A HISTÓRIA QUE RESOLVI ESCREVER – XII

Comprei tintas e telas. Resolvi esquecer a literatura e me dedicar à pintura nas horas vagas. Havia um barracão no fundo do quintal, que me pareceu adequado. Mas pintar o quê? Fui atrás de umas fotografias antigas em preto-e-branco e achei uma muito interessante. Era a casa de minha infância na roça. Era uma casa modesta, muito parecida com aquelas de desenhos toscos que crianças que não sabem desenhar fazem. Coberta de palha, com duas janelas. Ao lado havia uma cerca de arame sem farpas que minha mãe usava para estender as roupas. Resolvi pintar aquela paisagem e inseri no desenho uma mulher segurando um menino pelo braço quase entrando na casa. E foi o que fiz. Coloquei muitas nuvens no céu e roupas no arame. Levei uns dois dias para o quadro ficar pronto. Meu estilo é meio impressionista, meio Manet meio Renoir. Depois do quadro pronto, cobri-o com um pano, deixei lá para secar e para pensar mais sobre ele, no que poderia ser melhorado. Naquela noite lembrei do arquivo com a história que eu tinha deletado há alguns dias. Poderia ainda estar na lixeira. E estava. Não me contive e o restaurei. Abri e o que vi foi uma terra devastada. Ao jogar para a lixeira, eu acho – pode até nem ter sido – provoquei tudo de terrível àquela gente. Terremotos, chuvas de granizo, enchentes, tufões, ciclones, furacões, pragas nas plantações e doenças de todo tipo. Morreram setenta por cento da população da cidade e já não se importavam mais com a igreja de que cada um fazia parte. As poucas pessoas que restaram se uniram como irmãs contra aqueles que, revoltados, saqueavam, estupravam, roubavam e matavam. Era a desordem. Fiquei surpreso com a situação causada apenas por eu ter clicado na tecla “delete” do computador e resolvi dar o fim àquela tragédia sem proporções e apaguei o arquivo definitivamente, até da lixeira. Pronto, estava acabada aquela história bizarra que me envolvera nas últimas semanas. Resolvi nunca mais escrever ficção. Não sei explicar o que houve. Não acredito que seja um tipo de poder que eu tenha, pois nunca aconteceu coisa semelhante antes. Não acredito que esteja ficando doido. Enfim, não sei o que pensar sobre esses acontecimentos. Porém, as coisas estranhas não tinham acabado ainda. Foi ali que resolvi escrever este relato e o fiz logo após terminar meu primeiro quadro. Isto foi há uma semana. Depois que deixei o quadro lá secando, enquanto pensava o que melhorar nele, comecei a escrever este relato a mão em um caderno, e rasgaria as folhas que sobrassem para não haver perigo desta história também continuar sozinha. Com o caderno debaixo do braço, fui ao barracão, pois me ocorrera fazer um retoque no quadro, iria acrescentar um pé de macaúba, que me lembrei que tinha no nosso quintal. E fui lá rumo àquele quadro de um menino e sua mãe entrando em casa, com muitas nuvens no céu e roupas secando no arame. Pois bem, quando retirei o pano de cima do quadro, o que vi foi uma linda aquarela onde se via a mesma casa, sob o mesmo ângulo, porém começara uma chuva grossa e a mãe do menino já estava no arame retirando as roupas para não molhar.


outubro 5th, 2008 | Category: A HISTÓRIA QUE RESOLVI ESCREVER | Leave a comment

A HISTÓRIA QUE RESOLVI ESCREVER XI

Meu romance já não era mais meu. Eu já não escrevia mais nada nele, apenas lia. Cismei que qualquer interferência minha seria danosa, pois fora danosa nas vezes em que interferi. Bem, quando voltei ao livro, resumindo tudo, havia começado uma quase guerra. Um dos fiéis do Templo do Grande Autor provocou uma cisma e fundou uma igreja protestante chamada “O Livro da Vida”. Ele não concordava com alguns dogmas de Alexandre Clark. Discordava dos longos períodos em pé e de profundo silêncio dos cultos no Tempo do Grande Autor, que, segundo Clark, seria uma reverência ao Grande Autor (eu, é mole?). O silêncio era para que Ele (eu de novo, hehehe) pudesse escrever o Grande Livro. O fiel protestante se chamava Gildásio e era um ex-cantor sertanejo, amigo desde quando um dia fora ao programa de rádio de Clark divulgar um LP seu. Gildásio entrou para o Templo e logo se tornou presbítero, que é um tipo de subpastor. Surgiram as discussões quando Gildásio teorizou em uma homilia para jovens que o “Grande Autor” era um modo de dizer, era outro nome que se daria ao Todo-Poderoso e eles, na verdade, não eram personagens de um livro coisa nenhuma. Aquilo era uma metáfora para o fato de que Deus fez o mundo e fez as pessoas, deu-lhes vida e o segredo da felicidade era que fizéssemos o mínimo possível, isto é, deveríamos entregar nossa vida a Deus e confiar. Era disso que se tratava toda a doutrina do Templo do Grande Autor, segundo Gildásio. Alexandre Clark chamou-o para uma conversa. Na verdade, era para seri uma espécie de inquisição digna do papo que devem ter tido São Bernardo e Pedro Abelardo na Idade Média, que resultou na excomunhão do Abelardo, mas não foi bem assim. Alexandre, que não era nenhum São Bernardo, era mais um pitbull, disse o seguinte: “você quer me destruir? Você quer acabar com minha igreja? Você está ficando doido? Que conversa é essa de metáfora? Metáfora é o caralho. Meta fora daqui essa porra dessa sua metáfora. Meta sua metáfora no cu”. Gildásio, incrédulo, arregalou os olhos e tentou uma reação e disse que era claro que era uma metáfora, pois quem seria idiota de acreditar realmente que aquilo lá era um livro e eles eram personagens? Alexandre disse que ele acreditava! Mais do que isso, tinha absoluta certeza, pois conhecera o menino que ouvia as vozes e conversara também com o tio do menino e não tinha a menor dúvida, pois, por exemplo, ele mesmo não lembrava da própria infância. E por que não se lembrava? Por que o autor não tinha escrito nada, apenas o tinha descrito como ex-locutor de rádio que teve um caso com uma fã, etc, etc. Gildásio disse que se fizesse um esforço se lembraria da própria infância e que Alexandre estava realmente maluco. Meses depois, Gildásio fundou a própria igreja, a qual deu o nome de “O Livro da Vida” e em pouco tempo estava com tantos fiéis quanto o Templo do Grande Autor. Consideravam-se mais inteligentes que “aquele pessoal do Templo”. Logo a cidade se dividia entre fiéis do Livro e fiéis do Templo. E começaram os aborrecimentos, as brigas entre fiéis, casais se separavam, famílias se destruíam por causa das duas igrejas. Aquilo foi demais para mim. Aquela gente lá… só matando. Fechei o arquivo, fui ao diretório onde ele estava e o deletei.

(continua…)

A HISTÓRIA QUE RESOLVI ESCREVER IX E X

Meu primo João era um sábio meio doido. Alguém muito caro a mim. Costumava dizer “nunca pisei um dia em escola”. Aprendeu sozinho a ler e escrever e álgebra. Ficou órfão muito novo, teve que lutar pela vida e tinha muitas histórias para contar. Mas, ali, era eu quem tinha história para contar. Contei minha história e ele me disse que era muito simples, bastava eu apagar o arquivo e não deixar nem na lixeira. Eu disse que não tinha coragem, que aquelas pessoas também eram gente, eu não podia sair por aí matando pessoas tão vivas. Ele caçoou de minhas preocupações, riu muito e me saiu com essa: “Primo, você é o criador desse povo, tem todo o direito de destruí-lo. Deus não destrói de tempos em tempos um povoado aqui, uma espécie ali? Toda hora se ouve história de tsunami, terremotos, vulcões. Desastres são coisas normais no mundo e, nesses eventos, sempre vão embora milhares de vidas. Deus não deve nem se coçar de preocupação nessas horas. Por que Ele mandou uma bola de fogo para exterminar os dinossauros? Não, não foi só para que tivéssemos petróleo anos mais tarde, não. Aqueles bichos deviam ser muito chatos e imundos e devem ter enchido muito o saco do Todo-Poderoso. Sodoma e Gomorra, aqueles lugares cheios de sodomitas e gomorritas, Ele nem pestanejou em mandar pelos ares. Pompéia, que devia ter muita gente boa, invadiu-lhe um rio de larva de vulcão, mandado pelo mesmo Deus que a fez. Destruir é um direito de todo criador. Isso está na Bíblia. Você fala dessa história como se fosse um problema. Não é, não. Olha, pára de escrever. Inventa outra diversão. Já pensou em pintar? Compra uns pincéis e umas telas e reproduz todos aqueles desenhos interessantes que você fazia quando criança. Já esqueceu?”. Não, eu não esquecera. Pintar era interessante. O problema da conversa com meu primo é que eu sentia que ele dava aquele conselho com uma convicção fingida de quem me julgava um maluco, mas tinha pena de mim ou medo de confessar o que realmente achava. Lembrei da piada do sujeito que diz para o amigo que o irmão acha que é uma galinha, mas que não o levará a um psiquiatra porque em casa precisam dos ovos. É como se o amigo, nessa piada, para não constranger o outro, o convencesse de que a ingestão de ovos demais é ruim para o colesterol e que a solução é deixar essa dieta de ovos de lado e levar o rapaz ao psiquiatra. Eu sabia que João me julgava um doido e toda aquela história de que o criador é também destruidor era só para não encarar minha loucura. Ele queria que eu deletasse um arquivo que ele não acreditava que existisse ou, se existisse, não seria tudo aquilo que eu dissera. Ele poderia ter sugerido outra coisa, por exemplo, que eu imprimisse logo e mandasse publicar, que queria ver a história continuar em um livro encadernado. Bem, eu estava confuso, não poderia mandar imprimir e mandar publicar porque a história não estava terminada, ninguém ia querer publicar aquilo. Não obstante, a idéia de apagar o arquivo começou a me parecer simpática.

A HISTÓRIA QUE RESOLVI ESCREVER VIII

Eu me sentia só. Muito só. Precisava de alguém para conversar. Até aquele momento, quando abri o arquivo e vi a situação absurda em que estava a coisa toda, não tinha me ocorrido procurar alguém para contar sobre a minha relação com aquela romance fora de controle. A história tinha praticamente dobrado de tamanho. Eu já não tinha mais como escrevê-la, pois levava todo meu tempo lendo a dita. No computador estava lá a hora em que fora alterado aquele arquivo e vi que, de fato, ninguém tocara nele depois que saí. Mas a história andou – e como andou! Vou resumir o andar daquela carroça. Um sujeito da cidade, chamado Alexandre Clark (depois descobri que o nome dele era Aurino, Alexandre Clark era nome “artístico” de pastor “evangélico”) abriu uma igreja: “O templo do Grande Autor”. Para quem? Quem era o Grande Autor? Ora, “quem?”, este aqui que vos escreve. Eu ficara muitos dias sem tocar na história e o foco do enredo se deslocou totalmente para o fenômeno religioso que ocorria na cidade. O “reverendo” Alexandre Clark (que eu apelidei de “Clark Crente”) conheceu o menino Rafael na clínica psiquiátrica e acreditou em sua história. Antes de ser pastor, Clark era um locutor de rádio razoavelmente famoso na cidade, com seu programa de música sertaneja. Depois de ter um caso extraconjugal com uma ouvinte, que também era casada, Alexandre Clark foi vítima de um atentando. Em seguida, matou o marido da mulher e, para se safar, passou a se comportar como doido, truque que funcionou, e foi declarado incapaz pela justiça. Ficou por um tempo em um manicômio judiciário, onde teve problemas psiquiátricos reais, e, ao sair, passou a freqüentar a clínica para onde levaram o menino Rafael para tratamento. Coincidentemente, ele e Rafael, no mesmo dia, foram à clínica e, depois que ouviu a história dos pais da criança, Clark foi para casa e criou todo o arcabouço doutrinário de seu novo projeto. Os argumentos do credo do “Templo…” eram simples. Ora, se Cristo é o verbo de Deus, significa mesmo que Deus é um escritor e nós (eles lá) somos meros personagens que devemos entregar nossa vida e deixar que “Ele” escreva nossa história. E mais: se “no princípio era o verbo”, antes do princípio haveria um autor para verbalizar. Já havia até teses acadêmicas sobre a doutrina do “Templo do Grande Autor”. Li algumas orações dirigidas a mim. Várias. Não sabia se ria ou chorava. Era gente pedindo para vender uma chácara por um bom preço (assinalavam isso), pedindo casamento, emprego, para ganhar na mega sena, aumentar o pênis, diminuir a barriga. Tudo coisa que eu, como autor do livro, realmente poderia fazer por eles. Bastava entrar lá e com um parágrafo enriquecer ou desgraçar a vida de quem eu quisesse. Era muito para a minha cabeça. Eu realmente precisava falar com alguém.
(continua…)

A HISTÓRIA QUE RESOLVI ESCREVER VII

Já cavei muito poço. É um trabalho pesado, mas divertido. Gosto de ver como tudo se dá. É como fazer uma casa. É um prazer ver que onde não tinha nada passa a ter uma coisa importante para a vida das pessoas. Pois é, uns parentes meus se mudaram recentemente para uma chácara e eu me ofereci para ajudar no que precisassem. E precisavam. Cavar uma cisterna é simples. Com uma picareta se faz um círculo e se cava o buraco. No começo duas pessoas fazem a coisa, uma com a picareta para cavar e a outra com a pá para retirar a terra. A partir dos 30 centímetros de fundura do buraco, se acertam as paredes para ficarem retinhas. E continua a cavação, retirando-se a terra com balde em uma roldana. No fim do dia se chega ao lençol de água. Cava-se mais um pouco e dentro do buraco só cabe uma pessoa, que fica lá, torcendo para a corda não arrebentar, pois um balde daqueles, cheio de terra, na cabeça do cristão pode fazê-lo se encontrar com o Cristo antes da hora. Uma vez o balde caiu quando eu estava no poço, por sorte caiu ao meu lado. Bom, depois disso, se colocam os tijolos como fosse uma casa, até acima da borda. Reboca-se, pronto. Tá pronta a cisterna. Mas não foi assim daquela vez. Daquela vez, quando chegamos a uns nove metros de profundidade, chegamos a uma rocha maciça que não tinha picareta que conseguisse furar. A saída foi sair, devolver a terra ao buraco e tentar em outro lugar. No fim do dia, cheguei em casa moído do esforço que fiz e nem toquei no computador para continuar a história. No outro dia, tentamos em outro lugar e, dessa vez, chegamos à água depois de cavar dez metros, mas a água era salobra, imprópria para o consumo. Tem isso também, às vezes, a água não presta. Jogamos a terra no buraco novamente e tentamos em outro lugar no outro dia, quando, enfim, deu certo. Nunca vi um poço dar tanto trabalho. Antes de voltar à história, uns quatro dias depois, pensava no que teria acontecido e como o tempo teria passado lá. E mais: o que aconteceria se eu abandonasse aquela história e voltasse a lê-la daqui a vinte anos? E mais: e se eu deletasse e me livrasse daquela maluquice? O que aconteceria com aquela gente que tinha vontade própria? Mas, se eles tinham vontade própria, existiam de fato e seria genocídio deletar aquele arquivo. Mais do que genocídio. Eu estaria destruindo um universo. Que enrascada. E, se eu não mexesse nunca mais, a história continuaria sozinha sem ter fim? Os personagens morreriam quando eu morresse? Baseados em que esperança eles viviam? Será que têm um deus? Ou vivem na tenebrosa esperança dos ateus? E se fosse EU o deus deles? Quem sou eu para desobscurecer o futuro de alguém? O que eu poderia fazer para salvá-los? Como eu poderia levar uma boa nova a eles? Eu estava curioso a respeito deles. Mas, que droga, fui eu quem os inventou! Para as coisas acontecerem como eu havia planejado, eu teria que dedicar todo o meu tempo para eles. Ora, eu não poderia ficar por conta deles para sempre, eu tinha minha vida. Nem poderia, como Cristo, me tornar um deles. De pensar nisso, me senti no fundo de um poço. (Continua…)

PS – O Pró Tensão lamenta a morte prematura de Dercy Gonçalves.

A HISTÓRIA QUE RESOLVI ESCREVER – VI

Na volta ao romance, a situação estava satisfatoriamente desordenada, isto é, se a idéia era tumultuar uma história, estava tudo ótimo. O menino insistia que tinha ouvido vozes, que toda sua vida era uma história e que eles eram personagens e deveriam ficar quietos e deixarem que o autor escrevesse em paz. Contou o sonho do tio para ele, o que fez muita diferença, pois Eurico estremeceu ao ouvir os detalhes. O pai de Eurico, avô do garoto, deu o diagnóstico: o garoto estava louco e deveria ser internado. O problema é que o menino realmente insistiu na história, não dormia de noite, não prestava atenção na aula, contava a história para todo mundo. A avó dizia: “que autor mais idiota! Se ele acha que deveríamos ficar quietos e deixar que ele escrevesse em paz, por que foi contar logo para esse menino linguarudo? E por que diabos esse menino fala feito um papagaio se está convicto de que deveria ficar quieto? Tem coisa errada aí. Além disso, como eu vou saber se estou falando e fazendo o que quero ou o que o autor quer? Não tem quem me governe não, meu filho. Está para nascer um filho duma égua que mande em mim. Se ele é autor e me fez ser deste jeito, com essas dores nas pernas, quero que ele se dane…”. A senhora me disse uns impropérios, usando palavras que me fizeram ir ao dicionário. Era uma senhora muito enraivecida e doutora em questões de esculacho, coisa surpreendente para mim. Talvez a idéia dela fosse que eu lhe retirasse as dores das pernas, única reclamação específica que fez. Fiquei de pensar no caso. A criança estava mesmo doente, pois depois que ouviu minha voz e passou a propagar essa história, a família se reuniu e achou melhor levá-lo a um psiquiatra que receitou pesadas drogas. O tio, que acreditava no sobrinho, fingia que não acreditava para não ser visto também como doido. Fez questão de estar presente na consulta e furtava comprimidos da criança, pois sabia que sofria do mesmo mal. Não exatamente do mesmo mal, pois a criança, além de ter passado, ela mesma, pela experiência de ouvir a voz do autor, era uma pessoa introvertida que se vira obrigada a agir de modo extrovertido. Enfim, ocorrera um trauma àquela criança. Ao tio nem tanto, pois ele era um pouco parecido comigo, por ser o protagonista do livro. Não se assustava muito com coisas absurdas, mas aquela revelação abriu mil possibilidades em sua cabeça. Embora passasse naquele momento por uma fase de agnosticismo, ele sempre desconfiara da existência de um “autor de tudo”. Agora, às vezes acreditava firmemente que era um mero personagem de livro e, nessas horas, furtava um dos remédios do garoto. Absorvido na história, sem ter escrito nada, pois uma hora ou outra eu esquecia que era o dono daquilo lá, meu telefone tocou. Era um primo pedindo que eu fosse cavar uma cisterna. Vocês acreditam?!

A HISTÓRIA QUE RESOLVI ESCREVER V

Para que Eurico voltasse da ceva, usei um truque (coisa que me arrependi mais tarde), inventei que aquilo lá foi um sonho. Escrevi em seguida que Eurico acordava em casa, impressionado com o sonho muito real que acabou de ter, de que tinha ido para a ceva com o pai e estava feliz tomando uma cerveja, sentado em uma pedra, como se fosse um dos sapos do lugar. Tive prazer em escrever isso, para mostrar quem mandava naquela bagunça, não obstante preservei para o restante da história a existência do pai, da mãe, da fazenda e tudo mais que tinha aparecido sem que eu tivesse criado. A idéia que tive para me comunicar com os personagens foi a seguinte. Eu fiz o sobrinho de Eurico ouvir vozes. Acho melhor transcrever o que escrevi lá. O sobrinho que falava enquanto dormia um dia acordou e ouviu uma voz. “Rafael”, era seu nome. Ele disse “o que é, tio?”. Mas não era o tio que falava. “Rafael”, agora era uma voz de mulher. “O que é, Vó?” Mas não era a vó. “Quem tá me chamando?”. “Sou eu, Rafael”, agora era voz de homem, “eu sou o escritor desta história”. “Escritor?”, quis saber o Rafa. “Sim, você é personagem de uma história que estou escrevendo. Por favor, pede para as pessoas em sua volta não fazerem nada sem minha ordem. Para convencê-los, diga a seu tio Eurico que eu o fiz acreditar que foi um sonho, mas que, de fato, ele foi à ceva com seu avô e os milharais estavam devastados por macacos e que seu avô pagou um menino para matar os macacos”. Nessa altura da história, recebi um telefonema. Era um tio meu, muito doente, que insistia que eu fosse visitá-lo, porque “a gente não vai se ver mais”, dizia meu tio, agourando a própria morte. Fechei o micro e fui visitar o velho. Chegando lá, o encontrei muito melhor do que antes, um mês atrás, quando tivera sinais de derrame. O médico lhe receitou uns remédios e fisioterapia e ele havia melhorado. Mas insistia que “desta vez ia…”. Mandei que ele parasse com aquela bobagem e percebesse que estava melhor que antes. Portanto, que história é essa de “não vamos mais nos ver?”. Essa visita que fiz a meu tio foi só para atrapalhar minha conversa com o garoto Rafael e para criar um caos na vida do coitado do garoto. Vocês não acreditam.

Continua (…)

A HISTÓRIA QUE RESOLVI ESCREVER – IV

Não deveria ter dormido, pois quando acordei, o pai do Eurico, “seu Pedro”, tinha voltado da roça e colocou na cabeça do filho que ele deveria ir ver a ceva do ribeirão que passava na fazenda e ir lá pegar umas jiripocas. Já tinham fisgado mais de duzentos peixes. E ele deveria pegar as tarrafas e uns anzóis, porque “o trem” lá “tava bão demais da conta”. Eurico, que por pescaria era o mesmo que macaco por banana, foi para o ribeirão no outro dia. Chegando lá, Eurico ficou decepcionado ao ver sua plantação de milho devastada. Ele perguntou ao pai o que tinha acontecido e o pai falou que os macacos tinham comido o milho, mas que ele não se preocupasse, pois já tinha contratado um menino com uma espingarda para matar o tanto de macacos que conseguisse. “E o menino já matou uns vinte macacos, precisa ver”, dizia seu Pedro após uma gargalhada. Eurico ouvia isso sem acreditar, achando tudo uma selvageria, dos macacos e do pai. “Mas não tem outro jeito”, disse o pai, “até colocaram um espantalho que não adiantou ‘merda nenhuma’”, pois “macaco é bicho sabido”. Chegando ao ribeirão, sentiu aquele frio que se sente nos lugares com muita água, o cheiro meio doce das frutas do lugar que se espalha onde tem água farta e o canto do melro que também se espalha ao redor de mato fechado perto de ribeirões como aquele. Muita gente estava lá e realmente os peixes pulavam para fora d’água tentando escapar do cerco, num espetáculo bonito de ver. Eurico nem ligou para aquilo, improvisou uma churrasqueira e abriu um peixes, jogou no fogo, pegou cerveja e sentou-se em uma pedra, como se fosse um dos sapos do lugar. Tudo isso que acabo de contar aconteceu pelas minhas costas. Tomei conhecimento disso e fiquei muito zangado com tudo. Não gosto que me enganem, principalmente meus personagens. O fato é que eu já estava me deixando levar pela história e aprendendo dela mais do que a construindo. Apesar das surpresas que aqueles mal agradecidos me faziam, eu ainda tentaria imprimir minha marca ali. Definitivamente, eu precisava conversar com um deles e já sabia como fazê-lo. Peguei o computador e mandei ver. Já não me lembrava mais do problema dos ratos. Estava fixo no meu próprio problema com a rebeldia dos personagens de minha ficção.

(continua…)
As partes deste conto são publicadas quase sempre.

A HISTÓRIA QUE RESOLVI ESCREVER – III

Na volta ao livro, liguei o computador com relutância e não tive surpresa alguma, pois tudo estava realmente uma bagunça. Apareceu a mãe do tio – personagem que eu nem tinha criado – avó do menino que falava enquanto dormia. Era uma senhora que reclamava de não conseguir dormir de noite direito e que sentia muitas dores nas pernas. O importante é que ela tinha colocado uma ratoeira e pegara um rato. Todos os dias ela colocava uma ratoeira no mesmo lugar e pegava um rato, o que denotava baixa inteligência da população de ratos que habitava o lugar. Todos, ratos e humanos, viviam ali, acostumados àquele ambiente e rotina. Os ratos eram problema apenas para o tio (Eurico era seu nome, coisa que descobri mais tarde, pois quando comecei a história, pensei em chamá-lo “Rico”, que era o nome com que o sobrinho o chamava, “tio Rico, tio Rico, vem cá!”). Eurico estava em férias na casa de seus pais. Pelo menos eu imaginava que eram férias pelo seu descontentamento com aquela casa. Eu já não tinha muita certeza das coisas no meu próprio livro, mas continuei a escrita. Não se incomodem muito, vou contar coisas que só fiquei sabendo depois, como essa questão do nome, mas no geral não vai atrapalhar a narrativa. Afinal não estou escrevendo o livro aqui, estou apenas contando minha aventura de tentar escrevê-lo. Mas prossigamos. Naquele dia, eu tentei dar uma adiantada boa na história. Eurico se incomodava com os ratos, como se ele mesmo não morasse na casa. Incomodava-se como alguém que ganhara uma nova unha encravada. Ora, a dor dói mais quando chega do que quando se torna velha moradora em nós. Assim como o prazer, que é melhor quando chega do que quando continua. Os ratos o incomodavam como se ele fosse um convidado na casa. Naquele dia, ele teve uma grande idéia, que executaria assim que seu pai voltasse da fazenda. A idéia era restringir o espaço dos ratos, enfim, usar a inteligência contra os roedores: dificultar o caminho dos ratos com pequenos obstáculos ao longo de onde eles costumavam correr. Nesse ponto da história, adormeci no teclado e, quando acordei, desliguei o computador e fui dormir. Tive um sonho em que eu conversava com meus personagens e gostei da idéia. Quem sabe eu não poderia mesmo conversar com eles? Acordei pensando nisso.

(continua…)
As partes deste conto são publicadas toda segunda-feira.

A HISTÓRIA QUE RESOLVI ESCREVER – II

As coisas mais absurdas nunca me causaram nenhum estranhamento. Eu sou aquele cara que, se uma bomba atômica caísse na cidade vizinha e alguém perguntasse o que era aquele barulho, responderia que não tinha certeza, mas me parecia um si bemol. Se eu estivesse com os três apóstolos no episódio da transfiguração, talvez tirasse uma soneca enquanto Cristo papeava com Elias e Moisés. Então, achei aquele desarranjo na minha história algo bem normalzinho. E era só um romance. Grande coisa! Continuei dali mesmo, afinal não tinha acontecido nada que atrapalhasse o esqueleto da história, nem mesmo os músculos ou a epiderme da história, pois eu apenas começara. E o romance seguia nos seguintes termos.
De noite, estavam tio e sobrinho dormindo no mesmo quarto quando o barulho se repetiu. O tio pensou que eram ratos. Pensou não, ele concluiu definitivamente que eram ratos e se virou para o lado, tentando dormir. Havia muitos ratos lá e, de vez em quando uma ratoeira pegava algum, mas as baixas causadas pela ratoeira apenas tornavam os ratos mais fortes. Conforme as teorias do Dr. Darwin, somente os ratos mais fracos se deixam pegar pelas ratoeiras. Veneno não resolvia. Era até pior, pois o rato comia o veneno e ia morrer longe dali, em seu esconderijo e aquilo fedia por muito tempo, sem que identificassem a fonte daquela carniça. Nesse ponto da história resolvi tomar um banho e jantar. Depois da janta, chegou uma tia para nos visitar e falar dos problemas que tinha. Era uma lista enorme de doenças, que ela contava com muito contentamento, feliz por ser tão sofrida. Ah, deixe que eu me apresente, meu nome é Alfredo, sou escritor amador e estou contando a história do primeiro romance que tentei escrever e porque este é meu último relato, já que agora me dedicarei à pintura. Antes disso, quero contar a história do romance. Eu já tinha ouvido falar que personagens nem sempre costumam ter o destino que o escritor planeja para eles. Não só vi que isso é verdade, como vi que não é bem só o destino, é o itinerário também, as prosaicas coisas do dia-a-dia. Tudo pode ser muito diferente do que plano traçado pelo dono da história. Aquela era para ser um clássico, eu pretendia mostrar os personagens lutando com grandeza contra as coisas pequenas da vida, como ratos barulhentos, e lutando com humildade contras as grandes coisas da vida como a velhice. Queria personagens como nunca se viu nesta nossa literatura vil. Gente com mais alma que corpo. Queria fazer como Deus faz conosco ao ansiar que participemos de Sua grandeza. Quebrei a cara.

(continua…)
As partes deste conto são publicadas toda segunda-feira.