O CANCIONEIRO DE ELOMAR

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Elomar não faz shows, faz concertos. Jamais se chamaria “songbook” a obra com a partitura de suas canções. O silêncio da grande mídia sobre o lançamento do cancioneiro de Elomar é mais um escândalo que acontece neste país. Desde quase vinte anos, sempre que vou a um concerto de Elomar e consigo falar com ele, pergunto sobre um livro com as cifras de suas canções. E ele me respondia sempre: “tenha paciência”. Na falta de opção, tive paciência e a espera foi recompensada com uma obra mais completa do que eu esperava. O magnífico trabalho feito pelos músicos Letícia Bertelli, Maurício Ribeiro, Hudson Lacerda, Kristoff Silva e Avelar Júnior é, com certeza, excelente argumento a favor deles no juízo final. Eu queria cifras, apenas o nomezinho do acorde em cima da poesia. Nada disso, me deram a partitura precisa da voz e do violão do menestrel do sertão. Trata-se de um documento que se não fosse agora, seria feito em 200 anos ou 300 ou 500, pois daqui a mil anos o mundo falará de Elomar. Xangai, um de seus melhores intérpretes, diz que Elomar é melhor que Shakespeare e melhor que Mozart, pois nunca se viu uma melodia do bardo inglês e nem um poema do gênio vienense. Claro que se trata de um chiste do cantor baiano, mas não chega a ser um exagero, acreditem.
Espero ansioso (e com paciência) o livro com as partituras das obras de Elomar para violão solo. Que Deus ilumine e dê ânimo a alguém para enfrentar a empreitada de modo que o produto seja tão bom quanto este “Elomar: cancioneiro” (2008, Duo Editorial Ltda).
ps – é injusto deixar de falar do projeto gráfico, dos livros que acompanham os cadernos de partitura, até da caixa que não tive coragem de jogar fora de tão bonita que é.

DESAVISOS DE SIX A UN

SIX
Tenho lido que “aluno” significa “sem luz”, como se a palavra viesse do grego e não do latim. Seria o mesmo que “analógico” significasse “sem lógica”. Definitivamente para essa gente latim é grego.
SETTE
Como no infinito as paralelas se encontram, na eternidade os opostos se fundem. Por isso, só a transcendência une. O sem-Deus, porém, para acabar com as tensões destroe um dos pólos.
CINQUE
O hipocondríaco não tem personalidade, tem sintomas. Seu psicólogo é o clínico geral, pois em sua alma estão todas as doenças do corpo.
DEUX
Se a solidão é a maldição dos seres superiores, os solitários se enganam, vivendo na ilusão de que são especiais de algum modo. Se bem que, de fato, pode ser que a solidão seja causa e não o efeito da tal superioridade.
OITO
Nunca na história deste país câmeras de segurança flagraram tantos assaltos. Isso não tem impedido novos roubos, porém, por via das dúvidas, os ladrões têm ido ao trabalho bem vestidos e penteadinhos.
TRE
Ferreira Gullar disse uma coisa interessante na Folha: que o Brasil produz corruptos como produz jogadores de futebol. Mas não é só isso (digo eu), o Brasil também é grande produtor de marmeladas, laranjas e pizzas.
X
Tudo o que Deus fez é perfeito. O que nós fazemos isso sim é imperfeito, mas isso não nos torna a nós imperfeitos. Por exemplo, a cana é perfeita, já o melaço pode desandar. A cana foi feita por Deus, o melaço por nós.
NEUF

A cama de casal é usada muito mais por solteiros. Deveria se chamar “cama de casal solteiro”. Já os casados costumam dormir nas chamadas camas de solteiros. Eu, que não tenho nada com isso, sou solteiro e durmo no sofá.
QUATTRO
Eu não acredito no que é bradado como certo por políticos (e jornalistas, vai). Não acredito no que resulta em ricos assaltarem o Estado justificando o aumento do poder deste. Por isso não acredito nessa crise. E se ninguém acreditasse, ela não existiria. Essa crise é um delírio coletivo.
UN
Governo ajuda bancos porque a bolsa caiu. Logo cassinos vão pedir socorro contra o azar dos jogadores.

MATRIARCADO

Antigamente havia o matriarcado porque não se sabia quem era o pai das crianças. Depois que o homem criou vergonha na cara e resolveu assumir a paternidade e cuidar da mulher e dos filhos, começou o patriarcado. Muitos chamam o patriarcado de machismo. Com a “evolução” dos costumes, estamos voltando aos tempos pré-históricos, pois, em muitos casos, já não se sabe quem é o pai da criança. O matriarcado está voltando. Matriarcado é promiscuidade. Espero que o feminismo não seja apenas isso, uma luta pelo direito à promiscuidade.

QUATRO

DO INEVITÁVEL – Um azar danado / A pessoa nascer / Lá no passado.
DO SANGUE - E eis me aqui! / Ensanguentado / De tanto sorrir.
DO NADA – Nas mãos levo nada / Sequer miolo de pote / Ou água desidratada.
DA REGRA – Quero ser a regra / Não a que segue / Mas a que quebra.

CONFORTO

Uma boa resolução de ano novo: “livrar-se da escravidão do conforto”. O conforto é a situação que buscamos para que nos sintamos como gostaríamos, sem nenhum incômodo. Só nós e nossos “lindos sonhos”, que são, na prática, a fonte de todo o tédio. O dinheiro serve para isto: comprar conforto. Ser rico é viver confortavelmente. Infelizmente dinheiro não compra nada além de conforto. Dinheiro não compra a aventura que é viver na insegurança. Optar pela insegurança é algo sábio a ser feito. A vida de um miserável pode ser bem menos tediosa do que a vida de um milionário. Ter controle sobre a própria vida é ter menos vida. Se aventurar só faz algum sentido se essa aventura for o mais longe possível da ilha da fantasia. Aventura de rico é tudo menos aventura. Agora, dá licença que vou ali jogar na mega…