ESTRANGEIROS

FRANCESES
Os franceses fazem uns perfumes que você não sabe se estão cheirando ou fedendo. Fazem alimentos que você come e não sabe se são deliciosos ou se estão estragados. Filmes que você vê e não sabe se são geniais ou uma porcaria. Umas filosofias toscas que uns seguem e acham lindas. Produzem canções que você não sabe se são o fino do brega ou obras-primas. Não admira que tenham inventado a dúvida como método.

INGLESES
Eu conversava com uma amiga sobre o grupo de humor inglês Monty Phyton e dizia que a versão dublada d’A Vida de Brian é melhor que com o áudio original, depois falamos do quanto é bom o Rick Gervais e acabamos falando do maravilhoso P. G. Wodehouse e sobre o quanto são excelentes os humoristas ingleses e constatamos o óbvio: a Inglaterra é o Ceará da Europa.

A HISTÓRIA QUE RESOLVI ESCREVER IX E X

Meu primo João era um sábio meio doido. Alguém muito caro a mim. Costumava dizer “nunca pisei um dia em escola”. Aprendeu sozinho a ler e escrever e álgebra. Ficou órfão muito novo, teve que lutar pela vida e tinha muitas histórias para contar. Mas, ali, era eu quem tinha história para contar. Contei minha história e ele me disse que era muito simples, bastava eu apagar o arquivo e não deixar nem na lixeira. Eu disse que não tinha coragem, que aquelas pessoas também eram gente, eu não podia sair por aí matando pessoas tão vivas. Ele caçoou de minhas preocupações, riu muito e me saiu com essa: “Primo, você é o criador desse povo, tem todo o direito de destruí-lo. Deus não destrói de tempos em tempos um povoado aqui, uma espécie ali? Toda hora se ouve história de tsunami, terremotos, vulcões. Desastres são coisas normais no mundo e, nesses eventos, sempre vão embora milhares de vidas. Deus não deve nem se coçar de preocupação nessas horas. Por que Ele mandou uma bola de fogo para exterminar os dinossauros? Não, não foi só para que tivéssemos petróleo anos mais tarde, não. Aqueles bichos deviam ser muito chatos e imundos e devem ter enchido muito o saco do Todo-Poderoso. Sodoma e Gomorra, aqueles lugares cheios de sodomitas e gomorritas, Ele nem pestanejou em mandar pelos ares. Pompéia, que devia ter muita gente boa, invadiu-lhe um rio de larva de vulcão, mandado pelo mesmo Deus que a fez. Destruir é um direito de todo criador. Isso está na Bíblia. Você fala dessa história como se fosse um problema. Não é, não. Olha, pára de escrever. Inventa outra diversão. Já pensou em pintar? Compra uns pincéis e umas telas e reproduz todos aqueles desenhos interessantes que você fazia quando criança. Já esqueceu?”. Não, eu não esquecera. Pintar era interessante. O problema da conversa com meu primo é que eu sentia que ele dava aquele conselho com uma convicção fingida de quem me julgava um maluco, mas tinha pena de mim ou medo de confessar o que realmente achava. Lembrei da piada do sujeito que diz para o amigo que o irmão acha que é uma galinha, mas que não o levará a um psiquiatra porque em casa precisam dos ovos. É como se o amigo, nessa piada, para não constranger o outro, o convencesse de que a ingestão de ovos demais é ruim para o colesterol e que a solução é deixar essa dieta de ovos de lado e levar o rapaz ao psiquiatra. Eu sabia que João me julgava um doido e toda aquela história de que o criador é também destruidor era só para não encarar minha loucura. Ele queria que eu deletasse um arquivo que ele não acreditava que existisse ou, se existisse, não seria tudo aquilo que eu dissera. Ele poderia ter sugerido outra coisa, por exemplo, que eu imprimisse logo e mandasse publicar, que queria ver a história continuar em um livro encadernado. Bem, eu estava confuso, não poderia mandar imprimir e mandar publicar porque a história não estava terminada, ninguém ia querer publicar aquilo. Não obstante, a idéia de apagar o arquivo começou a me parecer simpática.

DESAVISOS – DE DOIS A TROIS

DOIS
Na grandiosa abertura dos jogos de Pequim, o ponto alto foi quando o Galvão Bueno comparou o Tai Chi Chuan à capoeira. E eu que nunca peguei num berimbau…
UNO
Você mostra uma verdade que só você vê, mas é inofensiva e todos concordam, você é humorista; Você mostra uma verdade que de tão aterrorizante alguns não querem enxergar ou fingem que não vêem, você não é humorista, é editor da New Yorker.
4
Só pode haver admiração, caridade e até certo tipo de amor, onde houver desigualdade. Só há bondade e gratidão entre desiguais.
V
Já fui ateu, mas minha fé foi diminuindo, diminuindo, diminuindo e hoje estou desviado das veredas do ateísmo. Assumi que não tenho fé suficiente para ser ateu.
NOVE
Há uma doença em que a pessoa fica com compulsão em dar nomes a tudo. Alguém aí, por favor, sabe o nome dessa doença?
SIX
Plebiscito é cacete! O povo não, por favor. Não deixem o povo fazer nada. Quem elege esses congressistas deve fazer o mínimo possível.
SEPT
Além de piada de papagaio, existe também piada de gente. Ela se chama vida.
DÉIS
Lei é para todos. A lei da gravidade, por exemplo, atinge todos os corpos. Mas o homem inventa meios de burlar as leis. Santos Dummont foi condenado à morte por ter violado a lei da gravidade. Não invente nada, todo bom invento mata o inventor. Se não matar, não é bom.
OITCHO
Eu não sou ateu por que a vida é um avião em queda e ninguém é ateu em um avião em queda.
TROIS
ALDIR BLANC“Comparo a perda dele [Dorival Caymmi] a uma catástrofe ecológica. Ficamos sem mar, sem vento, sem rio, sem floresta. Ficamos num deserto”. É o que penso também.

EVOLUÇÃO

Segundo aqueles que negam a criação, a origem das espécies se deu assim: o nada estava lá quieto e, foi passando o tempo, foi passando o tempo, foi passando o tempo, e logo ele virou alguma coisa e essa coisa virou outra que virou outra até chegar à Gisele Bündchen. Será que era o nada mesmo? Para uma coisa virar outra, qualquer coisa que seja, ela já tem que ser a outra, pois a semente é apenas uma árvore zipada e um casulo é tão somente o executável de uma borboleta, algo como um arquivo butterfly.exe.

DECÁSSILABOS MODERNOS – ELEIÇÃO

Vote em calvos, pois eles brilharão!
Da cabeça ao bico dos sapatos
Vote em putas, porque humilharão
Esses filhos-da-puta com seus atos
Vote em sábios porque eles farão
Coisas como renunciar mandatos
Vote em gatos, pois acompanharão
Tantos veados, sapos, patos, ratos.
Vote em branco, pois logo inventarão
As tais cotas raciais para candidatos.

A HISTÓRIA QUE RESOLVI ESCREVER VIII

Eu me sentia só. Muito só. Precisava de alguém para conversar. Até aquele momento, quando abri o arquivo e vi a situação absurda em que estava a coisa toda, não tinha me ocorrido procurar alguém para contar sobre a minha relação com aquela romance fora de controle. A história tinha praticamente dobrado de tamanho. Eu já não tinha mais como escrevê-la, pois levava todo meu tempo lendo a dita. No computador estava lá a hora em que fora alterado aquele arquivo e vi que, de fato, ninguém tocara nele depois que saí. Mas a história andou – e como andou! Vou resumir o andar daquela carroça. Um sujeito da cidade, chamado Alexandre Clark (depois descobri que o nome dele era Aurino, Alexandre Clark era nome “artístico” de pastor “evangélico”) abriu uma igreja: “O templo do Grande Autor”. Para quem? Quem era o Grande Autor? Ora, “quem?”, este aqui que vos escreve. Eu ficara muitos dias sem tocar na história e o foco do enredo se deslocou totalmente para o fenômeno religioso que ocorria na cidade. O “reverendo” Alexandre Clark (que eu apelidei de “Clark Crente”) conheceu o menino Rafael na clínica psiquiátrica e acreditou em sua história. Antes de ser pastor, Clark era um locutor de rádio razoavelmente famoso na cidade, com seu programa de música sertaneja. Depois de ter um caso extraconjugal com uma ouvinte, que também era casada, Alexandre Clark foi vítima de um atentando. Em seguida, matou o marido da mulher e, para se safar, passou a se comportar como doido, truque que funcionou, e foi declarado incapaz pela justiça. Ficou por um tempo em um manicômio judiciário, onde teve problemas psiquiátricos reais, e, ao sair, passou a freqüentar a clínica para onde levaram o menino Rafael para tratamento. Coincidentemente, ele e Rafael, no mesmo dia, foram à clínica e, depois que ouviu a história dos pais da criança, Clark foi para casa e criou todo o arcabouço doutrinário de seu novo projeto. Os argumentos do credo do “Templo…” eram simples. Ora, se Cristo é o verbo de Deus, significa mesmo que Deus é um escritor e nós (eles lá) somos meros personagens que devemos entregar nossa vida e deixar que “Ele” escreva nossa história. E mais: se “no princípio era o verbo”, antes do princípio haveria um autor para verbalizar. Já havia até teses acadêmicas sobre a doutrina do “Templo do Grande Autor”. Li algumas orações dirigidas a mim. Várias. Não sabia se ria ou chorava. Era gente pedindo para vender uma chácara por um bom preço (assinalavam isso), pedindo casamento, emprego, para ganhar na mega sena, aumentar o pênis, diminuir a barriga. Tudo coisa que eu, como autor do livro, realmente poderia fazer por eles. Bastava entrar lá e com um parágrafo enriquecer ou desgraçar a vida de quem eu quisesse. Era muito para a minha cabeça. Eu realmente precisava falar com alguém.
(continua…)