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O universo do que não vejo e não sei é muito maior do que o meu universo visível e apreensível. Gosto de falar do que vejo e sei, mas gosto demais também daquelas coisas que existem, mas que não me foram apresentadas. Amo aquilo que ainda não aprendi. E gasto demais meu tempo pensando nas coisas que não sei e concluindo coisas a respeito delas. Minha mente chega a essas coisas com a mesma facilidade e intimidade com que chega às coisas que me cercam e às certezas que tenho. As coisas que tenho são poucas, o tempo que tenho é diminuto, a vida é curta demais, por isso contemplo mundos sem espaço e tempos sem fim. Quero que tudo o que não sei se misture às coisas que sei. Quero que o universo em que habito viva dentro dos universos onde não estou, pois passeio por eles o tempo todo enquanto reflito a respeito do que jamais saberei.
Casal se encontra pela primeira vez e o romance invade o ambiente. No apartamento do rapaz (decorado com muito bom gosto), ele abre um champanhe, sentam-se próximos cada um em sofás colocados estrategicamente para deixá-los muito próximos e conversar literalmente face a face. Sentam-se e, olhos nos olhos, ele pede licença para colocar uma música. Vai até uma estante, pega um CD, coloca-o no aparelho e volta ao sofá. Quando se senta, a música começa tocar. É Amado Batista, aquela canção que diz “no hospital, na sala de cirurgia…”. A moça abre um sorriso e pergunta com voz emocionada: “puxa, você gosta do Amado? Eu adoro!”. O rapaz diz que gosta mais da primeira fase até quando Amado Batista fez seu filme “Sol Vermelho”, pois a partir dali, ele cedeu e tentou fazer uma música com uma harmonia mais sofisticada e que os primeiro discos são mais bem acabados com canções onde se ressaltam as pausas longas entrecortadas com colcheias quase sincopadas, demonstrando clara influência de Amado do romantismo alemão, sobretudo a fase final de Brahms. A moça cora de felicidade e diz que também sempre viu muito de Brahms em Amado Batista e achava que estava louca, pois nem tinha coragem de confessar isso aos amigos. O moço diz que desde que Amado abandonou um pouco sua veia do começo de carreira, ele passou a ouvir mais Wando e Fábio Júnior. Wando, que no começo da carreira fez uns sambas bem recebidos pela crítica, resolveu fazer música mais viva e sustentou isso por quase uma década fazendo discos antológicos. A moça diz que, sem dúvida, o Wando da segunda fase, a fase das calcinhas e canções de motel é o melhor que a música brasileira já produziu. O rapaz pergunta se ela quer tomar um vinho e a moça diz que quer. O rapaz vai à geladeira e traz um litro de Mioranza com dois copos desses de goiabada. A moça entra em êxtase. Pega a garrafa e, com voz chorosa, diz: “Mioranza, 2006, meu Deus, estou no paraíso, esta safra do Mioranza foi maravilhosa, claro que nada supera o sangue de boi 2002…”. Ele confessa que guarda uma garrafa Chapinha 1988 para uma ocasião super especial, por exemplo, quando se casar. Ela diz: “eu aceito”. Os dois riem muito. No fundo, Amado canta.
(tem quem diga) Eu não nasci para ser gente (há estátuas gregas mais gente do que eu) Faço parte do grupo dos que almejam o nada: Temos uma vontade irresistível de calar o riso Achamos divertido isso Façamos o leitor chorar Que isso é muito divertido
Todo mundo é nada À parte isso, tem todos os sonhos do mundo Pois todo mundo é Pessoa
(já eu) sou filho da modernidade Essa filha insana da eternidade Que quer, mas ignora o que é, de fato, a liberdade Que se avista no espelho e se vê nitidamente cega Por isto estes versos sem regra (com medo de ir ao fim da linha) Esta prosa mascarada, serva real da poesia Prosa que não cai em si e insiste em ser poema
Apesar de ter todos os sonhos do mundo Todo mundo é nada Pois todo mundo é Pessoa À parte isso
Sou livre contra estes tempos Sou preso a ele, mas não deliberadamente Vivo entre aspas e “espero faltar ao encontro com a morte” Vivo como todos: evitando a morte e me recusando a viver A paz me entristece. A guerra me deprime Saber é sofrer, mas ignorar não é nenhuma alegria Ser poeta é só mais uma forma confusa de rotina
À parte isso Todo mundo é nada Pois todo mundo é pessoa
Não saber é hoje a grande moda Dando à ignorância – nada douta – um lugar que ela jamais mereceu A ignorância – nada douta – é a nova rainha dos letrados “Pensar é errar” é o que pensam os pensadores de hoje Deus é visível, basta não ser cego dos “olhos de ver Deus” Quem é cego deveria acreditar naqueles que enxergam Quem enxerga deveria amar aqueles que são cegos e guiá-los
Todo mundo é pessoa Apesar dos sonhos do mundo Todo mundo é nada À parte isso
Já fui feliz e achei chato, já fui triste e é pior Hoje, nenhum dos dois estados me atrai suficientemente Não os procuro nem fujo deles nem lamento nem me alegro Os prazeres e as dores são pálidos detalhes dos dias O tempo – de sóis e luas – está sempre lá fora Aqui dentro não há tempo, espaço nem destino Aqui é só um rio que passa e invade tudo
E apesar dos sonhos do mundo Todo mundo é nada À parte isso Todo mundo é Pessoa
Quando leu que a ignorância é causa de todos os males, o parvo Geronilson Marques se sentiu incomodado. Tolo convicto, resolveu se engajar em uma campanha em que reuniria todos os cabeçudos, ignorantes, boçais, bocós, tontos, simplórios, ingênuos e babacas em geral e criou o slogan: “em alguma coisa, burro todo mundo é, relaxe“. O fenômeno se espalha pelo mundo e tem por objetivo pedir respeito a quem não tem inteligência, afinal, os apalermados também são gente. Fez uma ONG e conseguiu arrecadar dinheiro suficiente com o argumento de que seu trabalho era aumentar a autoestima dos bestas. Os patrocinadores acharam a iniciativa muito inteligente, mas não o disseram, para não ofender Geronilson. “Muitos têm vergonha de se dizer imbecil por causa do preconceito e rejeição”. A Organização já conta com mais de 5 mil participantes, embora pelo menos 2 mil se declarem, modestamente, apenas “desinformados”. O próximo passo é solicitar ao IBGE que quantifique as cavalgaduras do país. O principal objetivo da BOBO (é o nome da ONG) é combater o preconceito, pois estudos mostram que a sociedade não tem muita simpatia pelos idiotas. Segundo pesquisas respeitáveis, eles estão abaixo dos fumantes e quase empatados com os doentes mentais. A BOBO em seu estatuto diz acreditar que só há bestalhões por causa da pressão para a inteligência e que todos têm o direito de achar que “2 + 2 = 5″. Há relatos comoventes de perseguições em face da jumentice das pessoas. Seguindo a tendência internacional, a BOBO tem promovido cursos para seus participantes com o objetivo de educar as pessoas na ciência da asneira. Alegam que a inteligência e a sabedoria é que levaram a humanidade a este estágio deprimente e que a estultice é o caminho. Na esteira dos best-sellers mundiais “Saber, pra quê?” e “Seu Besta” esperam também que todos os otários e obtusos saiam do armário. O movimento conta com o apoio de várias celebridades, atores, médicos, arquitetos e intelectuais de prestígio para quem, a inteligência é algo absolutamente irrelevante e desnecessário. Há até teses acadêmicas defendendo a beleza das idéias de jerico. Por uma sociedade aberta, livre e respeitadora dos direitos individuais, os trouxas se revelam, se organizam, exigem respeito e se tornam arautos de um novo tipo de inteligência. Marques clama pelo entendimento entre inteligentes e toupeiras: “abra sua mente, considere a possibilidade de deixar de ser sabido, pense nisso”, diz o líder dos panacas. Néscios do mundo, uni-vos. Nada tendes a perder, suas bestas!
No mundo dos canibais há um grupo que só come mulheres (inclusive o livro “Receita de Mulher” é um dos grandes sucessos da literatura gastronômica), mesmo sabendo do fato provado pela ciência médica que mulher faz mal para o coração. “Mas, o trem é bão demais”, declarou um glutão ginecofágico.
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