O AMOR É CEGO

O amor é cego
Usa bengala e cachorro
Pede esmola nas esquinas
O amor passa o chapéu
O amor toca sanfona

O amor é cego
Não enxerga de nascença
Não dirige, lê em braile
Usa óculos escuros
Seus olhos são para o choro

O amor é cego
Não liga pra escuridão
Não se importa com a luz
Tem senso de direção
É ele quem me conduz

O amor é cego
Precisa de companhia
Também de sinais sonoros
E de pisos indicadores
Mas é ele quem me guia

O amor é cego
O amor esbarra nos móveis
Se os tiram do lugar
O amor diz o que pensa
Pois fala sem olhar nos olhos

O amor é cego
E me pega pela mão
Guia-me por onde eu enxergo
Como se eu fosse o cego
O amor vê na escuridão

O amor é cego
Conhece às apalpadelas
Vê com as mãos e não esquece
Rico de imaginação
O amor não nos merece.

DESAVISOS – DE SEIS A VII

SEIS
Ideia para negócio: “Lojas Parapeito”, tudo para peito: sutiãs, silicone e também proteção para borda de janelas e varandas, aquilo que chama “parapeito”. Outra ideia: “Produtos Agosto”: sal, açúcar, pimenta, leite. Quando na receita constar “Sal a gosto”, é a nós que procurarão.

TROIS
Todo mundo quer vender o que produz e comprar o que precisa, capitalismo é isto. Só alguém que não queira de forma alguma obter o que precisa e nem vender o que produz é um anticapitalista. Existe alguém assim?

NEUV
O significado é a alma da palavra. A palavra é o corpo do significado. A palavra morre, sua alma não. Há significados vagando como alma penada buscando a palavra que o incorpore. Há palavras ricas, pobres, feias, bonitas, grandes, pequenas, pesadas, leves. Palavra também é gente.

FOUR
O feto é também chamado de “nascituro”, que significa “aquele que vai nascer”. Ao impedir que nasça aquele que vai nascer comete-se assassinato como se matasse um adulto, a quem se poderia chamar de “aquele que vai viver”.

HUIT
Palavrismo. Unseteúnico. adj (dir. 171). 1. Que quer passar as pessoas pra trás. “Lá vem o deputado com seu jeitão unseteúnico”. 2. Esperto. 3. Charlatão 4. Artista. 5. Bandido 6. Saudável “aquela criança tinha uma energia unseteúnica”.

UNO
Os músicos improvisadores são os que mais ensaiam. Um improviso não sai bonito se não for bastante ensaiado.

CINQUE
Morrer é ser apagado. A questão maior é se esse “ser apagado” se trata de um “ctrl x” ou de um “delete”. Lembrando que na vida não tem “ctrl z”. Mas para o Grande Programador nada é impossível. E Cristo não só salva como também faz back-up.

SEPT
Como se amizade fosse uma luta de classes, marxistas só aceitam presentes do preço que possam retribuir.

DOS
Ela disse que estava brincando, mas depois disse que estava brincando quando disse que estava brincando. Acho que estava brincado de novo.

VII
Os jovens têm que aprender com os velhos porque os velhos esquecem.

AUTOBIOGRAFIA

1. Meus olhos não têm fome. Só minha alma. Transpiro introversão.
2. Meu nome deveria ser Tristão. Ia combinar direitinho.
3. Vivo com meus pares. Com meus pares de sapatos.
4. Sou um ser inadequado.
5. Mais amado do que merece.
6. Sou um amador (em sentido lato).
7. A internet me deixou burro muito burro demais.
8. Sou um rio sem margens.
9. Cego, meu guia é uma tartaruga.
10. Não sou suficientemente santo para prescindir da Igreja.

FOTOGRAFIA AMARGA

Você gostaria de ser fotografado e exposto como símbolo da miséria? Gostaria de ser modelo do calendário “Os desvalidos do ano”? Bem, se você for mesmo um desvalido, você nem sabe do que se trata, nem sabe o que é uma máquina fotográfica ou direito de imagem, então, nem imagina o contexto em que lhe inserirão. Uma amiga minha precisava de umas fotos de pobres para fazer um trabalho na faculdade. Pegou uma máquina e saiu tirando foto dos miseráveis que encontrava. Logo nos primeiros flashes se sentiu mal, muito mal. Que direito ela teria de expor aquela pessoa como sendo o protótipo da miséria? Ora, ela não gostaria que fizessem isso com ela, então colocou a máquina na sacola e desistiu da tarefa. Ela não encontrou um bom motivo para ser um tipo de gigolô da miséria desses que tem por aí e, enquanto dispara sua objetiva, “sabe” que está fazendo aquilo por um bom motivo. Na cabeça deles é mais ou menos como matar um rato para ajudar na cura de uma doença. Acontece que gente não é rato e com gente é diferente. A invasão ao direito da imagem não tem conserto. Depois que você aparece, contra sua vontade, na capa do livro de luxo do fotógrafo famoso como sendo o lascado da década, o estrago é indelével. Há outra coisa, um homem do mundo, desses que conhecem todo o planeta e tem boa formação, convence com grande facilidade uma pessoa miserável de que aquela foto não é nada demais. Mesmo uma foto autorizada de uma criança descalça com catarro escorrendo (“posso tirar sua foto, minha filha?” A menina responde que pode) traria problemas éticos à mente de um ser humano normal. Mas os tais “benfeitores da humanidade” discordam do I-Ching, pois para eles os fins justificam os meios e tome porrada e cusparada no indivíduo, pelo bem da humanidade. Toda arte que levanta bandeira dá um tiro no pé. No pé da arte, pois para o bolso do artista, muitas vezes, é bom. A política tem o toque de merdas, quando você infla sua arte de política, ela deixa de ser arte e se transforma em política. Você será lembrado pela sua “mensagem”, ninguém falará da beleza de sua arte, pois ela, de fato, por culpa sua, é apenas empregada doméstica de sua ideologia.

NO APOCALIPSE

Um anjo toca uma trombeta e anuncia:
- Por favor, os intelectuais, por favor, todos os intelectuais fiquem aqui deste lado.
Começa a movimentação, um pergunta para onde deve ir, pois já tinha sido chamado para um lugar onde ficariam todos os gays, o anjo (pensando: “se eu fosse você ficava onde está”) diz que ele deve decidir se é mais bicha ou mais sabichão, “ou sa-bichona” responde o intelectual rindo meio nervoso, mas o anjo não acha graça. Tenta uma segunda piada: “Ah, então é como no sistema de quotas, eu é quem digo o que sou”, mas o anjo também finge que não entende e segue a exortação:
- Os sabichões, por favor, os ditos intelectuais, fiquem deste lado, última chamada, intelectuais, Deus quer falar com vocês. Não, não é para trocar umas ideias não, seus engraçadinhos, vão é levar uma catracada, isso sim. Intelectuais, última chamada, sábio não vale, quero só intelectuais. Quando estiverem juntos, separem-se entre ateus e teístas, por favor. Isto é, quem “era” ateu, não é possível que depois disto aqui ainda sejam. Intelectuais, última chamada, Deus sabe muito bem quem é e quem não é, não tentem se enganar…
Outro anjo surge, dá outra trombetada e anuncia:
- Cristãos de esquerda, por favor, cristãos comunistas e simpatizantes de comunistas, se ponham aqui, logo atrás dos intelectuais, Deus quer falar com vocês também, ignara malta…

RIMAR AMOR E DOR

Nelson Rodrigues tem um livro chamado “Não se pode amar e ser feliz ao mesmo tempo”. Vou discordar da frase (ou este post não sai), pois é perfeitamente possível amar e ser feliz ao mesmo tempo sim. O problema é que a dor é a sombra do amor. Haverá sempre um perigo rondando o amor, mas não o tornando infeliz necessariamente. E falo isso de qualquer tipo de amor. Quanto mais amamos alguém, mais nos preocupamos e sofremos com o sofrimento dessa pessoa. Amar é ter mais de uma vida. Um pai sofre as dores de todos os filhos, mas também ri o riso de todos eles. Não é à toa que Nossa Senhora é mais bem-aventurada das criaturas, é que seu filho é o Rei dos Céus. A dor do amor é inevitável. Vinícius resolve a questão da dor inevitável com sua frase “amor só é bom se doer” em um daqueles afro-sambas. É possível amar e ser feliz, mas amar e não sentir dor não, pois não há vida sem dor (e nem vida sem amor, pois o amor é a própria vida). Dor não é sinônimo de infelicidade e pode até significar felicidade. Quando quem amamos espreme um cravo em nossas costas, dói pra caramba, mas é ótimo. Nem tudo que dói é ruim. Felicidade é outra coisa.

GÊNIO MIRIM

Mozart começou a compor ainda muito novinho. Sua primeira peça foi feita aos 3 anos de idade e ele a nomeou de “Valsa da Fralda”. Depois dessa, se seguiram a “Mazurca da Chupeta”, o “Minueto do Leite” e o “Scherzo da Mamadeira” e o divertido “Prelúdio do Alfabeto”. Já um pouquinho maior, fez o pequeno concerto “Meu dente de leite” e a grande “Sonata da Caxumba”. Aí, quando finalizava a “Fantasia das Espinhas”, seu pai chegou (aquele chato) e o convenceu a adotar para suas peças nomes tradicionais e cheios de números.