ALMA

Marcelinho tinha medo de fantasmas. Um dia, na aula de religião, a professora falou que todos nós temos um corpo e uma alma. Marcelinho gelou. “Eu também tenho uma alma?” “Sim, Marcelo, todos nós temos”. Pronto, o menino não dormia mais. De noite, tinha pesadelos, tinha medo que a alma que ele tinha fosse lhe assustar ou pegar no seu pé. Perguntou para a mãe, “mãe, eu tenho uma alma?” “Claro, meu filho, que você tem uma alma e é uma alma muito grande a sua”. Coitado, a alma agora ocupava todo o quarto, de tão grande que era. “Eu não quero ter uma alma”, disse ele à mãe, “eu tenho medo de alma!” A mãe riu muito enquanto o Marcelinho chorava muito. “Meu filho, não precisa chorar nem ter medo de sua alma, ela não é sua, ela é você. Nosso corpo só se mexe, só existe, brinca e come e ama porque a nossa alma faz ele fazer isso. Na verdade nós somos a nossa alma. Você é a alma que tanto teme”. Ah, meudeusdocéu, foi dizer isso para quê? Agora é que o menino não dormia mesmo e quando dormia tinha pesadelos terríveis e repetia, “eu não sou uma alma, eu não sou um fantasma, eu não sou um fantasma, eu tenho medo, eu tenho medo”. “Marcelinho”, disse-lhe o psicólogo, “pessoas não são almas nem fantasmas, só serão almas depois que morrerem, enquanto estiverem vivas, enquanto a alma estiver dentro do corpo, elas são pessoas, não almas. A alma não sai do corpo da pessoa, você não precisa ter medo. Ela está presa e só sai quando Deus quiser. Além disso, sua alma é sua amiga, ela não vai assustar você”. “Mas ela é uma alma, doutor. O senhor não tem medo de almas?” “Não, Marcelinho, não tenho medo.” “E quando ela sair do meu corpo, não vai ser assustador?” ”Quando ela sair do seu corpo, você será mais livre, não terá mais os limites que têm hoje, você poderá voar, viajar para onde quiser, para todos os lugares mesmo, você até verá seu avô que, você perdeu ano passado”. “O Vovô, eu posso me encontrar com ele?” “Claro, com a alma dele, pois as almas não morrem e podem fazer tudo o que o corpo não pode”. “Eu posso ir até na lua?” “Claro que pode, até ao sol e não vai se queimar, pois a alma não se queima, a alma é indestrutível”. “Alma não”, disse Marcelinho já com os olhos brilhando, “Eu, minha alma sou eu. Eu sou indestrutível…” “Claro”, prosseguiu o doutor, “a alma é um sopro de Deus, por isso é eterna e poderosa, é, na verdade, a grande prova do amor de Deus por nós, Ele nos deu uma alma imortal”. “E o fido, doutor?” “Quem é o fido?” “É o meu cachorro, ele tem alma?”. “Não sei, Marcelinho”. “Acho que tem, claro que tem, pois ele também se mexe, brinca e come, mas deve ser uma alma bem menor que a minha, que só ocupa a casinha de cachorro dele, não como a minha que ocupa todo o meu quarto.”

NOTAS FRANCESAS

VISTA DA CIDADE DE LOURDES, SUL DA FRANÇA.

VISTA DA CIDADE DE LOURDES, SUL DA FRANÇA.

1 – A França é a segunda pátria de todo mundo, inclusive dos franceses.
2 – Não vi nenhum urubu na França. Devem ter morrido de fome. As pessoas lá comem as coisas podres.
3 – Em Paris tem uma ruazinha de uns quatro quarteirões chamada São Paulo. São Paulo é isto: uma ruazinha em Paris (Brasília nem chega a isso). Em Paris tem uma pracinha chamada Rio de Janeiro. Rio de Janeiro é isto: uma pracinha em Paris. Em Paris tem uma rua chamada Argentina. A Argentina é isto: uma rua em Paris.
4 – Veja que luxo os nomes de ruas de Paris: Stravinski, Racine, Emile Zola, Bernard Shaw, Leibniz, Maurice Ravel, Cesar Frank. E nomes de praças: Charles Dickens, Berlioz, Pablo Casals, Edmond Rostand, Albert Schweitzer.
5 – Muita gente vai a Lourdes curar-se do mal da feiúra. Infelizmente não fui agraciado.
6 – É constrangedora a visão da cara constrangida das pessoas no constrangedor Centro George Pompidou. Cara de quem está a ponto de vomitar. Parece que a arte já chegou ao seu limite.
7 – Na entrada do George Pompidou deveria estar escrito: “deixai aqui toda a esperança”.
8 – Na França ouve-se muito: “oui, mais…”. Isto é, eles dizem: “concordo, mas discordo”. Gente civilizada é isto. Um brasileiro diria, “larga de ser besta!”
9 – Pode-se colocar o suco de laranja francês na categoria das coisas de sabor remédio.
10 – Enquanto houver a França, a indústria tabagista não precisa se preocupar.
11 – Paris é como ir ao dentista: deve-se visitar, pelo menos, uma vez por ano.