O ESPÍRITO, O TEMPO E O MUNDO (I)

1. O espírito é o poder de conhecer as coisas.
2. O espírito é a ponte entre o mundo e a consciência.
3. O espírito cria e unifica a consciência que temos de nós e do mundo.
4. O espírito é o senhor e as coisas são seu brinquedo.
5. O espírito está sempre assimilando o mundo. É sua eterna função.
6. O espírito ilumina o mundo para que o vejamos como ele realmente é.

O QUE CADA UM É

De família de músicos, o jovem músico tímido (coitado!) sonha em ganhar a vida em um escritório, mas é violentamente pressionado pela família a trabalhar na música e fazer sucesso. No palco, suas as mãos tremem, a voz falta, o violão vacila. O pai, velho cantor, olha atravessado e ele ataca a introdução da canção com a certeza de que não nasceu para aquilo. Além disso, quando tiver coragem de abandoar o palco, os colegas do banco também não o perdoarão por ter escolhido a tediosa carreira de bancário. E ele sorrirá sabendo que ninguém escolhe ser o que é, apenas tem ou não tem o ânimo de conviver com as forças contrárias que teimam em sabotar nossos sonhos.

DESATAVIOS VIII

1. O amor não é imposto. É inevitável. Imposto é o IOF.
2. O azar da sorte é a sorte do azar.
3. O velhinho tarado estava com o pé na alcova.
4. O Brasil já foi mais brasileiro.
5. A solidão está na moda e eu detesto andar na moda.
6. Há muitos nós na corda da vida.
7. O medo é filho das limitações. O destemor é filho da loucura (ou da razão).
8. Tem uma cidade no Amazonas chamado “Democracia”. Que nome mais demagogo!
9. Você tem muito bom gosto, até parece com o meu.
10. Juiz de fora é incompetente, já dizia meu professor mineiro.

GUERRA E PAZ

A paz, e tudo mais, exige um preço, que devemos pagar com alegria, afinal é maravilhoso viver em paz. É preciso a vigilância de um samurai para que se viva em paz. A paz é o sonho do guerreiro. Só o pacifista não vê. E há também o guerreiro que só vive em paz quando está em plena guerra. As guerras ocorrem por motivos estéticos. Toda guerra é uma questão de gosto. Todo guerreiro, todo exército, todo cangaceiro tem um conjunto de símbolos, vestimentas e rituais puramente estéticos. A arte é uma arma de guerra. A arte mexe com nosso senso estético e este mexe com os outros sentidos. Sem beleza não há amor, sem amor não há ciúmes, sentimento de posse, sofrimento, mágoa, euforia, gozo, frustração. A beleza é o bálsamo e o antibálsamo, a droga e a antidroga, por isso a arte é fonte de guerra e paz. Aliás, quando algo belo entra em sua vida, acabou sua paz. E, por outro lado, vivemos buscando o belo, crente de que só assim teremos paz. A beleza faz falta, ainda que seja só um ornamento. O poeta diz “não existe coisa mais triste que ter paz…” Beleza deveria ser escrita com maiúscula como “Deus”. A frieza dos genocidas é sua indiferença à beleza. Genocida é aquele que mata sua própria gente depois que a guerra acaba. Há uma razão para a maldade: a indiferença ao belo. Dessa indiferença à beleza, surge o cerceamento à liberdade, pois o que é a liberdade? É o direito que queremos ter de gostar sem impedimentos. Não se luta pela “liberdade”, luta-se pelo direito de ler qualquer livro, ouvir qualquer música, ver qualquer filme sem impedimentos. Luta-se pelo direito de achar bonito aquilo que nos deleita e de se deleitar com aquilo que achamos bonito. Liberdade é isto, direito de sentir e buscar o sentimento que quiser. Não é à toa que o livre arbítrio é uma das cláusulas pétreas da lei de Deus. Deus permite que façamos qualquer coisa, mesmo contra Sua vontade porque nos fez livres. Os poderosos, porém, não têm a liberdade em tão alta conta e daí surgem as guerras. A guerra pela paz de viver na guerra em que nossa alma escolher. Pacífico é aquele que vive com a alma em guerra causada pelas tensões estéticas onde é jogado pelas mãos da realidade e é capaz de dar a vida para que o deixem em paz em sua guerra privada.

MÁQUINA DO TEMPO

O fabricante de máquina do tempo acabou de receber umas encomendas. Todas para ontem. E já entregou, pois um fabricante de máquinas do tempo nunca atrasa suas encomendas. Aliás, desde que se inventou tal engenho, a metáfora para toda inabilidade é “ser fabricante de máquina do tempo e atrasar a entrega”. O cliente chega e diz: “seu Tonico, eu quero uma máquina do tempo para ontem, pode ser?”. O velhinho, ajeita os óculos e responde com cara cética: “uai, Zé, sua memória tá ruim, hein? Eu já lhe entreguei, sô!” O cliente dá um tabefe na própria cabeça para ver se com a sacudida, a mente se atualiza e toma consciência do passado e do presente modificado graças a sua ida ali pedir a fabricação da máquina e recorda que realmente, a máquina tinha sido entregue no dia anterior. E seu Tonico acrescenta: “agora, só falta me pagar, seu desmemoriado ou não fabrico mais máquina nenhuma procê”. Ninguém dá calote em um fabricante de máquina do tempo, pois ele pode voltar ao ontem ou deixar de ir ao depois de amanhã e não entregar a encomenda. Certa vez, um cliente pediu uma máquina e seu Tonico respondeu de pronto: “faço nada, cê num vai me pagar, sai daqui seu caloteiro”. “Mas seu Tonico, é a primeira vez que venho pedir seu serviço”. “É a primeira vez mesmo, você vai me pedir uma pro mês passado, eu vou fazer, e sei que fiz porque já entreguei no mês passado e até hoje ocê tá me devendo, seu vagabundo, sai de minha oficina, fiquei no prejuízo, seu safado, só me apareça aqui com dinheiro…”. Desde então, seu Tonico só faz máquina para entregar no passado se o pagamento for feito no momento do pedido. Antes, ele fazia para receber o pagamento na entrega, mas viu que quando a encomenda era para o passado, isso não funcionava bem. Porém, para entregar no futuro, ele cobra a metade no ato da compra e divide em até três vezes e quando o cliente pergunta como anda a fabricação da encomenda que será entregue no futuro, Tonico responde: “acabei de entregar procê, voltei do ano que vem indagorinha”.