, não dá para tomar um banho decente sem água. 7. Não olhe para a lente, olhe através dela. 8. O amor não é para amadores. 9. O vice-versa é o fim das exceções (e vice-versa). 10. Todo desejo é um pedido.
Colecionava livros que não leria. Buscava autores que não se deve ler. Não podia descobrir um autor ilegível, irrelevante, bobo, sem sentido ou meramente ruim que anotava e adquiria toda a obra. Tinha uma grande biblioteca de autores assim, com livros que comprara mesmo para não ler. Feliz, contemplava sua coleção e se regozijava pelo tempo que não perderia lendo tudo aquilo.
O perfume não pertence à flor. O perfume é o que a flor excreta, como sobras da beleza que ganhou da natureza. O perfume é uma beleza em forma de vento. As frutas são expelidas pelas árvores e nos alimentam. De fato, a fruta madura e colhida é uma parte da árvore que ela já não quer nem precisa. Todo alimento é um expurgo. Assim, a natureza cria seus ciclos, onde o desperdício de um alimenta a fome do outro. Produzir até o ponto do desperdício, para alimentar o outro, que precisa de tal desperdício é a função de tudo o que existe. O poeta desperdiça poemas, do compositor brotam canções até caírem de maduras. E assim, de Deus brotou todo o universo e a humanidade, pois somos fontes que transbordam e se tornam rios desperdiçando água, para aqueles que têm sede. Quem sou eu? Para o quê fui feito? Basta responder: o que eu desperdiço? Este texto, por exemplo, é um desperdício meu.
Gerald Thomas escreveu que Fidel Castro não é um intelectual como foi Che Guevara. Diante do caráter esotérico da frase, a fim de que as pessoas normais percebam o que quis dizer o grande diretor, ofereço algumas variações, aplicadas a outros campos da cultura.
- Michael Jackson não é um sanfoneiro como foi Tim Maia. - Paulo Coelho não é um percussionista como foi Pablo Neruda. - Gisele Bündchen não é uma baranga como foi Ingrid Bergman. - Luciano Huck não é um cabeleireiro como foi Costinha. - Gerald Thomas não é um fiscal de gafieira como foi Tião Macalé. - Chico Buarque não é um motorista de caminhão como foi Mussum. - Oscar Niemeyer não é uma uva como foi Aracy de Almeida. - Leonardo Boff não é um macaco-prego como foi Osho. - Wagner Moura não é um funcionário da Receita como foi Wilson Grey. - Frei Betto não é um puxador de escola de samba como foi Gurdjieff.
E não foi só isso, Gerald disse também que Fidel é uma espécie de Joseph Stalin misturado com Marilyn Monroe, mas essa eu deixo para a glosa de alguém mais disposto que eu.
Estava eu no interior de um ontem qualquer, quando o Márcio Guilherme me chamou para o Apostos, falei que seria uma honra participar de tão seleto grupo, porém, o adverti que eu seria um peso morto aqui. Ele disse que estavam precisando de um peso morto, então eu seria bem-vindo (na verdade ele não disse isso, mas eu gostaria que tivesse dito). Eu sou um monumento à preguiça, mas depois disso, sob tão alvissareira possibilidade de fazer parte do portal, pipocou em meu coco um monte de idéias dignas de mim mesmo, se é que isso é alguma coisa. Por exemplo, me ocorreu propor a criação do Dia Mundial de Combate à Porrada ou escrever sobre o prédio que tinha cobertura de chocolate ou inventar uma mistura de Rinossoro com Diabo Verde, que seria um desentupidor de pia e nariz. Mas me sentiria deslocado como Luiz Gonzaga cantando “Oh, Carol”, pois não entendo de porradas, minha rinite está sob controle e nem gosto muito de chocolate (tenho esse defeito). Outro defeito grave que tenho, para um humorista, é que uma das técnicas de humor mais usadas é a autodepreciação, na qual eu, desgraçadamente, sou um desastre. Sou o Rubinho Barrichelo da autodepreciação (lento, porém persistente). Além disso, internet é coisa de quem não tem convite pra sair à noite e eu que não sou pai (e com o passar do tempo não serei nem avô) tenho tempo sobrando, além do fato de que as pessoas do sexo masculino vão ficando infantis na medida em que envelhecem (algumas mulheres também vão ficando mais novas enquanto envelhecem, mas isso é outra história) e ser infantil é importante para quem é humorista. Um velho humorista é uma criança com muita idade, que morrerá por excesso de infantilidade. Um velho que teima em dizer a verdade é isso, um humorista. Tem que ser muito teimoso para continuar dizendo a verdade neste mundo onde tudo o que se faz é caçar níqueis. Ah, inventei um trava língua bem facinho: “típico título caça níquel” (repita isso o dia inteiro). Na verdade esse negócio de ser criança tem seus dois lados. Cristo quando elogiava as crianças evidentemente não estava elogiando a infantilidade. Lembrei desse aspecto da coisa porque ultimamente tenho sido uma espécie de paparazzi. Levo a máquina digital para o trabalho e tiro fotos dos colegas quando não estão vendo. O objetivo é unicamente documental. Acho importante que no futuro olhem para aqueles instantâneos. Há muitos que odeiam aquilo e me odeiam por aquilo e penso nessas pessoas como crianças. Aceitar ser fotografado é sinal de maturidade. Seres infantis não gostam, como os índios que acham que vão ter a alma roubada. Aqui em Brasília tenho me divertido muito fotografando também os turistas. Quase sempre vou à missa dos domingos na Catedral, que é o lugar mais visitado da cidade e fica fácil. O turista fica em frente a uma estátua daquelas dos apóstolos e seu amigo bate a foto, nessa mesma hora eu também bato a minha foto do turista sendo fotografado em frente à estátua. Ninguém desconfia que estou fotografando o turista. Gosto demais de ver turistas. Vou aos pontos turísticos para ver os turistas, não me interesso pelo ponto. Vou à praia para ver banhistas, pois a praia mesmo, eu detesto. Vou ao show para ver os fãs, passeio para ver as pessoas do lugar, afinal a estátua da liberdade vai ficar lá (enquanto o Osama deixar), mas aquelas mesmas pessoas não. Vou ao restaurante para comer (claro), mas quase não como, fico reparando as pessoas que passam. A internet, como quase tudo (do xote ao orkut), foi inventada para que as pessoas se encontrem. Deus criou o mundo para isso. Todo mundo foi criado para encontrar todo mundo. E quando todo mundo encontrar todo mundo deve amar todo mundo e ser amado por todo mundo, pois todo mundo é o grande barato do mundo. Agora, me dá licença que vou escrever um enorme poema em homenagem à prosa. Saudações a todo mundo.
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