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O guarda do museu conversava com o colega de turno, enquanto comia um sanduíche. O celular toca e o guarda deixa o sanduíche, com uma mordida, em cima da bancada, vai atender a ligação e se esquece do sanduíche, que fica ali durante todo o fim de semana. O sanduíche foi destaque nos cadernos de cultura dos grandes jornais e atraiu muita gente ao museu. Até que a analfabeta auxiliar de limpeza, que nunca ouvira falar em Duchamps (onde já se viu?) passou por lá e limpou aquela sujeira.

A platéia subiu ao palco, expulsou os atores e o encheu com suas cadeiras. Lá embaixo, os artistas, quietos, humildemente representavam papel de platéia. Ninguém se divertiu, mas todos acharam bom. Os leitores invadiram as bibliotecas e encheram os livros com anotações. Os escritores leram todas com interesse, mas sem nenhum entusiasmo. Os compositores foram para o asilo, os poetas para o exílio, pois canções e poemas eram feitos pelo povo analfabeto e nada musical. Todos ficaram satisfeitos, mas desanimados. E o mundo, com a esperança aos pedaços, esperava a volta do Cristo.
Montou um berçário e deu o nome de “clube do choro”.
O sertanejo pegou a enxada e foi fazer carreira solo.
Marido traído dá à luz um filho do amante da mulher.
Porque ele pronunciava “subsídio” corretamente.
O chorão se despediu do choro. No dia de sua aposentadoria houve muito choro. Foi uma alegria só.
De família de músicos, o jovem músico tímido (coitado!) sonha em ganhar a vida em um escritório, mas é violentamente pressionado pela família a trabalhar na música e fazer sucesso. No palco, suas as mãos tremem, a voz falta, o violão vacila. O pai, velho cantor, olha atravessado e ele ataca a introdução da canção com a certeza de que não nasceu para aquilo. Além disso, quando tiver coragem de abandoar o palco, os colegas do banco também não o perdoarão por ter escolhido a tediosa carreira de bancário. E ele sorrirá sabendo que ninguém escolhe ser o que é, apenas tem ou não tem o ânimo de conviver com as forças contrárias que teimam em sabotar nossos sonhos.
O fabricante de máquina do tempo acabou de receber umas encomendas. Todas para ontem. E já entregou, pois um fabricante de máquinas do tempo nunca atrasa suas encomendas. Aliás, desde que se inventou tal engenho, a metáfora para toda inabilidade é “ser fabricante de máquina do tempo e atrasar a entrega”. O cliente chega e diz: “seu Tonico, eu quero uma máquina do tempo para ontem, pode ser?”. O velhinho, ajeita os óculos e responde com cara cética: “uai, Zé, sua memória tá ruim, hein? Eu já lhe entreguei, sô!” O cliente dá um tabefe na própria cabeça para ver se com a sacudida, a mente se atualiza e toma consciência do passado e do presente modificado graças a sua ida ali pedir a fabricação da máquina e recorda que realmente, a máquina tinha sido entregue no dia anterior. E seu Tonico acrescenta: “agora, só falta me pagar, seu desmemoriado ou não fabrico mais máquina nenhuma procê”. Ninguém dá calote em um fabricante de máquina do tempo, pois ele pode voltar ao ontem ou deixar de ir ao depois de amanhã e não entregar a encomenda. Certa vez, um cliente pediu uma máquina e seu Tonico respondeu de pronto: “faço nada, cê num vai me pagar, sai daqui seu caloteiro”. “Mas seu Tonico, é a primeira vez que venho pedir seu serviço”. “É a primeira vez mesmo, você vai me pedir uma pro mês passado, eu vou fazer, e sei que fiz porque já entreguei no mês passado e até hoje ocê tá me devendo, seu vagabundo, sai de minha oficina, fiquei no prejuízo, seu safado, só me apareça aqui com dinheiro…”. Desde então, seu Tonico só faz máquina para entregar no passado se o pagamento for feito no momento do pedido. Antes, ele fazia para receber o pagamento na entrega, mas viu que quando a encomenda era para o passado, isso não funcionava bem. Porém, para entregar no futuro, ele cobra a metade no ato da compra e divide em até três vezes e quando o cliente pergunta como anda a fabricação da encomenda que será entregue no futuro, Tonico responde: “acabei de entregar procê, voltei do ano que vem indagorinha”.
Em junho, no complexo penitenciário do Buraco Quente, os presos resolveram organizar uma festa de São João. O diretor da prisão achou uma boa idéia uma festa de São João, mas considerou um exagerou que se fizesse uma como deve ser, com fogueira e quentão e cortou vários itens da proposta. Mesmo assim a festa se fez. Um dos presos ficou de organizar a quadrilha, que, de fato, no fim de tudo, foi só o que funcionou direito. No começo, houve o natural mal entendido “como assim, vamos organizar outra facção criminosa?”, “não, idiota, é quadrilha de São João”, “quem é idiota, mermão, qué morrê?” Mas a festança foi feita, com casamento na roça, comidas típicas e todos dançaram muito. Até a televisão veio ver e durante a semana só se falou na quadrilha dos bandidos. No ano seguinte, quando todos já tinham esquecido a festança, o preso organizador voltou a falar em quadrilha. Feliz com o sucesso, no ano anterior, pediu audiência com o diretor da prisão, que era novo ali, e foi logo falando com entusiasmo que estavam começando a organizar a maior quadrilha já vista na história daquele presídio. O diretor nem quis saber de detalhes e ansioso para usar as prerrogativas do regime disciplinar diferenciado, mandou o preso para a solitária, onde ficou isolado da malta até outubro.
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