SANGUE

No meu sangue tem saudades
Tem o pranto que escondi
Tem o riso que guardei
Tem o peso da idade
No meu sangue tem pedaços de mim

No meu sangue há novidades,
Meu sangue não é azul
É vermelho e transparente
Refletindo totalmente
Meus sonhos da mocidade
O meu sangue corre pros mares do sul

No meu sangue há naufrágios
Meu sangue há mapas em branco,
Mantras, astros, mastros, mantos,
Meu sangue é um mar bem frágil.
Onde bóiam multidões.

No meu sangue há tubarões
Sardinhas, gatos, baleias
Meu sangue não corre em veias
Meu sangue voa em tufões
Em que navegam voadeiras

E afogado em meu sangue
Bóia um corpo naquele mar
Que eu tento resgatar
Um corpo bem familiar
De quem não sabe nadar
Mas que teima em navegar
E morre no próprio sangue.

Sou eu o corpo a boiar.
Mas eis que entendo a mão
E me puxo para dentro da embarcação.

DESAVISOS DE SETE a UM

SETE
Fizeram uma lei autorizando matar anencéfalos, como não sou anencéfalos, não me importei. Fizeram uma lei autorizando matar filhos de estupradores, como não sou filho de estuprador, não me importei…

NEUF

Quando a ideologia tem relação com a realidade viva, a coerência até se impõe. Por isso é mais fácil a um capitalista ser coerente do que a um comunista, embora os dois tenham lá seus delírios.

FIVE

A arte nos fornece a nata densa, o creme do leite da vida. Arte tem que ter acentuado sabor e acentuada textura. Pergunte à arte que você faz: “isto é leite ou nata?” E descarte-a, se for leite. Pois leite é a rotineira vida. Leite aguado.

DÉIS
O mar é que é a capital. Um lugar enorme com muita coisa bonita, não essa coisa pacata dos rios pequenos. Mas também tem perigos, tem tubarões. O mar não tem comprimento nem largura, é uma coisona só. Não é como este rio, essa coisinha espichada, curtinha, estreitinha. Assim matutava o peixe matuto.

SIX
É preguiça mental concluir que o invisível aos olhos não existe.

VI
Há uma obsessão saudável: a obsessão pela verdade. A verdade não sou eu. Ela está fora de mim e eu devo buscá-la e me harmonizar com ela. Renunciar a si é abraçar a verdade.

OITO
O matuto foi a Portugal e lá o chamaram de pá. “Ô pá, ô pá”, eles diziam. O matuto então passou a chamar os portugueses de picareta. “Se eu sou pá, eles são picaretas…”

DEUX
Ideia para um poema: ser o péssimo resumo de uma história grandiosa. Um péssimo resumo pode dar uma ótima história. Um bom também. E vice-versa.

3
O mercado é indomável. Quando o governo impõe regras, ele desobedece; Quando o governo o proscreve, ele vive no submundo, ainda mais livre.

UM
Ideia para conto: restaurante canibal onde são servidos italianos à bolonhesa, feijoada com orelha e pé de africanos, sushis de japoneses, hot-dog de americanos etc. Chama-se “Restaurante Etnias”.

QUADRILHA

Em junho, no complexo penitenciário do Buraco Quente, os presos resolveram organizar uma festa de São João. O diretor da prisão achou uma boa idéia uma festa de São João, mas considerou um exagerou que se fizesse uma como deve ser, com fogueira e quentão e cortou vários itens da proposta. Mesmo assim a festa se fez. Um dos presos ficou de organizar a quadrilha, que, de fato, no fim de tudo, foi só o que funcionou direito. No começo, houve o natural mal entendido “como assim, vamos organizar outra facção criminosa?”, “não, idiota, é quadrilha de São João”, “quem é idiota, mermão, qué morrê?” Mas a festança foi feita, com casamento na roça, comidas típicas e todos dançaram muito. Até a televisão veio ver e durante a semana só se falou na quadrilha dos bandidos. No ano seguinte, quando todos já tinham esquecido a festança, o preso organizador voltou a falar em quadrilha. Feliz com o sucesso, no ano anterior, pediu audiência com o diretor da prisão, que era novo ali, e foi logo falando com entusiasmo que estavam começando a organizar a maior quadrilha já vista na história daquele presídio. O diretor nem quis saber de detalhes e ansioso para usar as prerrogativas do regime disciplinar diferenciado, mandou o preso para a solitária, onde ficou isolado da malta até outubro.

ALMA

Em minh’alma está chovendo
Em minh’alma há uma coceira
Que teima, que arde e queima
Que dói feito pedra no rim
E eu tive uma crise de riso
Quando vi que é mesmo assim.

A minh’alma está aberta
Com as portas escancaradas
Por onde entram risadas,
E esperas resignadas.
Por onde saem sons ao estilo
De uma sinfonia de grilos

E em minh’alma, vendo aquilo,
Fiquei demais intranquilo
Ressentido, invadindo o recinto!
Eu planejei um seqüestro.
Sequestraria o maestro.

Tomei-lhe da mão direita a batuta
Mas não houve muita luta,
O maestro era ambidestro
E era um grilo gigantesco
Com um jeitão carnavalesco
Que continuava regendo
Tranquilo, me ignorandoi

Depois da canção tocada
Chamou-me para uma conversa
E notei naquele ser grotesco
Uns traços de parentesco
Era um grilo simiesco
Que era a cara de mim mesmo
Aquele grilo era eu.
O zumbido em minha cabeça
Era orquestrado por mim

A SEREIA

A sereia se mudou para o sertão. Ela sabe que aquilo ali será mar em breve (lera isso no livro de Euclides da Cunha). A vida no sertão é árida, mais do que sereias suportariam. Mesmo assim, dizem, a sereia já encantou três sertanejos. As mulheres estão preocupadas: com a sereia que chegou e com o mar que chegará. A sereia passa fome no sertão. Pensava ela que poderia viver de dar aulas de natação. “Não me admira que estas pessoas passem fome, ninguém quer aprender a nadar. Quando vier o mar, sentirão falta de saber nadar”. A sereia sofria como sofrem os profetas que vivem não a vida que têm, mas as profecias que adivinham. Ensinava para as crianças o que era água. Descrevia o mar. Dizia-lhes: “mar é o que eu choro”. E dava suas lágrimas para que os meninos provassem. Ela, que tinha ensinado a nadar tantos peixinhos… Lembra-se da escola que tinha no fundo do mar. Os peixinhos nasciam e iam pra lá. Ainda nem sabiam nadar e saiam cantando, “quem me ensinou a nadar foi a sereia do mar”. Orgulhosa, a grande professora que vivera de nado, agora nada. Nada de nados. Um dia foi à missa, pois ouviu falar de água-benta. Onde ouvia falar de água, ela ia. “Cadê a água benta?” Não havia, ela tinha que aguardar, pois a água (sempre) não dava para nada. Aguardar água que não dá, água(r)dá. “Sem água ninguém aguenta, dá-me um pouco de água-benta, para a vida dessa gente”. “Dá-me um pouco de aguardente”, os homens diziam atrás, completando a rima e profanando o canto da romaria. Na Igreja descobriu velhos conhecidos, “Santa Bárbara? Conheço demais, ela acalma as tempestades” e Maria? “Ah, é a minha rainha, ela é a dona do mar e é mãe do filho do Criador, adorei essa religião”. E ficou por ali, como todos, naquele lugar sem nenhuma ordem e nenhum progresso. A sereia era um dentre os sertanejos que esperavam o mar. Conversava com o vento. Chamava aquele vento de “vento de refrescar”, pois os ventos do mar são “ventos de levar”. Sempre pedia: “quando eu morrer, me joguem no mar”. Cantava: “eu não sou daqui, eu não tenho amor”, mas assumia que agora, era sertaneja até embaixo d’água. E sorria.

PS – Este conto curto meu foi adaptado para a linguagem de HQ, veja aqui.

PRESENTES (SAPO NAMORANDO A LUA)

Presente é coisa que não tem importância. O importante é quem dá e quem recebe o presente. Quando alguém que você não gosta lhe faz um poema, você responde falando dos aspectos formais do texto “puxa, como você é bom de rimas”. Quando alguém que você adora lhe manda um simples batatinha-quando-nasce você vai ao céu de tanto contentamento. Quando alguém que você ama lhe dá um presente bem bobinho, você com seus olhos felizes liga e diz o quanto adorou. Quando alguém que para você é atraente como um leproso lhe dá uma caixa de caviar iraniano, você liga para reclamar “ah, não precisava, você me deixa sem graça desse jeito, faz isso não, tá?” A culpa não é de ninguém, o que se pode fazer quando um leproso cai de amores por nós? O que fazer quando o leproso somos nós? Amor é coisa difícil, principalmente para leprosos. Pensando bem, o pior leproso é o leproso carinhoso.

CRIME DE GUERRA

O guerreiro foi fuzilado como criminoso de guerra, condenado pelo crime de bondade. Ele não sabia que a bondade na guerra é um crime e que guerreiro bom é guerreiro ruim.

PICASSOS

Pintores traçam modelos. E que traços!

A VIDA DO POETA

Versos eróticos na mocidade; Hinos religiosos na velhice. Eis o resumo da vida do poeta.

POR QUE TUDO ACABOU

“É que ela só falava ‘eu te amo’ com sotaque”.