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“Eu te amo” são como digitais. Cada um tem o seu e você jamais saberá o que o outro quis dizer quando disse a frase. Muitos evitam dizê-la e evitam ouvi-la, como se ela estivesse em uma posição quase intocável na escala ontológica das frases. Outros dizem “eu te amo” a toda hora e circunstância. Ambos estão certos. Deveriam, porém, entender que o seu “eu te amo” não é mesma coisa do “eu te amo” do outro, pois, para alguns são apenas palavras, para outros é a própria divindade, para outros é um meio termo e seguem matizes em quantidade igual a dos pronunciadores. O fato é que o amor humano é mesmo defeituoso e é condicionado. Amamos o que precisamos? Amamos o que necessitamos? Nem sempre. Às vezes amamos a quem, apenas, queremos estar à disposição, mas não queremos, obrigatoriamente, por perto o tempo todo, justamente porque a amamos (fiz há um tempo uma frase assim: “eu te amo, mas, por favor, não tome isto como uma cantada”). Então, dizer “eu te amo” para essa pessoa é o mesmo que dizer “estou a sua disposição” com um pouco mais de ênfase. É dizer também “eu não me caso contigo justamente porque te amo, mas se precisar de mim para qualquer outra coisa, estou aqui”. Enfim, em grego, por exemplo, a palavra “amor” tem vários nomes, diferentemente do português, o que pode significar que sabemos muito pouco sobre o amor, pois o reduzimos quase sempre à mesma coisa. A polissemia sempre atrapalha o entendimento. Além disso, há a velha dificuldade de comunicação entre as pessoas. Para ajudar, sugiro que todo mundo escreva um pequeno texto (coisa pouca, uns dois mil toques só, algo como o tamanho deste post) com o título “O meu ‘eu te amo’”, faça um blog e publique lá para que as pessoas vejam e entendam o que você quer dizer quando diz “eu te amo”. Tenho idéia melhor, todos deveríamos fazer um dicionário (dinâmico, sempre atualizado e alterado, pois podemos mudar de opinião) de nós mesmo para que entendessem o que queremos dizer quando dizemos frases feitas. Seria um dicionário com verbetes como: “diz aí”, “puta que pariu”, “puta merda!”, “tudo bem?”, “eu te amo” (claro), “caraca!” “má-rapaz!”, pois mesmo dizendo a mesma coisa nem sempre estamos dizendo a mesma coisa. “Política”, por exemplo, é uma palavra que eu jamais vou entender a acepção que a maioria dá a ela, mas paro por aqui, já passaram os dois mil toques.
A paz, e tudo mais, exige um preço, que devemos pagar com alegria, afinal é maravilhoso viver em paz. É preciso a vigilância de um samurai para que se viva em paz. A paz é o sonho do guerreiro. Só o pacifista não vê. E há também o guerreiro que só vive em paz quando está em plena guerra. As guerras ocorrem por motivos estéticos. Toda guerra é uma questão de gosto. Todo guerreiro, todo exército, todo cangaceiro tem um conjunto de símbolos, vestimentas e rituais puramente estéticos. A arte é uma arma de guerra. A arte mexe com nosso senso estético e este mexe com os outros sentidos. Sem beleza não há amor, sem amor não há ciúmes, sentimento de posse, sofrimento, mágoa, euforia, gozo, frustração. A beleza é o bálsamo e o antibálsamo, a droga e a antidroga, por isso a arte é fonte de guerra e paz. Aliás, quando algo belo entra em sua vida, acabou sua paz. E, por outro lado, vivemos buscando o belo, crente de que só assim teremos paz. A beleza faz falta, ainda que seja só um ornamento. O poeta diz “não existe coisa mais triste que ter paz…” Beleza deveria ser escrita com maiúscula como “Deus”. A frieza dos genocidas é sua indiferença à beleza. Genocida é aquele que mata sua própria gente depois que a guerra acaba. Há uma razão para a maldade: a indiferença ao belo. Dessa indiferença à beleza, surge o cerceamento à liberdade, pois o que é a liberdade? É o direito que queremos ter de gostar sem impedimentos. Não se luta pela “liberdade”, luta-se pelo direito de ler qualquer livro, ouvir qualquer música, ver qualquer filme sem impedimentos. Luta-se pelo direito de achar bonito aquilo que nos deleita e de se deleitar com aquilo que achamos bonito. Liberdade é isto, direito de sentir e buscar o sentimento que quiser. Não é à toa que o livre arbítrio é uma das cláusulas pétreas da lei de Deus. Deus permite que façamos qualquer coisa, mesmo contra Sua vontade porque nos fez livres. Os poderosos, porém, não têm a liberdade em tão alta conta e daí surgem as guerras. A guerra pela paz de viver na guerra em que nossa alma escolher. Pacífico é aquele que vive com a alma em guerra causada pelas tensões estéticas onde é jogado pelas mãos da realidade e é capaz de dar a vida para que o deixem em paz em sua guerra privada.
Presente é coisa que não tem importância. O importante é quem dá e quem recebe o presente. Quando alguém que você não gosta lhe faz um poema, você responde falando dos aspectos formais do texto “puxa, como você é bom de rimas”. Quando alguém que você adora lhe manda um simples batatinha-quando-nasce você vai ao céu de tanto contentamento. Quando alguém que você ama lhe dá um presente bem bobinho, você com seus olhos felizes liga e diz o quanto adorou. Quando alguém que para você é atraente como um leproso lhe dá uma caixa de caviar iraniano, você liga para reclamar “ah, não precisava, você me deixa sem graça desse jeito, faz isso não, tá?” A culpa não é de ninguém, o que se pode fazer quando um leproso cai de amores por nós? O que fazer quando o leproso somos nós? Amor é coisa difícil, principalmente para leprosos. Pensando bem, o pior leproso é o leproso carinhoso.
1. Meus olhos não têm fome. Só minha alma. Transpiro introversão. 2. Meu nome deveria ser Tristão. Ia combinar direitinho. 3. Vivo com meus pares. Com meus pares de sapatos. 4. Sou um ser inadequado. 5. Mais amado do que merece. 6. Sou um amador (em sentido lato). 7. A internet me deixou burro muito burro demais. 8. Sou um rio sem margens. 9. Cego, meu guia é uma tartaruga. 10. Não sou suficientemente santo para prescindir da Igreja.
Você gostaria de ser fotografado e exposto como símbolo da miséria? Gostaria de ser modelo do calendário “Os desvalidos do ano”? Bem, se você for mesmo um desvalido, você nem sabe do que se trata, nem sabe o que é uma máquina fotográfica ou direito de imagem, então, nem imagina o contexto em que lhe inserirão. Uma amiga minha precisava de umas fotos de pobres para fazer um trabalho na faculdade. Pegou uma máquina e saiu tirando foto dos miseráveis que encontrava. Logo nos primeiros flashes se sentiu mal, muito mal. Que direito ela teria de expor aquela pessoa como sendo o protótipo da miséria? Ora, ela não gostaria que fizessem isso com ela, então colocou a máquina na sacola e desistiu da tarefa. Ela não encontrou um bom motivo para ser um tipo de gigolô da miséria desses que tem por aí e, enquanto dispara sua objetiva, “sabe” que está fazendo aquilo por um bom motivo. Na cabeça deles é mais ou menos como matar um rato para ajudar na cura de uma doença. Acontece que gente não é rato e com gente é diferente. A invasão ao direito da imagem não tem conserto. Depois que você aparece, contra sua vontade, na capa do livro de luxo do fotógrafo famoso como sendo o lascado da década, o estrago é indelével. Há outra coisa, um homem do mundo, desses que conhecem todo o planeta e tem boa formação, convence com grande facilidade uma pessoa miserável de que aquela foto não é nada demais. Mesmo uma foto autorizada de uma criança descalça com catarro escorrendo (“posso tirar sua foto, minha filha?” A menina responde que pode) traria problemas éticos à mente de um ser humano normal. Mas os tais “benfeitores da humanidade” discordam do I-Ching, pois para eles os fins justificam os meios e tome porrada e cusparada no indivíduo, pelo bem da humanidade. Toda arte que levanta bandeira dá um tiro no pé. No pé da arte, pois para o bolso do artista, muitas vezes, é bom. A política tem o toque de merdas, quando você infla sua arte de política, ela deixa de ser arte e se transforma em política. Você será lembrado pela sua “mensagem”, ninguém falará da beleza de sua arte, pois ela, de fato, por culpa sua, é apenas empregada doméstica de sua ideologia.
Nelson Rodrigues tem um livro chamado “Não se pode amar e ser feliz ao mesmo tempo”. Vou discordar da frase (ou este post não sai), pois é perfeitamente possível amar e ser feliz ao mesmo tempo sim. O problema é que a dor é a sombra do amor. Haverá sempre um perigo rondando o amor, mas não o tornando infeliz necessariamente. E falo isso de qualquer tipo de amor. Quanto mais amamos alguém, mais nos preocupamos e sofremos com o sofrimento dessa pessoa. Amar é ter mais de uma vida. Um pai sofre as dores de todos os filhos, mas também ri o riso de todos eles. Não é à toa que Nossa Senhora é mais bem-aventurada das criaturas, é que seu filho é o Rei dos Céus. A dor do amor é inevitável. Vinícius resolve a questão da dor inevitável com sua frase “amor só é bom se doer” em um daqueles afro-sambas. É possível amar e ser feliz, mas amar e não sentir dor não, pois não há vida sem dor (e nem vida sem amor, pois o amor é a própria vida). Dor não é sinônimo de infelicidade e pode até significar felicidade. Quando quem amamos espreme um cravo em nossas costas, dói pra caramba, mas é ótimo. Nem tudo que dói é ruim. Felicidade é outra coisa.
Lendo artigos sobre um programa que faz o tuitador ter mais seguidores sem fazer esforço, fiquei pensando. A subida artificial também dá prazer, pois o importante é subir, mas tem hora que a pessoa que subiu artificialmente para para (viu o que a reforma ortográfica fez?) pensar e fica um pouquinho envergonhada de não ter contribuído com a própria subida. Ganhar na mega sena é ganhar dinheiro artificialmente. Os milionários que ganharam dinheiro com seu trabalho devem olhar com desdém para um ganhador da mega-sena (nem devem frequentar o mesmo clube). O ganhador da mega-sena deve se sentir mal de vez em quando por ser tão rico de forma artificial. Sempre me imagino dizendo meus desejos a um gênio da lâmpada. Além de saúde e unzinho pr’eu parar de me virar, pediria capacidade ilimitada de aprender as coisas que gosto e preciso. Dali para frente, seria comigo a responsabilidade de chegar aonde acho desejável. Isto é, mesmo com as habilidades conquistadas artificialmente, eu ia querer fazer um grande esforço para produzir coisas e para meus talentos não parecerem assim tão artificiais. O gênio deveria pensar “tsc, tsc, tsc, gente é bicho esquisito”. Gente quer ter mérito pelo que faz e obtém. Por outro lado, como diz aquela frase do Ronald Reagan, você consegue o que quiser contanto que não faça questão de ficar com os méritos. Muita gente faz o contrário: não consegue o que quer apenas por que não ficaria com os méritos da conquista, afinal, o mundo não admira muito (nem se lembra de) quem deu os passes para os mil gols do Romário. O dogma da graça é um dos mais combatidos, por tirar o mérito da própria salvação da pessoa do pecador e passá-lo para o amor de Deus revelado no sacrifício de Cristo. Inclusive, a maioria das religiões baseia a bem-aventurança a seus fiéis na meritocracia. A graça é uma coisa exclusiva do cristianismo (e do catolicismo em particular, pois há seitas cristãs que também advogam a meritocracia como critério para entrar no paraíso, como se nossos méritos pudessem se equiparar ao amor de Deus). Então, eu me pergunto, como ficarão as pessoas no paraíso? Meio frustradas por não merecerem estar lá? Por estarem lá “artificialmente”? Sentir-se-ão como o ganhador da mega-sena? Terão crises de consciência? Bem, caso alguém se sinta mal assim, é por que não está no paraíso, né? O fato é que o amor é mesmo injusto e, como diz o Padre Vieira, quanto mais injusto for, mais amor é. O inferno sim é o reino da justiça, pois só irá para o inferno quem merecer estar lá. E assim, me pergunto de novo, haverá alguma felicidade no inferno, a felicidade daqueles que sentirão que, no seu caso pelo menos, foi feito justiça e que ele realmente merece estar lá? Isso dará um alívio às almas do inferno e elas serão um pouquinho felizes? Mas, se houver felicidade, não é o inferno, né? Bem, deixo esses paradoxos para a eternidade resolver. E dá licença, que vou ali jogar na mega-sena.
Não brigue estando com raiva. Ela estupidifica. Só brigue quando estiver totalmente calmo. No meio de uma discussão, quando você perceber que a tal está ficando acalorada, peça um tempo: “desculpe, estou ficando com raiva, não vou brigar com você”. O outro, muito compreensivelmente, responde: “puxa, que pena, então fique calmo logo para podermos brigar direito, eu poderia continuar, pois estou totalmente calmo. Ah, que frustrante, não via a hora de te quebrar todo…”. E você responde: “ah, mas eu não sou bobo de brigar com raiva, seria o mesmo que ir ao supermercado com fome, você acaba gastando mais do que deveria, quando tiver calmo, eu volto e te dou uma surra”. E o outro: “eu é que ia destruir isso que você chama de cara, seu merda, você não vale nada, rapaz, você é um paiaço, vem cá que eu te arrebento, seu babaca”. E você diz para seu adversário que agora é ele quem está com raiva e que realmente deveriam parar a briga. E você sai frustrado, logo agora que tinha ficado calmo e pronto para a briga. Eu, por exemplo, que fico enraivecido muito facilmente, jamais brigo.
Sabedoria é coisa de velho. Uma criança sábia é idiota. Acontece que para chegar à sabedoria, você tem que ter experimentado as dores da existência até ficar anestesiado. Quando anestesiado, se você não falar mal das porcarias da vida, não culpar Deus, nem qualquer outro, você é sábio. Sabedoria é a arte de, com resignação, ir parando de comer e beber as coisas que você gosta. Sábio é quem não está puto por não poder mais comer um torresminho. Sábio é o frustrado de bom humor. Isto não significa que o sábio seja masoquista, pois um anestesiado nada sente. Então, temos os dois extremos, a criança chorona a quem nada falta e o velho sábio a quem tudo falta, exceto resignação à realidade. E além deste extremo, há o morto que é o anestesiado completo e que não tem sequer a insípida vida do sábio. O sábio tem que, obrigatoriamente, levar uma vida aborrecida, senão onde demonstraria sua sabedoria? O estoicismo é algo marcante e está presente na vida de santos e homens admiráveis. Então se você quiser ser grande e admirável, pare de se divertir, que isso é muito feio. Enfim, chamar de sábio é a recompensa que se dá a alguém que não reclama da vida aborrecida que leva. Grande coisa!
O universo do que não vejo e não sei é muito maior do que o meu universo visível e apreensível. Gosto de falar do que vejo e sei, mas gosto demais também daquelas coisas que existem, mas que não me foram apresentadas. Amo aquilo que ainda não aprendi. E gasto demais meu tempo pensando nas coisas que não sei e concluindo coisas a respeito delas. Minha mente chega a essas coisas com a mesma facilidade e intimidade com que chega às coisas que me cercam e às certezas que tenho. As coisas que tenho são poucas, o tempo que tenho é diminuto, a vida é curta demais, por isso contemplo mundos sem espaço e tempos sem fim. Quero que tudo o que não sei se misture às coisas que sei. Quero que o universo em que habito viva dentro dos universos onde não estou, pois passeio por eles o tempo todo enquanto reflito a respeito do que jamais saberei.
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