MAIO


É maio. Em maio, sempre me dá uma vontade de mudar algo. É como se eu agüentasse tudo até abril. Maio não! Em maio, algo precisa ser feito. Mas ainda chove. “Que coisa, né? Ainda chove!” Maio me segura pelo colarinho e me obriga a prestar contas de alguma coisa. E aquilo tudo que planejei fazer neste ano, como anda? E o que já estou fazendo, tem futuro mesmo? Logo mudarei de idade. Número é importante. Quando alguém faz 39 anos, sente uma fisgada: o prenúncio dos 40. E fica um pouco triste por fazer 39. Bom mesmo era 38. Quando faz 40, tudo muda, passa a achar 39 um número muito simpático. A mudança de idade é uma das grandes ilusões. Uma ilusão das mais reais. É quando bate em cada um a fobia mais comum destes tempos: a cronofobia, que é o medo exacerbado e neurótico de envelhecer. Ah, sim, a mudança de idade é ilusão porque o tempo não para e a todo instante estamos envelhecendo e um dia depois do aniversário você está tão velho quanto estará no dia seguinte, mesmo que ainda falte 1 ano para mudar de novo de idade. Mas é maio, eu dizia. E acho que maio é assim pra todo mundo (mas sei que não é). Em maio começa certa impaciência com o resto do ano. Carnaval ficou pra trás, a páscoa já é quase esquecida, você não tem mais desculpas para enrolar, pois o tempo grita, bate panelas, dá rasteira, joga água, ri histericamente, critica suas roupas e sapatos, faz débitos em sua conta, ignora seu afã de “porquês”, aplica provas sem avisar, ignora seu corte de cabelo, quebra a quarta corda de seu violão, enche as ruas de carros andando lentamente, não deixa ler livros, provoca dores no pescoço, impede de ver filmes, dá más notícias, escova os dentes em sua frente, obriga a ouvir e falar de futebol, comer fibras e agüentar a religião laica dos esquerdistas, toca canções que você detesta em alto volume, vende um sapato que escorrega, atrapalha o quanto pode e aquilo para o qual você nasceu só floresce e dá frutos em meio a pedras e joios sob esforço heróico. O tempo incomoda com todos os instrumentos que dispõe e os instrumentos são inumeráveis e não se pode reclamar, afinal, a casa é dele, você está só de passagem. Urge que se faça algo para que junho chegue logo. No mês de maio eu entro um e saio outro. É sempre uma revolução. Maio é o mais longo dos meses. É uma espécie de outubro do primeiro semestre. É a quarta-feira dos meses. Segundo ato de ópera longa. 38 anos de um perdedor. 25º ano de uma ditadura. Terceiro ano do curso de Direito. 40º minuto de uma corrida de 1 hora de um sedentário. Folha 12 de monografia. Maio é uma gota no tempo. O tempo é um oceano vasto para que caiba todo o universo (e universos) e todos os espíritos a zanzar por presente, passado e futuro. E é este o maio da questão. Nosso espírito está tranqüilo passeando por julho e ainda é maio. Nosso espírito está todo excitado curtindo janeiro e já é maio. Nosso espírito não gosta muito de nosso corpo, pois vive a fugir dele e parte para se divertir em outros lugares. Nosso corpo sofre os dardos da realidade presente e chama o espírito de volta, pois o corpo só deve agir sob o comando do espírito (o corpo grita para o espírito: “o que é que eu faço?”). E o espírito sofre quando retorna ao corpo. Claro que o espírito deve andar por passados, futuros e por universos múltiplos, pois ele tem o poder de fazer isto e essas viagens fazem parte de sua luta contra a corrupção, embora muita corrupção também advenha de tais viagens. O fato é que o espírito passeia, passeia e passeia (pois ele não é deste mundo). E o corpo se queixa. O espírito tem o corpo para estar na realidade presente. É só nesse momento que ele precisa do corpo. Quando pode fugir da realidade, o espírito só precisa do corpo para poder voltar para ela quando quiser. Mas a realidade presente é enfado. A realidade presente apenas dá ao espírito a incerteza de que ele não existiria fora dela. Quando o espírito tem certeza de que é eterno, de que o corpo e a realidade lhe servem de transporte e que ele, espírito, é o verdadeiro passageiro, a coisa ganha outros contornos e os meses de maio ganham peso maior. (Para ficar maior, maio só precisa de um “R”). Maio fica mais pesado porque a existência também fica. Não é o tempo, é a realidade que pesa, pois a realidade existe para baixar nossa bola, para limitar nossos passos. Mesmo assim, o tempo é útil. O tempo organiza tudo. O tempo é a eternidade colocando ordem nas coisas. Mas o tempo, quer dizer, a realidade concreta e presente é apenas uma opção ao espírito, que vaga, vaga, vaga e só muito de vez em quando se lembra de visitar Brasília, coincidentemente quando a namorada me visita ou eu a ela, quando pego o violão para tocar uma canção, quando faço qualquer coisa que me faça esquecer o tempo. Seria o espírito inimigo do tempo? Lutamos contra tudo o que nos limita e nos delimita. Quando o espírito vem até Brasília e entra como um fantasma a tomar rédea de meu corpo, me dou conta de que é maio e que preciso fazer tudo aquilo que prometi fazer em janeiro e que meu espírito vagabundo ficou vagando por aí e não me deixou fazer. É maio. Maio me deixa assim. Em maio começa a soprar um vento novo. Literalmente vento e literalmente novo, pois não estou aqui só para metáforas. É o vento que anuncia o frio que teremos no ano. O vento que anima um nortista como eu que cresceu sob um sol de 43 graus em média. Um calor absurdo que detona qualquer pretensão intelectual, pois impede vigorosamente toda tentativa de leitura. O calor atrapalha. O vento anima. Ainda estou para entender, talvez morra e não entenda, porque o calor é tão bem visto pela maioria da humanidade. Calor se tem na África, na América Latina e no Oriente Médio. Só lugar miserável, brega ou barra pesada, o que prova incontestavelmente que o calor não desperta boa coisa. O norte e o nordeste brasileiro não são pobres por coincidência. São pobres de calor. Quero um lugar frio, pois o frio nos conduz ao aconchego e o aconchego nos faz mais carinhosos, pensativos e leitores. O calor é como a natureza, é bom na TV. Na vida real, o calor é mau. Como a natureza na vida real é difícil e perigosa. A natureza tem formiga de fogo, cobra coral, onça maracajá, porco queixada, coisas de que só quem vive no mato morre de medo. Quem está na cidade quer proteger, pois só os vê na TV. Pergunte a um caipira o que ele pensa quando vê uma onça e ele responderá: “só penso em acertar um tiro bem no meio da testa do bicho”. Todo o povo deveria procurar o frio e deixar o calor para as feras. Maio tem isso de bom: anuncia o frio. O tempo ficará como acho bom. Brasília tem enorme vantagem, aqui se tem sol brilhante e frio ao mesmo tempo, pois os prédios são baixos e o vento passeia pelas quadras e entra nas janelas. E o céu de Brasília, mesmo coberto de nuvens, é o mais bonito do mundo. Se Paris tivesse o céu de Brasília não seria Paris, seria o paraíso. Maio faz de Brasília uma Paris do cerrado, pois Paris é como Brasília, não tem montanhas. Infelizmente o céu de Paris raramente é azul. As nuvens gostam de Paris. E Paris em seu momento mais quente é como Brasília em maio, são aqueles 20 graus no começo da noite. Que não é frio, mas não é um calor que chegue a incomodar. Os ventos de maio me acariciam. Os ventos de maio me sopram cantigas, sou levado a escrever, a tocar violão, a sonhar mais, fico todo noel, todo capiba, todo guinga, todo Nazareth. Fico todo garoto e me aumenta em um por cento a auto-estima (podem achar pouco, mas 1% é a diferença que os darwinistas vêem entre homens e símios). Não quero falar mais em espírito vagando. Hoje pensei que o que chamo de meu espírito passeando é o que outros chamam de sonho. Distraídos em sonhos, planos, noticiários, o mundo que não para e exige nossa atenção não vemos o tempo passar até chegar maio e nos pedir sua atenção. E maio chega com sua brisa fria pedindo, pedindo, pedindo… Maio é nosso amigo. Amigos chamam atenção. Amigos corrigem. Amigos nos inspiram enquanto nos trazem à realidade. Amigos são os maiores presentes que ganhamos de Deus. No meu caso, Deus me constrange com tanta generosidade. Meus amigos são a razão que tenho para não ter cronofobia, ao contrário, goste de envelhecer, pois isso significa que terei mais tempo com meus amigos, a maioria vivos, graças a Deus. A morte não me assusta, pois já tenho grandes amigos do outro lado e será maravilhoso revê-los. Vocês não imaginam como é perder um grande amigo. Um amigo tão grande desses insubstituíveis como todos os outros. É muito triste. Assustador. Terrível. É traumatizante a perda de um amigo. E de dois? Quando o segundo amigo se vai, outra pessoa enorme e fundamental em sua vida que morre assim quase de repente. Como é? É mais terrível? Mais triste? Mais assustador? Não. A segunda morte de um grande amigo é uma libertação, uma iluminação. Você pensa: “é, é assim mesmo!” e em seguida começa a ver a morte como ela é: uma recompensa por serviços prestados e passa a invejar enormemente seus amigos que morreram e ficar feliz, pois em breve, todos nós estaremos unidos sob a mesma recompensa, como diz aquele pré-socrático, para o qual a existência deve ser paga com a inexistência. A recompensa que tira o presente e dá a eternidade. Tira os limites e nos dá o ilimitado. Tira 5 e dá 95 sentidos novos. Tira a ânsia e concretiza toda a esperança. Esperança no que nem sabemos, pois nossa mente não consegue sonhar com o que nos espera. Não é permitido ao nosso espírito passear por lugares tais antes da morte, quando tudo nos será esclarecido e a guerra permanente que travamos cessará. Uma vez fiz um poema assim: “Se hoje eu morresse / Quantos poemas / Talvez se perdessem / Talvez dezenas / Talvez nem este!” Hoje vejo a morte como um progresso sem nenhuma perda. Além disso, o mundo não precisa de mais poemas. Temos que escrever o absolutamente mínimo. O máximo do unicamente fundamental e nem uma aspa a mais. Tudo o que se escreve é desnecessário, inclusive isto. Nada do que se diz tem importância, inclusive isto. Quem lê tanto, para que se escreva tanto? Mas quem disse que alguém escreve para que alguém leia? Eu, por exemplo, duvide-o-dó que alguém que começou este texto tenha chegado até aqui. Ninguém chegou até aqui e nada perdeu. Quem começar ler a partir daqui sugiro que não leia o começo. Nada perderá. Trata-se de um texto tipicamente secular, mesmo que o tema seja um mês e não o século, mesmo que o termo “secular” não tenha aqui relação alguma com o tempo e sim com o mundo. Secular = mundano. E neste texto secular tento me desvencilhar do tempo que me trouxe de volta da costumeira procrastinação. A procrastinação é um dos impulsos mais humanos porque não gostamos do tempo em que estamos, pois nascemos no tempo, mas não nascemos para o tempo. Ah, meu Deus, essa história não acaba nunca. Preciso fugir de maio, pois tenho que evitar que minha vida seja um eterno presente. A eternidade é mais que um presente. É maio. Maio me deixa assim.

LIMITES E FRONTEIRAS

Limites
Sem limites as coisas não existiriam. Destruir limites é destruir a coisa antes delimitada. Derrubem as fronteiras que os países deixam de existir. Truísmo? É sim, mas ignoram. Vivem querendo acabar com os limites como se isso fosse uma coisa bonita a se fazer. O 4º mandamento diz que devemos honrar pai e mãe. Isso aí consiste em um monte de limites que temos relativamente a nossos pais. O mandamento não diz que devemos honrar os calouros de nossa escola. Nesses, podemos jogar talco, ovos e cortar os cabelos deles com uma tesoura cega. Mas mesmo com relação a eles, há certos limites, mas não os mesmo que temos com relação a nossos pais. E são esses limites que nos faz filhos, pais, namorados, maridos, tudo o que somos. Passe a tratar seus pais como se fossem seus colegas de colégio (destrua os limites entre você e seus pais, aquela linha que faz com que eles sejam os pais e você o filho) e eles não serão mais seus pais. É assim que se mata um pai, como é derrubando fronteiras que se destrói um país. Quando uma criança não tem limites, todos são crianças na casa. Dito isso, a liberdade extrema (algo que só existe no céu platônico) é a autodissolução. Quem é absolutamente livre não é nada. E há coisas das quais é até desejável que sejamos escravos. Por exemplo, não sou livre pensador. Sou escravo da verdade. Pensando bem, toda liberdade também tem sua escravidão correspondente. O sujeito que enche a boca para dizer que é livre é escravo do próprio ego. Cristo morreu por todos para que ninguém viva para si. Aristóteles dizia que devemos ser senhores de nossas vontades e escravos de nossa consciência. Felizmente podemos escolher quem será nosso soberano e é só essa a liberdade possível.

EU TE AMO

“Eu te amo” são como digitais. Cada um tem o seu e você jamais saberá o que o outro quis dizer quando disse a frase. Muitos evitam dizê-la e evitam ouvi-la, como se ela estivesse em uma posição quase intocável na escala ontológica das frases. Outros dizem “eu te amo” a toda hora e circunstância. Ambos estão certos. Deveriam, porém, entender que o seu “eu te amo” não é mesma coisa do “eu te amo” do outro, pois, para alguns são apenas palavras, para outros é a própria divindade, para outros é um meio termo e seguem matizes em quantidade igual a dos pronunciadores. O fato é que o amor humano é mesmo defeituoso e é condicionado. Amamos o que precisamos? Amamos o que necessitamos? Nem sempre. Às vezes amamos a quem, apenas, queremos estar à disposição, mas não queremos, obrigatoriamente, por perto o tempo todo, justamente porque a amamos (fiz há um tempo uma frase assim: “eu te amo, mas, por favor, não tome isto como uma cantada”). Então, dizer “eu te amo” para essa pessoa é o mesmo que dizer “estou a sua disposição” com um pouco mais de ênfase. É dizer também “eu não me caso contigo justamente porque te amo, mas se precisar de mim para qualquer outra coisa, estou aqui”. Enfim, em grego, por exemplo, a palavra “amor” tem vários nomes, diferentemente do português, o que pode significar que sabemos muito pouco sobre o amor, pois o reduzimos quase sempre à mesma coisa. A polissemia sempre atrapalha o entendimento. Além disso, há a velha dificuldade de comunicação entre as pessoas. Para ajudar, sugiro que todo mundo escreva um pequeno texto (coisa pouca, uns dois mil toques só, algo como o tamanho deste post) com o título “O meu ‘eu te amo’”, faça um blog e publique lá para que as pessoas vejam e entendam o que você quer dizer quando diz “eu te amo”. Tenho idéia melhor, todos deveríamos fazer um dicionário (dinâmico, sempre atualizado e alterado, pois podemos mudar de opinião) de nós mesmo para que entendessem o que queremos dizer quando dizemos frases feitas. Seria um dicionário com verbetes como: “diz aí”, “puta que pariu”, “puta merda!”, “tudo bem?”, “eu te amo” (claro), “caraca!” “má-rapaz!”, pois mesmo dizendo a mesma coisa nem sempre estamos dizendo a mesma coisa. “Política”, por exemplo, é uma palavra que eu jamais vou entender a acepção que a maioria dá a ela, mas paro por aqui, já passaram os dois mil toques.

GUERRA E PAZ

A paz, e tudo mais, exige um preço, que devemos pagar com alegria, afinal é maravilhoso viver em paz. É preciso a vigilância de um samurai para que se viva em paz. A paz é o sonho do guerreiro. Só o pacifista não vê. E há também o guerreiro que só vive em paz quando está em plena guerra. As guerras ocorrem por motivos estéticos. Toda guerra é uma questão de gosto. Todo guerreiro, todo exército, todo cangaceiro tem um conjunto de símbolos, vestimentas e rituais puramente estéticos. A arte é uma arma de guerra. A arte mexe com nosso senso estético e este mexe com os outros sentidos. Sem beleza não há amor, sem amor não há ciúmes, sentimento de posse, sofrimento, mágoa, euforia, gozo, frustração. A beleza é o bálsamo e o antibálsamo, a droga e a antidroga, por isso a arte é fonte de guerra e paz. Aliás, quando algo belo entra em sua vida, acabou sua paz. E, por outro lado, vivemos buscando o belo, crente de que só assim teremos paz. A beleza faz falta, ainda que seja só um ornamento. O poeta diz “não existe coisa mais triste que ter paz…” Beleza deveria ser escrita com maiúscula como “Deus”. A frieza dos genocidas é sua indiferença à beleza. Genocida é aquele que mata sua própria gente depois que a guerra acaba. Há uma razão para a maldade: a indiferença ao belo. Dessa indiferença à beleza, surge o cerceamento à liberdade, pois o que é a liberdade? É o direito que queremos ter de gostar sem impedimentos. Não se luta pela “liberdade”, luta-se pelo direito de ler qualquer livro, ouvir qualquer música, ver qualquer filme sem impedimentos. Luta-se pelo direito de achar bonito aquilo que nos deleita e de se deleitar com aquilo que achamos bonito. Liberdade é isto, direito de sentir e buscar o sentimento que quiser. Não é à toa que o livre arbítrio é uma das cláusulas pétreas da lei de Deus. Deus permite que façamos qualquer coisa, mesmo contra Sua vontade porque nos fez livres. Os poderosos, porém, não têm a liberdade em tão alta conta e daí surgem as guerras. A guerra pela paz de viver na guerra em que nossa alma escolher. Pacífico é aquele que vive com a alma em guerra causada pelas tensões estéticas onde é jogado pelas mãos da realidade e é capaz de dar a vida para que o deixem em paz em sua guerra privada.

PRESENTES (SAPO NAMORANDO A LUA)

Presente é coisa que não tem importância. O importante é quem dá e quem recebe o presente. Quando alguém que você não gosta lhe faz um poema, você responde falando dos aspectos formais do texto “puxa, como você é bom de rimas”. Quando alguém que você adora lhe manda um simples batatinha-quando-nasce você vai ao céu de tanto contentamento. Quando alguém que você ama lhe dá um presente bem bobinho, você com seus olhos felizes liga e diz o quanto adorou. Quando alguém que para você é atraente como um leproso lhe dá uma caixa de caviar iraniano, você liga para reclamar “ah, não precisava, você me deixa sem graça desse jeito, faz isso não, tá?” A culpa não é de ninguém, o que se pode fazer quando um leproso cai de amores por nós? O que fazer quando o leproso somos nós? Amor é coisa difícil, principalmente para leprosos. Pensando bem, o pior leproso é o leproso carinhoso.

AUTOBIOGRAFIA

1. Meus olhos não têm fome. Só minha alma. Transpiro introversão.
2. Meu nome deveria ser Tristão. Ia combinar direitinho.
3. Vivo com meus pares. Com meus pares de sapatos.
4. Sou um ser inadequado.
5. Mais amado do que merece.
6. Sou um amador (em sentido lato).
7. A internet me deixou burro muito burro demais.
8. Sou um rio sem margens.
9. Cego, meu guia é uma tartaruga.
10. Não sou suficientemente santo para prescindir da Igreja.

FOTOGRAFIA AMARGA

Você gostaria de ser fotografado e exposto como símbolo da miséria? Gostaria de ser modelo do calendário “Os desvalidos do ano”? Bem, se você for mesmo um desvalido, você nem sabe do que se trata, nem sabe o que é uma máquina fotográfica ou direito de imagem, então, nem imagina o contexto em que lhe inserirão. Uma amiga minha precisava de umas fotos de pobres para fazer um trabalho na faculdade. Pegou uma máquina e saiu tirando foto dos miseráveis que encontrava. Logo nos primeiros flashes se sentiu mal, muito mal. Que direito ela teria de expor aquela pessoa como sendo o protótipo da miséria? Ora, ela não gostaria que fizessem isso com ela, então colocou a máquina na sacola e desistiu da tarefa. Ela não encontrou um bom motivo para ser um tipo de gigolô da miséria desses que tem por aí e, enquanto dispara sua objetiva, “sabe” que está fazendo aquilo por um bom motivo. Na cabeça deles é mais ou menos como matar um rato para ajudar na cura de uma doença. Acontece que gente não é rato e com gente é diferente. A invasão ao direito da imagem não tem conserto. Depois que você aparece, contra sua vontade, na capa do livro de luxo do fotógrafo famoso como sendo o lascado da década, o estrago é indelével. Há outra coisa, um homem do mundo, desses que conhecem todo o planeta e tem boa formação, convence com grande facilidade uma pessoa miserável de que aquela foto não é nada demais. Mesmo uma foto autorizada de uma criança descalça com catarro escorrendo (“posso tirar sua foto, minha filha?” A menina responde que pode) traria problemas éticos à mente de um ser humano normal. Mas os tais “benfeitores da humanidade” discordam do I-Ching, pois para eles os fins justificam os meios e tome porrada e cusparada no indivíduo, pelo bem da humanidade. Toda arte que levanta bandeira dá um tiro no pé. No pé da arte, pois para o bolso do artista, muitas vezes, é bom. A política tem o toque de merdas, quando você infla sua arte de política, ela deixa de ser arte e se transforma em política. Você será lembrado pela sua “mensagem”, ninguém falará da beleza de sua arte, pois ela, de fato, por culpa sua, é apenas empregada doméstica de sua ideologia.

RIMAR AMOR E DOR

Nelson Rodrigues tem um livro chamado “Não se pode amar e ser feliz ao mesmo tempo”. Vou discordar da frase (ou este post não sai), pois é perfeitamente possível amar e ser feliz ao mesmo tempo sim. O problema é que a dor é a sombra do amor. Haverá sempre um perigo rondando o amor, mas não o tornando infeliz necessariamente. E falo isso de qualquer tipo de amor. Quanto mais amamos alguém, mais nos preocupamos e sofremos com o sofrimento dessa pessoa. Amar é ter mais de uma vida. Um pai sofre as dores de todos os filhos, mas também ri o riso de todos eles. Não é à toa que Nossa Senhora é mais bem-aventurada das criaturas, é que seu filho é o Rei dos Céus. A dor do amor é inevitável. Vinícius resolve a questão da dor inevitável com sua frase “amor só é bom se doer” em um daqueles afro-sambas. É possível amar e ser feliz, mas amar e não sentir dor não, pois não há vida sem dor (e nem vida sem amor, pois o amor é a própria vida). Dor não é sinônimo de infelicidade e pode até significar felicidade. Quando quem amamos espreme um cravo em nossas costas, dói pra caramba, mas é ótimo. Nem tudo que dói é ruim. Felicidade é outra coisa.

ARTIFICIALMENTE

Lendo artigos sobre um programa que faz o tuitador ter mais seguidores sem fazer esforço, fiquei pensando. A subida artificial também dá prazer, pois o importante é subir, mas tem hora que a pessoa que subiu artificialmente para para (viu o que a reforma ortográfica fez?) pensar e fica um pouquinho envergonhada de não ter contribuído com a própria subida. Ganhar na mega sena é ganhar dinheiro artificialmente. Os milionários que ganharam dinheiro com seu trabalho devem olhar com desdém para um ganhador da mega-sena (nem devem frequentar o mesmo clube). O ganhador da mega-sena deve se sentir mal de vez em quando por ser tão rico de forma artificial. Sempre me imagino dizendo meus desejos a um gênio da lâmpada. Além de saúde e unzinho pr’eu parar de me virar, pediria capacidade ilimitada de aprender as coisas que gosto e preciso. Dali para frente, seria comigo a responsabilidade de chegar aonde acho desejável. Isto é, mesmo com as habilidades conquistadas artificialmente, eu ia querer fazer um grande esforço para produzir coisas e para meus talentos não parecerem assim tão artificiais. O gênio deveria pensar “tsc, tsc, tsc, gente é bicho esquisito”. Gente quer ter mérito pelo que faz e obtém. Por outro lado, como diz aquela frase do Ronald Reagan, você consegue o que quiser contanto que não faça questão de ficar com os méritos. Muita gente faz o contrário: não consegue o que quer apenas por que não ficaria com os méritos da conquista, afinal, o mundo não admira muito (nem se lembra de) quem deu os passes para os mil gols do Romário. O dogma da graça é um dos mais combatidos, por tirar o mérito da própria salvação da pessoa do pecador e passá-lo para o amor de Deus revelado no sacrifício de Cristo. Inclusive, a maioria das religiões baseia a bem-aventurança a seus fiéis na meritocracia. A graça é uma coisa exclusiva do cristianismo (e do catolicismo em particular, pois há seitas cristãs que também advogam a meritocracia como critério para entrar no paraíso, como se nossos méritos pudessem se equiparar ao amor de Deus). Então, eu me pergunto, como ficarão as pessoas no paraíso? Meio frustradas por não merecerem estar lá? Por estarem lá “artificialmente”? Sentir-se-ão como o ganhador da mega-sena? Terão crises de consciência? Bem, caso alguém se sinta mal assim, é por que não está no paraíso, né? O fato é que o amor é mesmo injusto e, como diz o Padre Vieira, quanto mais injusto for, mais amor é. O inferno sim é o reino da justiça, pois só irá para o inferno quem merecer estar lá. E assim, me pergunto de novo, haverá alguma felicidade no inferno, a felicidade daqueles que sentirão que, no seu caso pelo menos, foi feito justiça e que ele realmente merece estar lá? Isso dará um alívio às almas do inferno e elas serão um pouquinho felizes? Mas, se houver felicidade, não é o inferno, né? Bem, deixo esses paradoxos para a eternidade resolver. E dá licença, que vou ali jogar na mega-sena.

BRIGA

Não brigue estando com raiva. Ela estupidifica. Só brigue quando estiver totalmente calmo. No meio de uma discussão, quando você perceber que a tal está ficando acalorada, peça um tempo: “desculpe, estou ficando com raiva, não vou brigar com você”. O outro, muito compreensivelmente, responde: “puxa, que pena, então fique calmo logo para podermos brigar direito, eu poderia continuar, pois estou totalmente calmo. Ah, que frustrante, não via a hora de te quebrar todo…”. E você responde: “ah, mas eu não sou bobo de brigar com raiva, seria o mesmo que ir ao supermercado com fome, você acaba gastando mais do que deveria, quando tiver calmo, eu volto e te dou uma surra”. E o outro: “eu é que ia destruir isso que você chama de cara, seu merda, você não vale nada, rapaz, você é um paiaço, vem cá que eu te arrebento, seu babaca”. E você diz para seu adversário que agora é ele quem está com raiva e que realmente deveriam parar a briga. E você sai frustrado, logo agora que tinha ficado calmo e pronto para a briga. Eu, por exemplo, que fico enraivecido muito facilmente, jamais brigo.