Coleciono algumas coisas:
Refeições, cafés-da-manhã, sonos, sonhos, pensamentos.
Também coleciono olhares, perfis, sorrisos, risos e palpitações.
Coleciono palavras, temas, cismas, contradições, paradoxos e oximoros.
Frustrações, problemas, ânsias, amores, medos e dúvidas.
E principalmente coleciono as certeiras setas do acaso.
Queremos anestesia para a dor,
Mas não para a carícia.
Ora, não é assim que funciona.
A anestesia insensibiliza tudo.
E a carícia precisa do espaço
De andar mão na mão com a dor.
Não se faz cirurgia enquanto o paciente dança.
Não tenho bom senso, nem loucura
Nunca fiz nada que preste, nunca fiz nada terrível.
Nasci, parece, para levar o meio-termo ao extremo.
Para ser o absolutamente morno.
Mas ainda há tempo!
(Enquanto o hexágono não me apanha)
Discordo do consenso, discordo da discórdia.
Não me importo com quem é incoerente
Mas admiro muito quem não o é.
Tenho horas de muita, muita fé
Entremeado de pencas de descrença
Tento não me lamentar quando sofro
Tento não comemorar quando venço
Tento fazer tanta coisa enquanto penso
Mas só me concentro quando nada faço
E a concentração para nada mais vale.
Qual formiga equilibrando fardos
E o fiel que perdeu a inocência
E pende sempre para outros lados
Que na igreja só se lembra de indecência
E no bordel chora o peso dos pecados
E esmagado pelo fardo da incoerência.
Roga a Deus para que seja perdoado.
(Perdoado significa completado)
E de repente não sabe se é ateu ou crente
Pois o ateu também tem lá suas crenças
E o crente duvida absurdamente
Então, como saber o que se é
Se crer/descrer é de todo ser humano?