AS PALAVRAS E AS IDEIAS

Gosto mais das palavras do que das ideias. Isto é, gosto das ideias para fins de contemplação. Elas não deveriam ser escritas. As ideias deveriam nascer e morrer na cabeça do pensador (inclusive esta). Se assim o fosse, o mundo seria melhor. Tenho medo de boas ideias (boas ideias são como pacifistas, que é gente muito perigosa). Pensar é bom, escrever é ruim. Pensar é o bem, escrever é o mal. Então, gosto das palavras como o amontoado de letras pronunciáveis que são. As palavras existem para serem pronunciadas em boa dicção. O significado das coisas são as coisas. As palavras existem por si, sem nenhuma função, são obras, não matéria-prima. Quando a palavra é boa e bonita não me interessa saber o que ela significa. A prosa sofre do terrível mal da utilidade. Toda prosa conta, descreve, argumenta é, enfim, serva das idéias ou dos acontecimentos. A prosa esta presa. Meu sonho é ver uma prosa tão livre a ponto de ser magnificamente elevada à inutilidade, isto é à categoria de arte.

ALMA

Marcelinho tinha medo de fantasmas. Um dia, na aula de religião, a professora falou que todos nós temos um corpo e uma alma. Marcelinho gelou. “Eu também tenho uma alma?” “Sim, Marcelo, todos nós temos”. Pronto, o menino não dormia mais. De noite, tinha pesadelos, tinha medo que a alma que ele tinha fosse lhe assustar ou pegar no seu pé. Perguntou para a mãe, “mãe, eu tenho uma alma?” “Claro, meu filho, que você tem uma alma e é uma alma muito grande a sua”. Coitado, a alma agora ocupava todo o quarto, de tão grande que era. “Eu não quero ter uma alma”, disse ele à mãe, “eu tenho medo de alma!” A mãe riu muito enquanto o Marcelinho chorava muito. “Meu filho, não precisa chorar nem ter medo de sua alma, ela não é sua, ela é você. Nosso corpo só se mexe, só existe, brinca e come e ama porque a nossa alma faz ele fazer isso. Na verdade nós somos a nossa alma. Você é a alma que tanto teme”. Ah, meudeusdocéu, foi dizer isso para quê? Agora é que o menino não dormia mesmo e quando dormia tinha pesadelos terríveis e repetia, “eu não sou uma alma, eu não sou um fantasma, eu não sou um fantasma, eu tenho medo, eu tenho medo”. “Marcelinho”, disse-lhe o psicólogo, “pessoas não são almas nem fantasmas, só serão almas depois que morrerem, enquanto estiverem vivas, enquanto a alma estiver dentro do corpo, elas são pessoas, não almas. A alma não sai do corpo da pessoa, você não precisa ter medo. Ela está presa e só sai quando Deus quiser. Além disso, sua alma é sua amiga, ela não vai assustar você”. “Mas ela é uma alma, doutor. O senhor não tem medo de almas?” “Não, Marcelinho, não tenho medo.” “E quando ela sair do meu corpo, não vai ser assustador?” ”Quando ela sair do seu corpo, você será mais livre, não terá mais os limites que têm hoje, você poderá voar, viajar para onde quiser, para todos os lugares mesmo, você até verá seu avô que, você perdeu ano passado”. “O Vovô, eu posso me encontrar com ele?” “Claro, com a alma dele, pois as almas não morrem e podem fazer tudo o que o corpo não pode”. “Eu posso ir até na lua?” “Claro que pode, até ao sol e não vai se queimar, pois a alma não se queima, a alma é indestrutível”. “Alma não”, disse Marcelinho já com os olhos brilhando, “Eu, minha alma sou eu. Eu sou indestrutível…” “Claro”, prosseguiu o doutor, “a alma é um sopro de Deus, por isso é eterna e poderosa, é, na verdade, a grande prova do amor de Deus por nós, Ele nos deu uma alma imortal”. “E o fido, doutor?” “Quem é o fido?” “É o meu cachorro, ele tem alma?”. “Não sei, Marcelinho”. “Acho que tem, claro que tem, pois ele também se mexe, brinca e come, mas deve ser uma alma bem menor que a minha, que só ocupa a casinha de cachorro dele, não como a minha que ocupa todo o meu quarto.”

OBAMOCRACIA (ou VIVA A VAIA)

O entusiasmo do povo com o Obama reafirma minha fé na capacidade humana em acreditar nas ilusões deste mundo, personificadas no ser mais improvável e bizarro: o político. O político é um problema que a inocência do povo teima em ver como solução. “Democracia” deveria ser, como o nome diz, “governo do povo”. Mas o povo quer a democracia para tirar o corpo fora e deixar a coisa com um político, que é justamente o entrave da democracia. Apesar da bizarrice, dá para entender um povo inebriado, soltando foguetes e comemorando a vitória de um time de futebol, de pilotos de fórmula 1, mas a vitória de um político?! Caraca! Dá vontade de gritar: “gente, é um político, vocês deveriam vaiar…”. Aliás, eleição é justamente para escolhermos quem vaiaremos (o Millôr diz que jornalismo que não for de oposição é armazém. O que dizer de um povo que não é de oposição, que baba no ovo do burocrata de plantão? Um povo de oposição, isto é que seria saudável). E a crise? A crise que vejo é sempre essa: a eterna ilusão de que um político ou um regime político vai nos salvar. Acorda aí, gente, alegre-se com o curingão que é campeão e voltou pra primeira divisão, porém, sinta pelo Obama o mesmo que sentia pelo Bush Jr, vai por mim. Aliás, o Obama é pior, pois até o direito de vaiá-lo querem nos tirar. Fico muito satisfeito quando um ser tosco é eleito para alguma coisa. Vibrei com a eleição de Severino Cavalcanti (fiz até poemas sobre isso), pois todos detestavam o Severino. Quando um certinho é eleito, tremo! Um certinho, o do pior tipo, acredita no messianismo do povo a seu respeito. Lula é uma mistura de Severino Cavalcanti com Barack Obama e gosto muito de sua porção Severino Cavalcanti, quer dizer, sua parte que me deixam vaiar. O diabo é o Obama. Só voto em quem posso vaiar em paz.

COISAS INVISÍVEIS

O ouvido vê a música, que é invisível aos olhos e não fede nem cheira nem dá coceira. A música é invisível como o ar, como as sensações, o pensamento, o sentimento, a intuição, como Deus. Mas há um ouvido para ver toda coisa invisível que há. Aliás, vivemos procurando o invisível nas coisas visíveis. É um hobby, uma obsessão. Por exemplo, quando chove, buscamos o som e o cheiro da chuva. Quando vimos alguém que não nos provoca coisas invisíveis é como se aquela pessoa não existisse. Tudo o que nos toca, nos delicia e nos perfuma nos remete e nos dá de presente o invisível. E toda coisa visível só existe de fato se ela comporta e for misturada de outras tantas coisas invisíveis, coisas que nenhum dos cinco sentidos apalpa. E há Deus, O invisível por excelência. Quem não tem o ouvido que vê Deus, esse sim, esse surdo de Deus é que não existe. É fácil a um surdo dizer que a música não existe, quando a verdade é que ele é que não existe para a música enquanto tiver essa cegueira nos ouvidos.

BOCA SUJA

Dizem que a boca é uma das partes do corpo que mais germe tem. Tanta sujeira faz da boca um lugar muito inadequado para comer. É necessário uma limpeza com muito sabão, desinfetante e veja multiuso para que você possa comer com alguma tranqüilidade em sua própria boca.

A ILUMINAÇÃO

Desconfiar que somos idiotas, ignorantes é que é o começo da iluminação. A partir daí a vida se torna quase insuportável. Depois volta ao marasmo de antes. Eu acho.

O VEGETARIANO

Já ouvi casos de cães que mataram filhos ou netos dos donos. Certamente tratava-se de cães de raças assassinas e que jamais sentirão pena de ninguém, pois não é da natureza dos animais tal sentimento. Quem cria uma cascavel sabe o risco que corre. Os animais não escolhem, eles seguem a programação natural. Quando uma cobra come uma rã, trata-se de um balé que a natureza faz, onde não há nem sofredores nem vencedores. Nenhuma das duas teve escolha. Sofreram tanto quando sofre uma manga quando cai do pé. Pois bem, muitos têm parado de comer carne por pena dos animais. Torceremos em vão para que os pit-bulls evoluam como essa gente que confunde dor com sofrimento (dor só é sofrimento se fizer parte de um contexto que justifique esse sofrimento, por isto só sofre quem tem alma). A única coisa que dói de verdade mesmo, como diz o médico de uma amiga minha, é a ingratidão. Vegetarianismo por pena dos animais é uma ingratidão com Deus, que nos deu dentre outras coisas, a deliciosa costela de porco assada. (“submetam a terra e dominem todos os seres vivos”, disse Ele ao primeiro casal, no Gênesis). Seja vegetariano, é uma experiência como várias, eu mesmo o fui por quase dez anos, mas não por motivos morais. Por motivos morais, não pratique jamais, isto sim, a ingratidão.

Links relacionais – “A dor e o sofrimento” e “Quem mata o porco” (ainda inéditos, desculpem) e o Digo-vos 108

DIGO-VOS

91 – O pesadelo de muitas mães é que seu filho seja tratado pela mulher do mesmo jeito que ela trata o marido;
92 – O perdão é uma idéia excelente, mas por isto não vá sair por aí sacaneando todo mundo;
93 – O homem jamais se satisfaz porque seu destino – como sua origem – não é este mundo; Aqui não existe o que pode saciar seus anseios;
94 – Os ateus são comandados pelo aparelho digestivo;
95 – Diga para a vontade: “vá com calma”; para o sentimento “fica quieto”; para o entendimento: “pode ordenar”;