Novo texto na coluna sobre Música Popular Brasileira, no Imaginário Poético.
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Novo texto na coluna sobre Música Popular Brasileira, no Imaginário Poético.
Escreverei mensalmente sobre a Música Popular Brasileira. Essa primeira coluna, está aqui. ![]() Elomar não faz shows, faz concertos. Jamais se chamaria “songbook” a obra com a partitura de suas canções. O silêncio da grande mídia sobre o lançamento do cancioneiro de Elomar é mais um escândalo que acontece neste país. Desde quase vinte anos, sempre que vou a um concerto de Elomar e consigo falar com ele, pergunto sobre um livro com as cifras de suas canções. E ele me respondia sempre: “tenha paciência”. Na falta de opção, tive paciência e a espera foi recompensada com uma obra mais completa do que eu esperava. O magnífico trabalho feito pelos músicos Letícia Bertelli, Maurício Ribeiro, Hudson Lacerda, Kristoff Silva e Avelar Júnior é, com certeza, excelente argumento a favor deles no juízo final. Eu queria cifras, apenas o nomezinho do acorde em cima da poesia. Nada disso, me deram a partitura precisa da voz e do violão do menestrel do sertão. Trata-se de um documento que se não fosse agora, seria feito em 200 anos ou 300 ou 500, pois daqui a mil anos o mundo falará de Elomar. Xangai, um de seus melhores intérpretes, diz que Elomar é melhor que Shakespeare e melhor que Mozart, pois nunca se viu uma melodia do bardo inglês e nem um poema do gênio vienense. Claro que se trata de um chiste do cantor baiano, mas não chega a ser um exagero, acreditem. Espero ansioso (e com paciência) o livro com as partituras das obras de Elomar para violão solo. Que Deus ilumine e dê ânimo a alguém para enfrentar a empreitada de modo que o produto seja tão bom quanto este “Elomar: cancioneiro” (2008, Duo Editorial Ltda). ps – é injusto deixar de falar do projeto gráfico, dos livros que acompanham os cadernos de partitura, até da caixa que não tive coragem de jogar fora de tão bonita que é. 1. Amar é ter mais de uma vida. Cantar, de olhos fechados, uma canção bonita em língua estrangeira do começo ao fim sem entender o significado das palavras, mas sabendo exatamente o que diz a melodia. As métricas das canções deveriam ter um limite ou um nome, assim a pessoa podia escolher a música que gostasse com a letra que preferisse. Há umas canções que, por coincidência têm a mesma métrica da outra, de forma que você pode cantar uma melodia com a letra de outra. Por exemplo, você pode cantar a letra de “Pense em Mim”, grande sucesso de Leandro e Leonardo, com a melodia de “Pra Não Dizer que Não Falei de Flores” de Geraldo Vandré. Ou vice-versa, pode-se cantar “caminhando e cantando e seguindo a canção” com a melodia de “em vez de você ficar pensando nele”. Outras duas canções que por coincidências de encaixam é “O Caminhoneiro” de Roberto e Erasmo e “Retrato em Branco e Preto” de Tom Jobim e Chico Buarque. Experimente, cante “todo dia quando eu pego a estrada quase sempre é madrugada e meu amor aumenta mais” com a melodia de “já conheço os passos dessa estrada sei que não vai dar em nada seus segredos sei de cor” e vice-versa (desconfio até que o letrista de “O Caminhoneiro” tenha se inspirado de propósito na métrica de Retrato em Branco e Preto, veja que, na frase seguinte “porque eu penso nela no caminho, imagino o seu carinho e todo bem que ela me traz”, o seu correspondente na outra canção seria “já conheço as pedras do caminho, e sei também que ali sozinho vou ficar tanto pior”, perceba que nos dois casos a palavra “caminho” coincide no mesmo lugar da melodia, aliás, na primeira frase a palavra “estrada” nas duas canções estão no exato compasso da melodia, não pode ser mera coincidência, principalmente porque “estrada” e “caminho” é tudo a mesma coisa) (para ficar mais interessante a junção, você pode misturar geral no fim da canção, cantando “vou colecionar mais um soneto, outro retrato em branco e preto, um coração e o nome dela”). Há um caso famoso que não é coincidência. “Nova Ilusão” de Pedro Caetano e Claudionor Cruz que foi gravada por Paulinho da Viola e “Da Cor do Pecado” de Bororó se encaixam perfeitamente, a letra de uma com a melodia da outra. Mas essa foi de propósito, Pedro Caetano e Claudionor Cruz acordaram de um fazer letra e outro uma música alternativa à canção de Bororó. Qualquer soneto alexandrino, por exemplo, ou qualquer outra forma poética com rigidez métrica, pode ser cantado com a mesma melodia que se tenha feito para um deles. Disto isto, para agradar o freguês, os compositores deveriam adotar quatro ou cinco formatos de métrica para composição de suas músicas. Dessa forma, a pessoa poderia escolher a melodia que quisesse com a letra que quisesse. Deve haver muita gente que adora as letras do Vinícius, mas não suporta a melodia do Tom Jobim ou do Carlos Lyra, gosta mesmo de Reginaldo Rossi, por exemplo. Pronto, pegue uma melodia de Reginaldo Rossi e case com uma letra do Vinícius de mesmo formato. As parcerias se multiplicariam, os compositores até lucrariam mais com isto e cada um ouviria a música que quisesse como quisesse. No karaokê seria divertido. Tenho saudades de meu tempo de Garoto. Que veio logo depois de meu tempo de Villa-Lobos e Bach. O tempo de Garoto é algo inesquecível na vida de um violonista. A música mais bonita que ouvi neste ano se chama “Vida Madrasta” (Hermínio Belo de Carvalho e Elton Medeiros). O interessante é que quando a ouvi não sabia que era de Elton Medeiros (um verdadeiro imperador da melodia), mas voltava e ouvia de novo e de novo e de novo e de novo e de novo. Passei alguns dias ouvindo somente essa canção. Devo conhecê-la mais que seus compositores. Assinalo que dois senhores, um de 70 e outro de 75 anos fizeram uma bela canção e o fazem amiúde, não se trata aqui de um acidente. Elton Medeiros (parceiro de Cartola e Paulinho da Viola) é autor de meu samba favorito (Sentimento Perdido, parceria com Paulinho) utiliza para compor suas lindas melodias um instrumento de percussão: a caixa de fósforo. Hermínio é aquele produtor que você pode adquirir o produto ou ir ao espetáculo sem pestanejar, caso seu (his) nome esteja na ficha técnica. Os intérpretes de “Vida Madastra” são Paulinho da Viola e Dona Ivone Lara, que é tudo o que uma canção pode pedir a Deus. 1 Na quadrada das águas perdidas – Elomar
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