“Estas
Palavras
Estão
Presas,
Entre
Aspas.”
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“Estas Antes da invenção da caixa (e dos palitos) de fósforos, no tempo em que o fogo era um bem a ser protegido, quando não existiam isqueiros, pois bem, naquele tempo, quando uma casa se incendiava, uma das preocupações do dono era salvar, dentre as coisas que se queimavam, o próprio fogo. Se tudo se perdesse, era um alívio que se salvasse pelo menos o fogo. Quando se perdia tudo, até o fogo, era uma desolação só, tanto que, dentre os homens daquele tempo, havia esse ditado popular: “perdeu até o fogo no incêndio”. Era isso que se dizia de alguém que não tinha mais nada na vida. Quando os bombeiros chegavam, o trabalho era cuidadoso para que se salvasse o fogo do incêndio. Naquele tempo os incendiários eram respeitados. 1. O Pró Tensão desobedecerá às novas regras ortográficas. E às velhas também. Quando querem desqualificar um ladrão, o chamam de “ladrão de galinha” e, quando querem humilhar mesmo, partem para o diminutivo, “ladrãozinho de galinha”. O ladrão de galinha é visto como um pobre coitado que poderia estar roubando coisa melhor (como se uma boa galinha não tivesse seu valor). As galinhas devem se sentir por baixo com esse porém que dão aos ladrões delas e, para piorar, até as galinhas têm pena do ladrão de galinha. Já o ladrão não tem pena das galinhas e as furta correndo altíssimo risco, pois galinha faz barulho, muito barulho. Não deve ser fácil roubar galinhas. Ao contrário, para se roubar galinhas, você tem que ter uma técnica magnífica na arte do roubo (roubo é arte, é?!), uma vez que as galinhas são peças vivas e cacarejantes. O ladrão de galinha, no seu íntimo, se sente um grande mestre do ofício. Roubar bancos é coisa de seres grosseiros, bater carteiras é coisa de covardes, assalto a mão armada é coisa de maluco, só roubar galinhas exige tato e método. O melhor de tudo, na cabeça do ladrão de galinha, é que para a sociedade, o ladrão de galinha é um ser quase honesto, é visto como alguém que rouba em legítima defesa, rouba para comer (embora não exista nenhuma estatística dando conta de algum ladrão de galinha que se confessasse zoófilo). E tem mais, quando a polícia prende o ladrão de galinha, o povo culpa a polícia, que deveria prender gente graúda. Na prisão, os outros bandidos se compadecem dele “pô, sacanäge, o cara só roubou uma galinha, tá ligado?!”. O ladrão de galinha faz aquela cara sonsa de quem concorda que não fez mesmo nada de muito errado e os outros presos o olham como se ele fosse o próprio São Francisco de Assis. É como se ninguém ouvisse a palavra “ladrão”, só se ouve o “de galinha” e imediatamente se compadecem do “coitado do ladrão”, como se ele pudesse estar por aí matando e roubando outras coisas. E depois de preso, o ladrão de galinha ainda recebe uma pena leve (quando recebe alguma pena, quando a única pena não é da galinha) e pode sair para aperfeiçoar seu artifício. O CASAMENTO DA PROSTITUTA – A mulher pública foi privatizada. Comprei tintas e telas. Resolvi esquecer a literatura e me dedicar à pintura nas horas vagas. Havia um barracão no fundo do quintal, que me pareceu adequado. Mas pintar o quê? Fui atrás de umas fotografias antigas em preto-e-branco e achei uma muito interessante. Era a casa de minha infância na roça. Era uma casa modesta, muito parecida com aquelas de desenhos toscos que crianças que não sabem desenhar fazem. Coberta de palha, com duas janelas. Ao lado havia uma cerca de arame sem farpas que minha mãe usava para estender as roupas. Resolvi pintar aquela paisagem e inseri no desenho uma mulher segurando um menino pelo braço quase entrando na casa. E foi o que fiz. Coloquei muitas nuvens no céu e roupas no arame. Levei uns dois dias para o quadro ficar pronto. Meu estilo é meio impressionista, meio Manet meio Renoir. Depois do quadro pronto, cobri-o com um pano, deixei lá para secar e para pensar mais sobre ele, no que poderia ser melhorado. Naquela noite lembrei do arquivo com a história que eu tinha deletado há alguns dias. Poderia ainda estar na lixeira. E estava. Não me contive e o restaurei. Abri e o que vi foi uma terra devastada. Ao jogar para a lixeira, eu acho – pode até nem ter sido – provoquei tudo de terrível àquela gente. Terremotos, chuvas de granizo, enchentes, tufões, ciclones, furacões, pragas nas plantações e doenças de todo tipo. Morreram setenta por cento da população da cidade e já não se importavam mais com a igreja de que cada um fazia parte. As poucas pessoas que restaram se uniram como irmãs contra aqueles que, revoltados, saqueavam, estupravam, roubavam e matavam. Era a desordem. Fiquei surpreso com a situação causada apenas por eu ter clicado na tecla “delete” do computador e resolvi dar o fim àquela tragédia sem proporções e apaguei o arquivo definitivamente, até da lixeira. Pronto, estava acabada aquela história bizarra que me envolvera nas últimas semanas. Resolvi nunca mais escrever ficção. Não sei explicar o que houve. Não acredito que seja um tipo de poder que eu tenha, pois nunca aconteceu coisa semelhante antes. Não acredito que esteja ficando doido. Enfim, não sei o que pensar sobre esses acontecimentos. Porém, as coisas estranhas não tinham acabado ainda. Foi ali que resolvi escrever este relato e o fiz logo após terminar meu primeiro quadro. Isto foi há uma semana. Depois que deixei o quadro lá secando, enquanto pensava o que melhorar nele, comecei a escrever este relato a mão em um caderno, e rasgaria as folhas que sobrassem para não haver perigo desta história também continuar sozinha. Com o caderno debaixo do braço, fui ao barracão, pois me ocorrera fazer um retoque no quadro, iria acrescentar um pé de macaúba, que me lembrei que tinha no nosso quintal. E fui lá rumo àquele quadro de um menino e sua mãe entrando em casa, com muitas nuvens no céu e roupas secando no arame. Pois bem, quando retirei o pano de cima do quadro, o que vi foi uma linda aquarela onde se via a mesma casa, sob o mesmo ângulo, porém começara uma chuva grossa e a mãe do menino já estava no arame retirando as roupas para não molhar. outubro 5th, 2008 | Category: A HISTÓRIA QUE RESOLVI ESCREVER | Leave a comment |
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