A MAIOR PEQUENEZ (POESIA FOTOGRÁFICA II)

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O pequeno invade a retina vazia
A pequenez preenche a morada do dia
E é do quase nada que brota a ventania
Na mínima chama é que queima a poesia

A pequenez nos adoça
E o delicado se apossa
No curto, pouco e raro
Breve, pequeno segundo
Em que a alma se coça

E se abraça à pequenez
Que se torna o supra-sumo
Da mais suprema altivez
No minúsculo vê-se de vez
Do grande todo, o resumo.

A MENOR GRANDEZA (POESIA FOTOGRÁFICA I)

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O retrato do que não se vê
É o que se vê por meio das lentes
Instantes eternos, eternas sementes
Grandezas pequenas, eternos presentes

Que o olho não vê
Mas a alma pressente
Como se admitisse
O óbvio ali ausente
Como se admirasse
O invisível presente

Pois a beleza se vê
Com o olho e a mente
Com mãos e coração
A foto é clarividente
E plena de intuição
Dá-nos o inexistente

HAICAI DA PLANTA CARNÍVORA 3

Estranha, a cantora planta
A carnívora come insetos
E ela, com a boca, canta.

HAICAI SOFRIDO

Qual os bichos do sertão
Me alimento de migalhas
Não de migalhas de pão.

HAICAI DA PLANTA CARNÍVORA 2

Plantas carnívoras infelizes
Queriam sair para caçar
Mas estão presas às raízes.

HAICAI DAS CINZAS

Caem brasas
Quando o fogo
Abre as asas

PLANTA CARNÍVORA 1 - O HAICAI

A planta carnívora ignora
Mas ela é um trem assim
Meio fauna e meio flora.

POIS É, POESIA…

Coleciono algumas coisas:
Refeições, cafés-da-manhã, sonos, sonhos, pensamentos.
Também coleciono olhares, perfis, sorrisos, risos e palpitações.
Coleciono palavras, temas, cismas, contradições, paradoxos e oximoros.
Frustrações, problemas, ânsias, amores, medos e dúvidas.
E principalmente coleciono as certeiras setas do acaso.

Queremos anestesia para a dor,
Mas não para a carícia.
Ora, não é assim que funciona.
A anestesia insensibiliza tudo.
E a carícia precisa do espaço
De andar mão na mão com a dor.

Não se faz cirurgia enquanto o paciente dança.

Não tenho bom senso, nem loucura
Nunca fiz nada que preste, nunca fiz nada terrível.
Nasci, parece, para levar o meio-termo ao extremo.
Para ser o absolutamente morno.
Mas ainda há tempo!
(Enquanto o hexágono não me apanha)

Discordo do consenso, discordo da discórdia.
Não me importo com quem é incoerente
Mas admiro muito quem não o é.
Tenho horas de muita, muita fé
Entremeado de pencas de descrença

Tento não me lamentar quando sofro
Tento não comemorar quando venço
Tento fazer tanta coisa enquanto penso
Mas só me concentro quando nada faço
E a concentração para nada mais vale.

Qual formiga equilibrando fardos
E o fiel que perdeu a inocência
E pende sempre para outros lados
Que na igreja só se lembra de indecência
E no bordel chora o peso dos pecados
E esmagado pelo fardo da incoerência.
Roga a Deus para que seja perdoado.
(Perdoado significa completado)

E de repente não sabe se é ateu ou crente
Pois o ateu também tem lá suas crenças
E o crente duvida absurdamente
Então, como saber o que se é
Se crer/descrer é de todo ser humano?

TROCA DE OLHARES

De longe, me reluzia
Ela que a tantos seduz
Enquanto eu me distraia
Banhava-me em sua luz

Flutuando toda nua
Dama da noite sozinha
Querendo-me toda sua
Como se já fosse minha

Fingindo que eu não sabia
Que eu sabia que ela olhava
Fazíamos-nos companhia

Mas nossa luz se apagava
Enquanto eu aqui me enchia
No céu, ela se minguava.

SANGUE

No meu sangue tem saudades
Tem o pranto que escondi
Tem o riso que guardei
Tem o peso da idade
No meu sangue tem pedaços de mim

No meu sangue há novidades,
Meu sangue não é azul
É vermelho e transparente
Refletindo totalmente
Meus sonhos da mocidade
O meu sangue corre pros mares do sul

No meu sangue há naufrágios
Meu sangue há mapas em branco,
Mantras, astros, mastros, mantos,
Meu sangue é um mar bem frágil.
Onde bóiam multidões.

No meu sangue há tubarões
Sardinhas, gatos, baleias
Meu sangue não corre em veias
Meu sangue voa em tufões
Em que navegam voadeiras

E afogado em meu sangue
Bóia um corpo naquele mar
Que eu tento resgatar
Um corpo bem familiar
De quem não sabe nadar
Mas que teima em navegar
E morre no próprio sangue.

Sou eu o corpo a boiar.
Mas eis que entendo a mão
E me puxo para dentro da embarcação.